ACÚMULOS

posso ver sangue escorrendo
e um monte de rímel da avon
na cara dessa gente toda no meio do shopping

eu caminho, cínico,
mexendo no celular
e elas me veem e vem inveja
de não poder estar
perambulando
a esmo
ou em qualquer lugar
que não fosse ali

posso ver tristeza na cara dura
do segurança imponente-impotente,
vejo a boca mover-se em contas atrasadas,
o punho cerrado à pensão alimentícia

vejo ódio nos olhos da moça da loja de roupas
envolto numa boca vermelha aberta
exagerada num sorriso ensaiado no espelhinho do banheiro,
seguido de um mantra
ou qualquer hoponopono 

num pilar espelhado, subindo a escada rolante
vejo os meus acúmulos
que, por motivo de férias,
vão caindo
e descendo
junto aos degraus
e ficando
                         bem

                   lá

           pra

trás.
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