OSCAR DAS LATINHAS
Personagem da minha infância (década de 50 – Rio Claro/SP)
Sentado no chão, embaixo da linha do trem,
Numa passagem subterrânea para pedestres,
Sempre vestido de paletó e calça social,
Forte como um bebê rechonchudo,
Com os pés descalços,
O cabelo raspado e a barba recém feita,
Os olhos brilhando e a boca, faltando dentes,
Sempre aberta em pleno sorriso.
Aos seus pés uma vasilha de alumínio, toda amassada,
Para coletar suas esmolas, que nunca utilizava.
Sim, o Oscar das latinhas
Era um meninão abandonado,
Mas com pais e mães, por todos os lados.
Como poderia não ser feliz?
Brincando com suas latinhas e vidrinhos,
Que encontrou ou ganhou de seus afetos,
Era a própria expressão da felicidade
Sem porquês, sem poréns... só satisfação.
Nunca deixaram de dar um prato de comida,
Nem de trocar suas roupas ou de possibilitar que tomasse um banho.
Para as doenças, creio que não tinha tempo para elas.
O futuro? o passado? bastava o presente...
Mudo de nascença, deficiente mental,
Sem família, mas com muitos amigos.
Nunca fez mal a ninguém e as crianças o adoravam.
Quando morreu, poucos choraram
E levaram seu corpo, sem velório,
Para uma cova de indigente,
Aberta no chão de terra vermelha,
Do cemitério municipal.
Findou uma vida sem sentido,
Mas, por certo, muito feliz,
Como poucas vidas, cheias de sentido,
O foram e tiveram seus corpos
Enterrados, no mesmo chão de terra vermelha,
No setor pago do cemitério municipal,
Enfeitados por algumas coroas de flores,
Com alguns dizeres padronizados.
Ficou o vazio da sua ausência,
Para os seus conhecidos (e eram tantos);
Enorme, diante da sua insignificância social.
Ali, onde sempre viveu, perto dos trens,
Suas latinhas e vidrinhos,
Alegrias diárias de sua vida,
Foram jogadas no lixo,
Onde a tempos deveriam estar.
Onde estava a magia singela
Do Oscar das latinhas,
Que era a amenidade diária,
De quem cruzava a linha do trem,
Que era o arauto da felicidade,
Admirando suas joias do lixo?
De fato, nunca o saberei,
Talvez ninguém o saiba,
Mas foi feliz e encantou pessoas.
Com sua loucura serena,
Fez parte do dia a dia
Cheio de sentidos e obrigações das pessoas,
Com sua total falta de sentido,
Livre de compromissos, como um pássaro no céu.
Grande parte desta magia,
Estava na figura enigmática
Da criança que não pode crescer
E continuou a brincar com o Mundo,
No que podia dele reter: latas e vidros,
Reluzentes e multicoloridos,
Espalhados no chão, feito tabuleiro de xadrez.
O que mais me intriga
É que de todas as vidas,
Que tive que cruzar,
Rumo ao chão de terra vermelha,
Do mesmo cemitério municipal,
É a do Oscar das latinhas
A que mais me dói a alma,
A dizer, na sua inocência de louco,
Que a vida não deve ser levada a sério,
Sob o risco de sermos esquecidos,
Como ele, para tantos, jamais o foi!
Vivemos como pessoas normais,
Mas não somos mais que o Oscar das latinhas,
Que só tinha suas latas e vidros.
Insistimos em brincar com bens materiais,
Em brincar com as pessoas,
Em brincar com as nossas vidas,
Até que a morte, com seu passo de pluma,
Nos enterre no chão de terra vermelha,
De qualquer cemitério municipal.
Sentado no chão, embaixo da linha do trem,
Numa passagem subterrânea para pedestres,
Sempre vestido de paletó e calça social,
Forte como um bebê rechonchudo,
Com os pés descalços,
O cabelo raspado e a barba recém feita,
Os olhos brilhando e a boca, faltando dentes,
Sempre aberta em pleno sorriso.
Aos seus pés uma vasilha de alumínio, toda amassada,
Para coletar suas esmolas, que nunca utilizava.
Sim, o Oscar das latinhas
Era um meninão abandonado,
Mas com pais e mães, por todos os lados.
Como poderia não ser feliz?
Brincando com suas latinhas e vidrinhos,
Que encontrou ou ganhou de seus afetos,
Era a própria expressão da felicidade
Sem porquês, sem poréns... só satisfação.
Nunca deixaram de dar um prato de comida,
Nem de trocar suas roupas ou de possibilitar que tomasse um banho.
Para as doenças, creio que não tinha tempo para elas.
O futuro? o passado? bastava o presente...
Mudo de nascença, deficiente mental,
Sem família, mas com muitos amigos.
Nunca fez mal a ninguém e as crianças o adoravam.
Quando morreu, poucos choraram
E levaram seu corpo, sem velório,
Para uma cova de indigente,
Aberta no chão de terra vermelha,
Do cemitério municipal.
Findou uma vida sem sentido,
Mas, por certo, muito feliz,
Como poucas vidas, cheias de sentido,
O foram e tiveram seus corpos
Enterrados, no mesmo chão de terra vermelha,
No setor pago do cemitério municipal,
Enfeitados por algumas coroas de flores,
Com alguns dizeres padronizados.
Ficou o vazio da sua ausência,
Para os seus conhecidos (e eram tantos);
Enorme, diante da sua insignificância social.
Ali, onde sempre viveu, perto dos trens,
Suas latinhas e vidrinhos,
Alegrias diárias de sua vida,
Foram jogadas no lixo,
Onde a tempos deveriam estar.
Onde estava a magia singela
Do Oscar das latinhas,
Que era a amenidade diária,
De quem cruzava a linha do trem,
Que era o arauto da felicidade,
Admirando suas joias do lixo?
De fato, nunca o saberei,
Talvez ninguém o saiba,
Mas foi feliz e encantou pessoas.
Com sua loucura serena,
Fez parte do dia a dia
Cheio de sentidos e obrigações das pessoas,
Com sua total falta de sentido,
Livre de compromissos, como um pássaro no céu.
Grande parte desta magia,
Estava na figura enigmática
Da criança que não pode crescer
E continuou a brincar com o Mundo,
No que podia dele reter: latas e vidros,
Reluzentes e multicoloridos,
Espalhados no chão, feito tabuleiro de xadrez.
O que mais me intriga
É que de todas as vidas,
Que tive que cruzar,
Rumo ao chão de terra vermelha,
Do mesmo cemitério municipal,
É a do Oscar das latinhas
A que mais me dói a alma,
A dizer, na sua inocência de louco,
Que a vida não deve ser levada a sério,
Sob o risco de sermos esquecidos,
Como ele, para tantos, jamais o foi!
Vivemos como pessoas normais,
Mas não somos mais que o Oscar das latinhas,
Que só tinha suas latas e vidros.
Insistimos em brincar com bens materiais,
Em brincar com as pessoas,
Em brincar com as nossas vidas,
Até que a morte, com seu passo de pluma,
Nos enterre no chão de terra vermelha,
De qualquer cemitério municipal.
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