Escritas

Do poeta

AurelioAquino
O poeta
nunca é tanto
quando não seja em versos
de outros tantos
que não se têm unos
pelo espanto
de não se virem vários
e perdulários de seus cantos
 
todos os poemas
são um
indizíveis a pouco curso
e que se têm fracionados
na aparência do muito
 
que se espalhem em verbos
vaidosos vocábulos
que aparentam uma vazão
em que não cabem
pois antes são usina
de todo engenho humano
que constroem a individualidade
palavras de pretensos planos
 
e nem por isso
deixam de ser do poeta
e registrado aos solavancos
que a emoção., adredemente,
joga no peito dos humanos
 
todos os poemas
são um
e apenas apontam
nas algibeiras dos poetas
uma nesga do que contam
 
todos os poemas
são o trânsito
de estradas que não palmilham
os pés de uns tantos
que, transeuntes da vida,
apenas se contentam
em escrever seus versos
nas dobras da paciência
por tê-los guardados
no baú coletivo
em que os homens esquecem
a razão dos sentidos
 
todo poeta é igual
nada lhe sobra da alma
em versos que possa armar
que consiga trazer no dorso
qualquer vestígio singular
 
porque plural
não se conjuga aos borbotões
como um verbo intransitivo
que contivesse ilusões
de acabar-se em si
e continuar em milhões
 
todo poema
é uma rinha
dos verbos tantos da gente
brigando pela vida
 
e nem parece mansidão
embora tão pacato
o poema é solução
do que vai na alma
 
todo poeta
é impatriota
nenhum verbo é pátria
que lhe comporte
 
porque de avulso
parecido a um só
esconda o quanto de muitos
convive nestes nós
 
descamba pela vida
como um marinheiro à deriva
que perdeu a esperança de um sol
que lhe demita do mar e da lida
 
todo poeta
é guerrilheiro
que pretende emboscadas
pelo mundo inteiro
não o mundo limitado
dos tempos e dos espaços
mas um tempo de nem onde
e um campo de nem quando
que nem sempre há de
 
todo poeta, enfim,
é otimista e megalômano
pensa sempre que a palavra
é capaz de tanto.
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