Escritas

Amor que se ofusca

martimzanatti
Tantas as marés que nos escapam 
Ao olhar, ao olfacto, ao tacto. 
Deambulam-se em sonhos breves 
Entre brumas renascidas dos nenhures do mundo.

Como evocamos no espírito um cheiro nostálgico
De um cozinhado típico 
Por aqueles que já não são mais que pensamento,
Ou de um perfume que nos era querido, 
Assim nos dão por cortesia as marés.

Os seus aromas efémeros, 
As suas vertiginosas fantasias
De sereias enigmáticas,
Entoando sonhos adágios 
Onde se perscruta as profundezas 
De um Albinoni dadivoso e divino.

Onde monstros agrestes 
Balançam os barcos 
De encontro a Caronte 
Que levar-nos-á,
Para a outra margem. 

Se não fosse a pacificidade 
De uma onda que nos restaura 
A vida e a esperança. 

A verdade é que nem tudo são flores pitorescas,
Caixoteiros de boa fé,
Vendendo fruta por tuta-e-meia.
Erva que nos ampara a queda
E mar que com a brisa nos envolve.

As flores murchas, espezinhadas 
E da cor da morte, 
São também reais. 
É de igual vitalidade coexistir com elas 
Conhecer seu cheiro tenebroso, 
Ferrar-nos com seus espinhos da infâmia.

Deixarmo-nos guiar por obscuras nuvens 
Até ao desespero.
Findarmo-nos nas cavernas sequiosas 
Dos nosso piores fantasmas.

Que mais posso dizer do nosso amor.
Há-de voltar, quando a primavera ressurgir.
E a nós — a nós meu amor —
basta-nos,
Como aos homens de Platão, 
Despontar dessas cavernas 
Que nos ofuscam.
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