Metro sem destino

Vagueio entre a multidão, 
Lúcido como nunca outrora fui. 
Infinitas linhas ténues
Desvanecem-se ao redor, 
Para a inexistência. 

Inúmeras são as silhuetas 
Que oscilam entre o ser e o não ser. 
Umas passam cabisbaixas,
Derrotadas por qualquer força 
Que não controlam. 

Outras desengonçadas, 
Ávidas de vida.
Um homem de vestes gastas
Perfaz a ideia do inconcebível.

Há quem me relembre 
De um sonho 
Que havia tido algures 
No despertar da madrugada.
De um poema rasgado a meio, 
Por falta de palavras para o continuar.

Do outro lado da linha, 
Vários são os transeuntes 
Que olham ingenuamente 
Para um lado 
Como para o outro, 
Na pressa de uma carruagem apressada. 

Sinto, 
No calor das peles gastas, 
A pressa fatídica 
De chegar a um destino. 
A pressa fatídica
De acelerar o presente
Para o futuro desconhecido.

Digo que estou lúcido, 
Não em vão, 
Mas como se a lucidez 
Me tivesse habitado por momentos.

Como se o mundo 
Se desprendesse das suas incertezas
E me se apresentasse cru. 
Onde as cores se evaporassem 
E o branco enaltecesse
A sua clarividência. 

Observo as pessoas
E sinto-lhes o Fado.
O pesado Fado do rio 
Que cessa enfim. 

É sempre um mistério
O que nos apega à vida. 
Vêmo-la desfalecer 
Nesta rotina interminável,
Por vezes tão medíocre.

Resta a esperança
Que nos encarece a vida.
E nos luze o futuro.

Mas não é isto a morte? 
A nossa esperança no futuro 
Não mais é, enfim,
Que o caminhar para a morte.
Caminhar esperançosamente para um futuro 
Sempre melhor que o presente.
É apressar o presente 
Para atingir o que lhe advém. 
E assim o é toda a vida.

A carruagem do metro chega
E entro,
Como tantos outros passageiros.
No meio das inúmeras caras desconhecidas 
Sinto um elo que nos une.
Mais forte que a própria vida. 
O mítico barco que, 
Por mais caminhos percorridos, 
Nos levará sempre a bom porto. 
Até que chegue ao irrevogável porto. 

Como é absurdo tudo isto,
Digo-o delirante.
E sinto,
Eterna pena da humanidade, 
Que jamais viverá o presente
Do modo como o sonhou no passado. 
E assim o é
Para toda a Eternidade.
152 Visualizações

Comentários (0)

Iniciar sessão para publicar um comentário.