O Presente
Madalena_Daltro
Na batida da vida muitos de nós vivemos com a síndrome do Moisés Fracassado, que abre o mar, mas não entra na terra prometida...
Outros vivem como um filho adolescente para o que tudo o que se pede é um eterno ecoar de: - já vou, mãe! Quando dá por si, o caminhão da limpeza urbana já passou e o lixo ficou pra trás, ou então o cachorro ficou sem comida, por conta do: - já to indo! É a maldição do gerundismo!
Como se não bastasse, há uma variação na clássica história: “cachorro de dois donos morre de fome!” Embasada em alguma atividade passada ressoa um: - eu já troquei a água, pede pro fulano dar a comida, geralmente o fulano é um irmão. Existe uma birra existencial em viver o presente, em fazer o que tem de ser feito agora.
Por outro lado, uma mãe implora: - anda logo com isso, que não tenho o dia todo! Ou então suspira um: - o tempo não para pra me esperar... Sempre num afã futurístico de que um dia irá descansar. E quando descansa também não vive o presente, vai ao passado para dizer: - na minha época...
No rogo a Deus, dizem: - Senhor, por favor, me atende logo porque não tenho a sua eternidade... Mas no dia a dia, ainda que de forma inconsciente, vive a enfadonha rotina do: - Pra que fazer hoje o que pode ser feito amanhã? Em vez de ouvir a voz da sabedoria: - não deixe para amanhã o que se pode fazer hoje.
A coisa se repete pra todo lado: - Professor! Deixa a gente entregar o trabalho na semana que vem? Ao que o Professor responde: - Não, faz 4 meses que passei o trabalho, não vai ser em uma semana que ficará pronto, entrega do jeito que está. Vem de imediato o ressentimento: – Eu odeio esse professor, tirano! Obviamente nada foi feito em 4 meses... Dentro de mim uma voz diz que esta é a única tarefa da vida que tem a benção dos céus para ser adiado... Sempre deixei para a véspera ou até mesmo o último minuto, há uma concentração de energia e como mágica a coisa fica pronta...
Tudo na vida tem um preço, e o custo disso é que são semanas de angústia e a frase martela na cabeça: - Ai, ainda tenho aquele bendito trabalho pra fazer... Dias de sofrimento e nem um pingo de energia intelectual para a tarefa. Particularmente eu usava como desculpa para a minha indisciplina o pensamento de que, se eu morresse antes do dia de entrega do trabalho terei perdido tempo fazendo o que não queria... A imaturidade tem criatividade...
Há um santo na Igreja Católica que leva em sua mão o dizer: ‘Hodie’ (hoc die), que significa hoje, em latim. A história diz que ele era um militar romano (da época do Imperador Diocleciano), e quando estava prestes a se converter, o demônio por meio de um corvo gritava ‘cras, crás’! Que, em latim, significa amanhã. Mas Santo Expedito respondeu: hoje! Desde então ele foi reconhecido como o Santo das causas urgentes ou da última hora.
O livro: O Poder do Agora, de Eckhart Tolle, é a indicação de leitura para quem está cansado de ter um pé no passado e outro no futuro e fica vendo a vida romper os dias sem concretizar a razão de existir, sem viver o tempo presente.
Obviamente os três tempos têm importância na vida. O problema se instala quando rotineiramente se esquiva do tempo presente; se há silêncio a pessoa prontamente trata de fazer barulho, pra fugir do próprio pensamento em vez de aproveitar a oportunidade para refletir, planejar, sonhar... Num comportamento afoito para sair do presente, inventa de começar mil coisas e quase sempre não termina nada. No fim do dia, não se colocou o lixo pra fora, não deu a comida pro cachorro, muito menos fez o dever de casa. Na ambição de (re)inventar a roda, o que foi feito? Nada!
Se a vida for como uma prova de revezamento, tudo bem não entrar na terra prometida, ou seja, não concluir certos projetos, mas não dá pra ficar empacado, há de se passar a bola para o Josué finalizar a jogada. Então sim, vemos que Moisés não fracassou, cumpriu a missão de tirar o povo do cativeiro.
Trabalhei com gente que sentava em cima de processos e projetos, acho que dava certo prazer na pessoa ver o impacto, ainda que nocivo, que ela provocava no ambiente. Atrasava tudo, atrapalhava o cronograma, era um caos, ninguém ia pra frente, infelizmente isso é muito comum nas empresas e não tem santo que faça a criatura acordar pra vida.
Algumas pessoas acreditam que viver o tempo presente significa se lançar na vida louca. Não, não é. Pelo contrário, essa atitude é mais uma das rotas de fuga do presente, é um se lançar no desespero de quem foge das responsabilidades que o amanhã requer. Equipara-se a quem vive no passado. A fuga para um lugar seguro, pois é conhecido, fácil de acessar e a pessoa se sente no controle daquele tempo que não tem como ser modificado. Eis o ponto: pessoas assim não querem mudar, preferem tentar controlar o que está do lado de fora, numa tentativa de fugir do controle de si mesmo.
Em outros textos, já devo ter dito que algumas pessoas tentam dominar o mar, como se ele fosse abrir passagem. Em vez de controlar o próprio corpo, a própria respiração, a própria angústia de quem se afoga no desespero. Nenhum ser aquático pretende dominar as águas, tem antes o domínio sobre si, vive o momento, não espera a correnteza parar para seguir a vida, até porque ela não para.
O presente é a vida!
Madalena D Fonseca
para o jornal Folha Valle
Cultura & Literatura
Outros vivem como um filho adolescente para o que tudo o que se pede é um eterno ecoar de: - já vou, mãe! Quando dá por si, o caminhão da limpeza urbana já passou e o lixo ficou pra trás, ou então o cachorro ficou sem comida, por conta do: - já to indo! É a maldição do gerundismo!
Como se não bastasse, há uma variação na clássica história: “cachorro de dois donos morre de fome!” Embasada em alguma atividade passada ressoa um: - eu já troquei a água, pede pro fulano dar a comida, geralmente o fulano é um irmão. Existe uma birra existencial em viver o presente, em fazer o que tem de ser feito agora.
Por outro lado, uma mãe implora: - anda logo com isso, que não tenho o dia todo! Ou então suspira um: - o tempo não para pra me esperar... Sempre num afã futurístico de que um dia irá descansar. E quando descansa também não vive o presente, vai ao passado para dizer: - na minha época...
No rogo a Deus, dizem: - Senhor, por favor, me atende logo porque não tenho a sua eternidade... Mas no dia a dia, ainda que de forma inconsciente, vive a enfadonha rotina do: - Pra que fazer hoje o que pode ser feito amanhã? Em vez de ouvir a voz da sabedoria: - não deixe para amanhã o que se pode fazer hoje.
A coisa se repete pra todo lado: - Professor! Deixa a gente entregar o trabalho na semana que vem? Ao que o Professor responde: - Não, faz 4 meses que passei o trabalho, não vai ser em uma semana que ficará pronto, entrega do jeito que está. Vem de imediato o ressentimento: – Eu odeio esse professor, tirano! Obviamente nada foi feito em 4 meses... Dentro de mim uma voz diz que esta é a única tarefa da vida que tem a benção dos céus para ser adiado... Sempre deixei para a véspera ou até mesmo o último minuto, há uma concentração de energia e como mágica a coisa fica pronta...
Tudo na vida tem um preço, e o custo disso é que são semanas de angústia e a frase martela na cabeça: - Ai, ainda tenho aquele bendito trabalho pra fazer... Dias de sofrimento e nem um pingo de energia intelectual para a tarefa. Particularmente eu usava como desculpa para a minha indisciplina o pensamento de que, se eu morresse antes do dia de entrega do trabalho terei perdido tempo fazendo o que não queria... A imaturidade tem criatividade...
Há um santo na Igreja Católica que leva em sua mão o dizer: ‘Hodie’ (hoc die), que significa hoje, em latim. A história diz que ele era um militar romano (da época do Imperador Diocleciano), e quando estava prestes a se converter, o demônio por meio de um corvo gritava ‘cras, crás’! Que, em latim, significa amanhã. Mas Santo Expedito respondeu: hoje! Desde então ele foi reconhecido como o Santo das causas urgentes ou da última hora.
O livro: O Poder do Agora, de Eckhart Tolle, é a indicação de leitura para quem está cansado de ter um pé no passado e outro no futuro e fica vendo a vida romper os dias sem concretizar a razão de existir, sem viver o tempo presente.
Obviamente os três tempos têm importância na vida. O problema se instala quando rotineiramente se esquiva do tempo presente; se há silêncio a pessoa prontamente trata de fazer barulho, pra fugir do próprio pensamento em vez de aproveitar a oportunidade para refletir, planejar, sonhar... Num comportamento afoito para sair do presente, inventa de começar mil coisas e quase sempre não termina nada. No fim do dia, não se colocou o lixo pra fora, não deu a comida pro cachorro, muito menos fez o dever de casa. Na ambição de (re)inventar a roda, o que foi feito? Nada!
Se a vida for como uma prova de revezamento, tudo bem não entrar na terra prometida, ou seja, não concluir certos projetos, mas não dá pra ficar empacado, há de se passar a bola para o Josué finalizar a jogada. Então sim, vemos que Moisés não fracassou, cumpriu a missão de tirar o povo do cativeiro.
Trabalhei com gente que sentava em cima de processos e projetos, acho que dava certo prazer na pessoa ver o impacto, ainda que nocivo, que ela provocava no ambiente. Atrasava tudo, atrapalhava o cronograma, era um caos, ninguém ia pra frente, infelizmente isso é muito comum nas empresas e não tem santo que faça a criatura acordar pra vida.
Algumas pessoas acreditam que viver o tempo presente significa se lançar na vida louca. Não, não é. Pelo contrário, essa atitude é mais uma das rotas de fuga do presente, é um se lançar no desespero de quem foge das responsabilidades que o amanhã requer. Equipara-se a quem vive no passado. A fuga para um lugar seguro, pois é conhecido, fácil de acessar e a pessoa se sente no controle daquele tempo que não tem como ser modificado. Eis o ponto: pessoas assim não querem mudar, preferem tentar controlar o que está do lado de fora, numa tentativa de fugir do controle de si mesmo.
Em outros textos, já devo ter dito que algumas pessoas tentam dominar o mar, como se ele fosse abrir passagem. Em vez de controlar o próprio corpo, a própria respiração, a própria angústia de quem se afoga no desespero. Nenhum ser aquático pretende dominar as águas, tem antes o domínio sobre si, vive o momento, não espera a correnteza parar para seguir a vida, até porque ela não para.
O presente é a vida!
Madalena D Fonseca
para o jornal Folha Valle
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