Palavras ao Camarada Gagárin
AurelioAquino
A terra não é azul
Camarada Gagárin
tú é que esquecestes a tinta
para pintar de rubro
esses teus óculos de astronauta.
Onde estará gravada
a cor indefinida dos explorados de minha pátria?
Onde estarão grafadas as palavras de rosa
do teu povo?
Fora azul, por certo
talvez por certos mares
em que navios
singram os homens
com a desfaçatez da cobiça
e a inconstância dos ares
fora azul, entretanto,
não conteria os matizes
do meu espanto
em ver irmãos cavalgando a fome
como se fosse naus
sem horizontes
fora azul, todavia,
não teria, certamente,
essa cor indivisível
dos martírios das gentes
a terra não é azul
Camarada Gagárin
onde estarão trançadas
as mágoas avaras dessa gente
que, poucos, vivem a razão
de sobreviventes de viventes
fora azul, malfadadamente,
não conteria a mística fruição
de tudo que não é de repente
antes teria a contrafação
à tudo que não é dizente
e que rola no peito dos homens
como matéria inconsequente
fora azul, Gagárin,
não habitaria teus olhos
com a fartura das correntes
que, assim rios, inventam as manhãs
como um tempo diferente
ainda que escondam noites
no coração desses viventes
fora azul, talvez,
não tivesse a contextura
de uma democracia
com um quê de ditadura
que prende o sonho em teias
espalhadas nos vãos das ruas
a terra não é azul,
Camarada Gagárin,
antes fosse branca como a certeza
de que a ética é um ofício
de permanente natureza
que teima em ser do homem
apesar de toda incerteza
fora azul, assim à meias,
não havia de ser inteira
como o canto infinito
de todas as lavadeiras
que ainda lavam nos rios
os rios em que vagueiam
fosse azul, meu camarada,
não teria a consequência
de ter todas as cores
postas na consciência
das cores que levam um jeito
um certo quê de descrença
fosse azul, assim equânime,
não haveria essa África e o gesto
que infinitam a noirte desses homens
que creem mais nessa noite
que na eficiência do abdômen
porquanto nem seja clara
da desfaçatez da fome
fosse apenas azul, Camarada Gagárin,
como escutar o grito de quem ainda há de?
Como sonhar essa manhã
que chega quando a gente tarde?
Ainda bem, Camarada Gagárin,
que guardadas estão numa luta
as cores variadas da verdade
a devida proporção e memória
do grande tempo da liberdade.
Camarada Gagárin
tú é que esquecestes a tinta
para pintar de rubro
esses teus óculos de astronauta.
Onde estará gravada
a cor indefinida dos explorados de minha pátria?
Onde estarão grafadas as palavras de rosa
do teu povo?
Fora azul, por certo
talvez por certos mares
em que navios
singram os homens
com a desfaçatez da cobiça
e a inconstância dos ares
fora azul, entretanto,
não conteria os matizes
do meu espanto
em ver irmãos cavalgando a fome
como se fosse naus
sem horizontes
fora azul, todavia,
não teria, certamente,
essa cor indivisível
dos martírios das gentes
a terra não é azul
Camarada Gagárin
onde estarão trançadas
as mágoas avaras dessa gente
que, poucos, vivem a razão
de sobreviventes de viventes
fora azul, malfadadamente,
não conteria a mística fruição
de tudo que não é de repente
antes teria a contrafação
à tudo que não é dizente
e que rola no peito dos homens
como matéria inconsequente
fora azul, Gagárin,
não habitaria teus olhos
com a fartura das correntes
que, assim rios, inventam as manhãs
como um tempo diferente
ainda que escondam noites
no coração desses viventes
fora azul, talvez,
não tivesse a contextura
de uma democracia
com um quê de ditadura
que prende o sonho em teias
espalhadas nos vãos das ruas
a terra não é azul,
Camarada Gagárin,
antes fosse branca como a certeza
de que a ética é um ofício
de permanente natureza
que teima em ser do homem
apesar de toda incerteza
fora azul, assim à meias,
não havia de ser inteira
como o canto infinito
de todas as lavadeiras
que ainda lavam nos rios
os rios em que vagueiam
fosse azul, meu camarada,
não teria a consequência
de ter todas as cores
postas na consciência
das cores que levam um jeito
um certo quê de descrença
fosse azul, assim equânime,
não haveria essa África e o gesto
que infinitam a noirte desses homens
que creem mais nessa noite
que na eficiência do abdômen
porquanto nem seja clara
da desfaçatez da fome
fosse apenas azul, Camarada Gagárin,
como escutar o grito de quem ainda há de?
Como sonhar essa manhã
que chega quando a gente tarde?
Ainda bem, Camarada Gagárin,
que guardadas estão numa luta
as cores variadas da verdade
a devida proporção e memória
do grande tempo da liberdade.
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