MEDINDO O TEMPO E A SAUDADE
Carlos Silva
Meus passos encurtaram o caminhar, meu corpo treme pois sente o peso dos anos acumulados que me fizeram escrever a história do meu prosseguir.
Sinto minha voz reverberar e tambem mudar o tom.
Meus ouvidos também sofreram as ações do tempo, e por vezes faço um esforço enorme para tentar entender o que me dizem.
Chego a ficar nervoso num profundo lamento de incapacidade de socialização.
Minhas vistas turvam as imagens e sempre tropeço por nao enxergar direito.
Hoje, contemplo a lentidão do caminhar amparado por moletas que nunca imaginei destas fazer uso.
Meu filho entra no meu quarto e me chamou: Pai.
Porque nao está lá fora com a gente?
Olhei para ele com a ternura de sempre e lhe respondi com voz embargada:
Não quero dar trabalho mais do que já dou meu filho.
Olhei em seu rosto, com um certo lamento, e vi seus labios tremendo ao mesmo tempo que dos seus olhos brotaram lágrimas.
Ele me abraçou e disse: Ô meu pai, meu velho querido e amado pai, mais trabalho eu te dei na vida e o Senhor nunca reclamou meu velho!.
Agora choravamos juntos, para dividir os nossos sentimentos, como a dizer e comprovar em gesto (como aquele que ali acontecia), que sempre foi assim e sempre seria até o fim do meu viver.
Meu filho disse em soluços: Eu te amo meu pai, meu velho querido. Você sempre foi e será o melhor amigo que Deus me deu na vida.
Você é o meu maior orgulho pai. Nesse momento, eu senti uma saudade enorme de lhe pegar no colo, joga-lo para cima e apara-lo vendo o seu largo sorriso e sua confiança que eu o seguraria. Eu o abracei tao forte que se naquele instante eu me despedisse da vida, faria satisfeito a minha passagem pois estaria amparado nos braços do meu filho.
Ele me olha e diz: Pai, muito obrigado por tudo que você fez pra cuidar de mim, da mãe e dos meus irmãos.
As tuas lições meu velho, ficarão comigo por onde eu for. E se eu conseguir ser para os meus filhos a metade do que você foi pra mim, terei conseguido ser um excelente pai para eles, pois a base de tudo foi você meu pai. Meu espelho, meu norte minha bússola de vida.
Nesse momento, meus olhos eram rios de corredeiras felizes e eu agradeci a Deus por estar ali vivendo tudo aquilo, e um filme colorido exibindo bela história, passava em minha mente, e foi ali que eu pude ver imaginar e sentir sorrindo pra mim, a figura do meu pai.
Nisso, entra meu netinho correndo e diz: Vovô vamos lá pra fora, o seu amigo sol ta lhe esperando.
Eu lhe abracei com tanto carinho e ele perguntou: Por que você está chorando vovô e o papai também? Foi meu filho quem lhe respondeu:
Porque o amor, de tão grande que ele é, por vezes, nos faz chorar de alegria, de saudade e de muitas lembranças boas. Né pai?
Sim meu filho, o amor é o maior sentimento que Deus nos presenteia, para nunca esquecermos que Ele é um pai de bondade sem fim.
Tá bom vô. Agora vamos todos la pra fora pois o dia está muito bonito.
Mas antes de sairmos daqui, vamos nos dar um abraço.
Abracamo-nos e eu lhes disse: Vão indo!, eu irei em seguida.
Eles saíram, eu me ajoelhei com certa dificuldade, para agradecer a Deus pelo privilégio de ter sido o reflexo do espelho do meu pai, hoje no rosto dos meus filhos.
Gratidão, também é um gesto de um grande amor
Carlos Silva
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