Escritas

Meu aliado tempo

Carlos Silva
Tenho sob minhas lembranças, o tempo que de mim cuidou e que se fez presente em cada amanhecer, em cada entardecer e zelou as minhas noites de sono embalados pelas cantigas de ninar da minha mãe.
Cresci, e o tempo comigo sempre esteve acompanhando as minhas lutas, umas em cheias e outras em vão, como assim dizia minha mãe, quando queria nos ensinar algo que a vida nos dava, mas que também nos tirava sem prévio aviso.
Ele, o tempo, tornou-se meu tutor, responsável pelos passos que daria na vida após a minha saída de casa em busca da independência, em busca de conhecer o desconhecido. No fundo eu me perguntava: Porque sair de casa de onde tempos tudo sem pagar nada por isso?
Muitas por incontáveis vezes, chorei de saudades de casa, da cama arrumada, perfumada, da comidinha quente de mãe, dos conselhos e correções do meu pai e dos abraços recebidos dos irmãos que junto comigo dividiam sonhos e lutas de viver numa cidade tão pequena, mesmo que tivéssemos nascidos numa megalópole que para trás deixamos. Dos amigos que serviram de base de sustentação da infância livre e sem compromisso de nada.
Os tanques, rios, pescarias, cajus, laranjas, mangas, ficaria a partir da minha ida, apenas na lembrança do gosto imortalizado no céu da boca. Cada lembrança, era um motivo para um choro doce. Não de sofrimento, mas de muitas saudades.
Reconhecia que aquele torrão era o conforto dos nossos sonhos onde todos conheciam todos, e todos (DE ALGUMA FORMA) procuravam ser felizes com o que tinham, com o que eram, com o que faziam para tocar suas vidas interioranas e tão pacatas, mas envoltos em sua paz costumeira e tão cumplice de cada um.
Tudo aquilo seria, em breve, meus objetos de saudades plantados no coração que mesmo antes de ir, já desejava voltar e por ali ficar até quando a vontade de sair esquecesse de mim.
Reconheço que ali era nosso novo universo, mesmo sabendo que chegaria a hora que cada um de nós levantaríamos nossos voos mais longínquos de onde vivíamos, para tentar como tantos, saber o que existe do outro lado das montanhas, onde as nossas vistas somente avistavam o lado daquele sertão que tanto conhecíamos. Após as curvas e as ladeiras, tínhamos uma visão dos montes que víamos imensos no final do horizonte, em cada pôr do sol, como a nos chamar para desbravarmos esse vasto mundo.
Assim, cada um de nós, na proporção devida, seguimos nossos itinerários diferentes, afastando-nos e carregando em nós, somente as boas e imortais lembranças de tudo aquilo que um dia, o tempo nos proporcionara com tanta leveza e perceptível inocência.
Cá estou eu, lembrando um lembrar que para traz deixei há muitos anos. Não sou mais criança, as coisas mudaram, pessoas partiram, os mundos de outrora agora estava dividido em muitos mundos, e para muitos, guardados lá no tempo do esquecimento.
Quer saber de uma coisa? Sem que ninguém me veja fazê-lo, vou chorar um pouquinho escondido, para somente a minha alma notar que estou com muitas saudades do meu tempo que se passou, e com ele, arrastou minhas lembranças que hoje só posso dividi-las comigo e com minhas lágrimas solitárias.

Carlos Silva, em mais uma poesia para Itamira, Município de Aporá, Estado da minha querida e tão amada BAHIA.
58 Visualizações

Comentários (0)

Iniciar sessão para publicar um comentário.