Escritas

Cheia de Faltas

Clareanna V. Santana
Eu sempre começo o dia
abrindo os olhos.
Queria amanhecer abrindo os braços de um abraço, 
pra variar de vez em quando.
Talvez preenchesse esse vazio que chamam de existencial.

Enquanto o sol adentra pela janela
fico observando como ele esquenta as coisas, 
só não os meus pés.
Meus pés andam frios. Penso até que é solidão,
ou tristeza talvez.

O fato é que a solidão deve ser mãe da tristeza.
Ela é grande e sua filha é pequena e
por isso só nos alcança os pés.

Tenho pra mim que esse vazio é inexistencial, 
pois tem faltas na minha vida.
Algo inexiste em meus dias
e por isso esse frio não passa.
Já levanto sentindo falta de alguma coisa
e vou dormir acumulada de tanta falta.

Parece ilógico, mas estou cheia de sentir faltas.
Meus pés sentem falta,
meus olhos sentem falta,
meu sorriso sente falta.
Começo a pensar que preciso parar de sentir,
como alguns por aí…

Há muito o que fazer na sala, 
sentir às vezes me toma tempo.
Mas como fazer o sentir dar um tempo?
Já tentei contar as horas para ganhá-lo e
só perdi tempo mesmo. 

Não adianta contar…
o tempo não pára, eu não saio do lugar
e não paro de sentir. 
O que é a natureza, não é? Uns sentindo falta de 
tanto e outros com tanto sem dividir.

Clareanna V. Santana
Clareamente