20 HERANÇAS
Rosane Martins
20 lembranças trago guardadas
no calabouço do homem.
Possibilidades de eu ser,
visibilidades construídas,
afagos cotidianos da palavra
20 lembranças trago em fortalezas
como se jóias fossem pedaços de gente
esquecidos nas máquinas
que constroem o consumo de hoje.
Avestruzes vorazes da palavra.
20 lembranças deixo esquecidas
porque constatações deixam feridas
abertas no tempo cotidiano.
Permissões para que vivamos mais,
alvarás sem validade, invisível.
20 lembranças me são herdadas,
em rolos de fumo na madrugada fria,
conserto de máquinas e teares,
costuras infinitas de sonhos,
de carteiras secas, vazias.
20 homens desfilam heranças.
Possibilidades articulares de tintas e sons.
Infinidades de conjugações reinventadas.
Tempo presente árido de rimas,
beija-flores que não mais me visitam
20 heranças deixo aqui depositadas,
Em urnas, espíritos de meu tempo sem sombra,
sem amigos, sem colheitas, nem galpões abrigados.
Sem sementes, terra irrigada, deus na contramão.
As palavras destruídas, homens destituídos de si!
Era assim.
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