Experiência
Deixei as palavras!
Que as leve o Diabo,
Que lhes há de dar maior proveito,
Nessa luta infindável entre o bem e o mal.
Deixei as palavras!
Não quero cá sujeitos nem predicados.
Nem advérbios nem o raio que as parta!
Aqui já não existe o “Eu”,
Esse sujeito compulsivo,
Que do Mundo se apropria
Para a alimentar a sua razão.
As palavras limitam-nos.
Quero o impessoal,
O inumano no humano.
Quero algo que não tem nome,
Mas que existe.
Há quem lhe chame de alma
Ou até de essência.
Não creio nesses nomes.
Esta nossa arrogância de dar nome
Ao que não o tem.
Deixei as palavras!
Elas que se danem!
Nesta minha experiência,
Nova, arrojada,
Sou o que sobrou desse Eu sujeito.
E tudo o que faço,
Não é mais que um resquício
Do verbo que a suporta.
Para isso,
Decidi que devia observar.
Não interessa bem o quê,
Queria somente usar o menos possível
As abstrações do Mundo,
E esquecer as palavras que o compõem.
Algures lá fora,
Uns pássaros vagueavam
Dumas árvores para as outras.
Achei um bom ponto de partida.
Podiam ter sido umas formigas,
Que de palavras nada sabem também.
Para isso, despi-me,
Não quero cá nomes de objectos
A sujar-me a pele.
Estou como vim ao Mundo.
Olhando pela janela,
Observava algo que me identificava sem palavras.
Depois, tanto a pele
Como os músculos,
Como as articulações,
Como os órgãos,
E tudo o que de palpável
Me constitui,
Davam sinais de si.
Sabia que tinha que me libertar deles.
Mas como?
Sabia que esta outra roupa não se tira
Pelo menos, literalmente.
E eles gritavam!
Nomes estapafúrdios
De objectos já em desuso,
Músicas que haviam causado uma reação
A dada altura da minha vida.
Gritavam nomes de mulheres
Com quem já tivera e me esquecera.
Portanto,
Para que a experiência pudesse resultar,
Comecei por tirá-los um a um,
A libertar-me do peso das palavras
Que os tornavam reais e literais.
Mantive-me assim,
Desconstruindo-me passo a passo,
Durante noites e dias.
Houve noites em que a experiência descambou.
Como me era necessário observar,
Para manter o processo de desconstrução,
Houve noites em que as palavras me engoliam,
E eu não era mais que nomes e definições.
Até que me reduzi a algo que não tem expressão,
A partículas desconhecidas que vagueavam
No inumano.
Lembro-me, nascia o dia.
Não o via,
Nem tão pouco o ouvia.
Mas ao perder estes sentidos,
Que me permitem situar no mundo,
Ganhei um outro,
Inexplicável, sensitivo.
Lembro-me como se fosse hoje,
Isto porque voltei a ganhar a forma humana,
E tudo me é recordado tendo em conta o tempo e o espaço.
Oh mas na altura, tudo me era descabido de sentido.
Eu era um deles, tudo me era novo.
Senti essa sensação de não nomear as coisas.
De não enumerar os dias e as horas e os meses e os anos.
Também voei rente ao chão,
Descortinando novos aromas
Com uma sensação de prazer que sufoca.
Hoje, com o fim da experiência,
Voltei a ser homem,
Mas estou muito para além de mim.
Que as leve o Diabo,
Que lhes há de dar maior proveito,
Nessa luta infindável entre o bem e o mal.
Deixei as palavras!
Não quero cá sujeitos nem predicados.
Nem advérbios nem o raio que as parta!
Aqui já não existe o “Eu”,
Esse sujeito compulsivo,
Que do Mundo se apropria
Para a alimentar a sua razão.
As palavras limitam-nos.
Quero o impessoal,
O inumano no humano.
Quero algo que não tem nome,
Mas que existe.
Há quem lhe chame de alma
Ou até de essência.
Não creio nesses nomes.
Esta nossa arrogância de dar nome
Ao que não o tem.
Deixei as palavras!
Elas que se danem!
Nesta minha experiência,
Nova, arrojada,
Sou o que sobrou desse Eu sujeito.
E tudo o que faço,
Não é mais que um resquício
Do verbo que a suporta.
Para isso,
Decidi que devia observar.
Não interessa bem o quê,
Queria somente usar o menos possível
As abstrações do Mundo,
E esquecer as palavras que o compõem.
Algures lá fora,
Uns pássaros vagueavam
Dumas árvores para as outras.
Achei um bom ponto de partida.
Podiam ter sido umas formigas,
Que de palavras nada sabem também.
Para isso, despi-me,
Não quero cá nomes de objectos
A sujar-me a pele.
Estou como vim ao Mundo.
Olhando pela janela,
Observava algo que me identificava sem palavras.
Depois, tanto a pele
Como os músculos,
Como as articulações,
Como os órgãos,
E tudo o que de palpável
Me constitui,
Davam sinais de si.
Sabia que tinha que me libertar deles.
Mas como?
Sabia que esta outra roupa não se tira
Pelo menos, literalmente.
E eles gritavam!
Nomes estapafúrdios
De objectos já em desuso,
Músicas que haviam causado uma reação
A dada altura da minha vida.
Gritavam nomes de mulheres
Com quem já tivera e me esquecera.
Portanto,
Para que a experiência pudesse resultar,
Comecei por tirá-los um a um,
A libertar-me do peso das palavras
Que os tornavam reais e literais.
Mantive-me assim,
Desconstruindo-me passo a passo,
Durante noites e dias.
Houve noites em que a experiência descambou.
Como me era necessário observar,
Para manter o processo de desconstrução,
Houve noites em que as palavras me engoliam,
E eu não era mais que nomes e definições.
Até que me reduzi a algo que não tem expressão,
A partículas desconhecidas que vagueavam
No inumano.
Lembro-me, nascia o dia.
Não o via,
Nem tão pouco o ouvia.
Mas ao perder estes sentidos,
Que me permitem situar no mundo,
Ganhei um outro,
Inexplicável, sensitivo.
Lembro-me como se fosse hoje,
Isto porque voltei a ganhar a forma humana,
E tudo me é recordado tendo em conta o tempo e o espaço.
Oh mas na altura, tudo me era descabido de sentido.
Eu era um deles, tudo me era novo.
Senti essa sensação de não nomear as coisas.
De não enumerar os dias e as horas e os meses e os anos.
Também voei rente ao chão,
Descortinando novos aromas
Com uma sensação de prazer que sufoca.
Hoje, com o fim da experiência,
Voltei a ser homem,
Mas estou muito para além de mim.
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