Escritas

UM DIA, O TEMPO JÁ FOI TODO MEU

Carlos Silva

Um dia, eu tive um Pai zeloso, uma mãe carinhosa, irmãos biológicos e de criação ao meu lado.

Eu tinha uma casa que vivia cheia de gente, da família e de visitantes.
Eu tinha tios e primos, amigos...
Meu Deus, quantos amigos eu tive!
Falávamos as mesmas linguas:
A língua da criança inocente, birrenta e até mal criada, a língua do adolescente envolto em suas revoltas inexplicáveis mas que eram necessárias e inevitáveis para a formação e aprendizado de vida.

Eu entrava em muitas casas sem ser convidado pois éramos todos conhecidos.
Mas o tempo foi passando e a linguagem adulta foi se dissipando na névoa das transformações dos seres, a ponto de nao nos entendermos como antes, pois o diálogo mudara o teor e nao dava mais para traduzir as nossas línguas. Definitivamente, nao nos entendíamos mais.

Bati asas e voei em busca de outros espaços, mas um dia voltei tao esperançoso achando que a mesma inocência das línguas estavam a minha espera.

Nao! Eu nao tinha mais o primor dessa inocência Pois ela somente existia na minha lembrança.
Os meus amigos, nao existiam mais, pois como eu, cresceram, mudaram, ficaram mais sérios.
Alguns deles tão sérios que desaprenderam sorrir, abraçar, perderam o brilho do olhar que nos aproximava e afastaram as suas mãos, recoando-as para que as minhas nao as alcançasse.

Minha casa, nao existia mais, o vazio das lembranças fizeram-me aceitar as perdas e chorei num lamento sozinho temendo mostrar a muitos o tamanho da minha dor.
Os meus pais nao existiam mais, meus irmãos (biológicos e de criação) nao existiam mais. Eu estava ali, mirando o passado e me sufocando nas lembranças em teimosas lágrimas. Senti -me estranho entre tantos que em outrora foram meus conhecidos.
Restaram alguns conhecidos, onde trocamos cumprimentos frios e distantes carregados de um perceptível afastamento e já nao nos identificamos como antes.
Pudera... O tempo mudou ou moldou-nos tanto, que achamos que a nossa (estranheza) seja normal.
Hoje, em muitas casas eu nao entro pois não mais faço parte daquele convívio de outrora, e poucos daqueles amigos tantos que eu tinha, nunca me convidaram para ir até sua morada.
De fato eu nem sei a cor dos seus móveis, a estética da sala ou da sua cozinha.

Creio que há tempos já nos despedimos num tempo passado e tão distante.
Sim, há tempos que já nos despedimos, (apesar de na minha vã insistência em tê-los), como se APENAS PARA MIM, o tempo nunca tivera se passado.

Ainda sinto saudades de todos e de tudo, mas nao posso dividi-la com ninguém.
Conforto-me em saber que: Um dia, o tempo já foi todo meu.

Carlos Silva.
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