Cartas da vida e brasileiros dramas
Carta I
não tenha a vontade
um mister tão compulsório
que não o de gerir o peito
e furtar-se ao ócio;
que convença o coração
dessa gerência informe
mas que se preze infante
e que se entregue e chore;
que abasteça o peito
de quereres mais amenos
alguma rosa profunda
algum urgente segredo;
que conspire à furto
com a razão mais latente
mas que se queira interina
numa vida permanente;
não traia o corpo
alguma chaga imprecisa
que se derrame sem jeito
pelo bolso da camisa;
antes queira-se frágil
nos exercícios da vida
e desdobre-se em cachoeiras
em que caiba imprecisa;
e arquitete um abraço
que não lhe saiba concisa
no limite de suas carnes
e do tamanho do infinito;
não venha o espaço
querer-se tão limitado
que não comporte um amor
que caiba no seu abraço;
mas que se firme complete
nas lacunas que lhe formam
e informe-se por certo
das colunas que suporta.
Carta II
A gente sempre morre
do tamanho da vida
e sobra em amores pacatos
pelo jeito da notícia
a gente sempre ama
do tamanho do abraço
e nem se sobra ileso
das marcas do que se acha
Carta III
a noite
bóia nos meus olhos
com a mesma tecitura
com que bóia minha alma
pela rua
meu poema
não se acostuma
a ser verbo
que não se assuma
e se não se alça
a exercícios mais táticos
é que bóia também na noite
embrulhado no que acho
a noite
boia nos meus olhos
no gesto mesmo
de uma lágrima
feliz que nem seja tanta
verbo que se queira água
meu poema
não se escusa
a ser um verbo que sinto
e que me acusa
de tê-lo assim inteiro
nas vírgulas em que atua
Carta IV
meu país não obedece
a qualquer geografia
senão as que o povo
constrói na sua folia
Carta V
A lágrima do riso
tem um jeito diferente
é algo assim como um rio
que não tivesse corrente
Carta VI
De cada paixão
resta o desuso
uma peguiça de amar
a longo curso
Português
English
Español