O dia em que Borges leu de novo

Acordei deitado num chão frio. 
Ao olhar para cima
Avistam-se infinitas divisões,
Que ao primeiro relance 
Não me foi possível descortinar. 

Mas julgo que o reconhecimento foi imediato, 
Um clique na consciência.
Havia lido sobre este mundo 
Muitos anos antes, 
Numa terra longínqua a esta,
Num outro mundo.

Eu próprio era tão só
Uma projeção fantástica deste.
A divisão em que me encontrava, 
Era exatamente igual às restantes.

Consistia num hexágono, 
Que por uma escadaria,
Dava acesso aos hexágonos 
Superiores e inferiores,
E assim sucessivamente.

O nome deste lugar, 
Que nunca deixara de me pertencer, 
Era simples e impetuoso.
Biblioteca de Babel. 

Nas várias prateleiras
Avistam-se livros e livros 
De uma simetria divina. 

Tudo o que queria, 
Era pegar no máximo números de livros
E desvendar os mistérios da existência.
Neste lugar, onde tudo está escrito. 

Contudo, uma força maior
(Que também estará explicada num destes infinitos livros)
Lançou-me a subir para o hexágono 93,
Estando eu no 70. 

Não foi pouco o meu espanto
Ao descobrir que este em questão, 
Não se encontrava desabitado.

Quem o habitava,
Faz parecer qualquer noção do fantástico desenxabida.
Folheava um livro, sem o ler. 
Isto, porque era cego. 
Mas nada o proibia 
De gozar a sensação 
ao tactear o papel 
Das 410 páginas a que todos obedeciam.  

Parecia querer penetrar no livro,
Como tudo o que restasse dele 
Fossem histórias. 
Histórias de países inexistentes,
De homens sonhados, 
De escritores reproduzidos.

Pedi-lhe que me deixasse ler em voz alta. 
Sei que era seu costume 
Ouvir alguém narrar-lhe uma história.
O dhcmrlchtdk (nome do livro) 
Nada me dizia sobre o seu conteúdo, 
Nem tinha qualquer significado 
Na nossa língua corrente.     

O tema podia ser sobre qualquer coisa.
Coisas quotidianas, 
Como coisas nunca antes sonhadas. 
Livros teóricos, 
Como romances epistolares.

Não contive um enorme sorriso 
Ao aperceber-me do seu conteúdo.
É dito que Deus escreve direito
Por linhas tortas. 
Muito resumidamente, 
Eram várias dissertações 
Sobre como podem os cegos ler,
Os infinitos livros desta biblioteca.

Chamou-nos à atenção 
Uma teoria avançada
Pelo senhor Cai Lun, 
Sobre o material mágico deste papel. 
A teoria afirmava 
Que este papel não ardia ante o fogo 
E que as letras com o aumento da temperatura 
Tendiam a subir, 
Criando assim relevo. 

É certo que é uma hipótese rebuscada,
Mas feitas as experimentações,
Correta. 

Agora esta Biblioteca, 
Ilimitada e Periódica,
Terá para sempre 
O seu Criador e Viajante Leitor
ab aeterno.
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