Escritas

Raça não é cor

Davison Furtado
Invisto meu tempo junto a caneta
Perseguindo essa tal liberdade
De olho na ampulheta

Não quero uma dose de coragem
Mas uma garrafa de esperança
Pra passar um dia a mais
Nessa terra rodeada de vingança
E eu sou taxado de louco visionário
Por continuar com a minha humilde relutância

Talvez eu seja só um ser dialético
Me expressando em um tom poético
Vendo que todo preconceito
Só tem haver com algo estético

Sai desse seu mundinho imaginário
Que todo dia cai no conto do vigário
Felicidade e Liberdade
São coisas além do que está no dicionário

Acho que todos só querem um lugar
Onde eu possam morar
Onde se sinta seguro
Que possam do mundo fugir
Onde tenham tempo pra sossegar
E não passem lá pra comer e pra dormir

Não importa de onde vim
E sim para onde vou
E sigo armado de Machado
De Assis e de Xangô
E pra quem não conhece
Ambos tem um teor ameaçador

Entre lagrimas e versos
Amenizo minhas dores
Espero que no fim
Não me reste falar das flores

Ideias perigosas
Muitos tentam coibir
Mas sempre 
Me ensinaram a sempre persistir

Nem todos pensam assim
Uns já estão sufocados com o próprio ego
Quando algo não lhes convém
Simplesmente se fazem de cego

Olhares nos rotulam
Um a cada esquina
Um bando de abutres
Fiscais de melânina

É assim com todos
Todo dia o dia inteiro
Meu sangue é de índio, do português, do negro, do espanhol
E dai se tem traços do mundo inteiro
Meu sangue é vermelho
E a cor é de brasileiro.