Perplexidade

Perplexidade

Em nossa vida cotidiana, estamos bem distante do que se possa chamar de amor, verdadeiramente.
Eu, particularmente, nunca liguei muito para isso. Porém, sempre me perguntava o porquê das pessoas, em sua maioria, não se olharem nos olhos enquanto se comunicavam. Pra mim, uma comunicação sincera, tinha que sustentar um olho no olho. Assim, penso eu, ser possível uma completa conexão Eu sentia essa necessidade desde criança.
Quanto ao amor, não me sentia apto, e, essa minha percepção, me trazia sentimentos não muito bons. Vivia procurando racionalizar toda aquela ebulição emocional. De tudo isso, queria apenas o máximo de distância. Amar e viver em função de alguém, era algo que, de fato, nunca havia passado pela minha cabeça.
Certa vez, estava sentado numa praça do meu bairro, no final de uma tarde de verão. Observava as pessoas que por ali passavam, enquanto tentava ler mais um capítulo de um livro.
Enlouquecido com meus pensamentos, o que dificultava, em muito, ler qualquer coisa. Já, havia me convencido de que, tanto eu quanto qualquer outras pessoa, não tinha essa capacidade de amar, já desenvolvida. Em algum momento nessa vida... quem sabe, algum livro , ou talvez, experiência... mas, agora meu foco era totalmente outro. No entanto, eu sabia que minha aversão ao amor era pouco fundamentada e, repleta de vícios e desejos rasteiros. Nada que alguém dissesse, considerava como argumento válido que pudesse me trazer qualquer esclarecimento com um pouco mais consciente. O amor me parece algo que deixa-nos, assim como estar nus diante daquele ser amado. Diante da vida. Em meio dessa louca confusão que é este mundo. Só tentava, naquele momento conseguir me concentrar na leitura.
Foi quando um casal de idosos me chamou a atenção. Os dois se sentaram num banco próximo ao meu. Ela deveria ter mais de setenta anos. Ele, notavelmente mais velho, a olhava com tanta atenção. Cada gesto, cada movimento seu, era, minuciosamente admirado por ele. Parecia encantado com a presença daquela mulher que, atenciosamente lhe arrumava os cabelos após ter-lhe tirado-lhe da cabeça uma antiga boina de tecido xadrez. Ele acompanhava cada gesto seu com o olhar carregado de carinho, e, fiquei observando, ali, com o livro nas mãos, mas, já deixado de lado, e, pensava com meus botões : " como posso definir isso? "
A manifestação de amor em mim é sintomática. É algo que, todo ser humano, algum dia na vida, sentiu ou sentirá, é um sentimento que não compreendemos. Está lá, como reservado em nós, e vem à tona, não de uma incompreensão racional ou desequilíbrio emocional, pelo contrário vem justamente por vivenciarmos uma experiência tão plena de êxtase que a compreensão humana desse mistério tão poderoso que é, fica faltando algo e torna-se impossível explicar quando o Amor nos pega dessa maneira, nos sentimos plenos e completamente confusos. As consequências são avassaladoras. E, quando isso acontece, é tratado por muito como foi por mim algo de um absurdo total. Quando o Amor acontece, causa em quem ama e é amado uma completa perplexidade, pelo enorme impacto que essa energia produz.

Carlos de Campos
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