O Matos

Uma multidão percorre
A rua que me está defronte. 
Olho-a da janela velha 
E desumanizada. 
O fumo do cigarro
Vai-se escapulindo
Entre as suas brechas,
Perdendo-se no ar matinal 
Deste dia de Outono.

Percorro com os olhos este ajuntamento 
E avisto alguns cartazes 
Sobre estas lutas infindáveis
Que são invariavelmente 
O âmago da humanidade. 

Grito, sem falar,
Viva à Liberdade!

Continuo percorrendo com estes olhos, 
Esta corajosa marcha 
A que eu poderia muito facilmente pertencer.
Ensopado em suor, 
Com um ilustrativo cartaz 
Bramido aos Deuses.

Mas, o que é a Liberdade?
Sim, o que é?
A que cheira? Sente-se?
Vive-se? 

Temo que não saiba responder. 
No entanto, sinto na pele
O fulgor e a obrigação
De ter um cartaz na mão,
E lutar por ser livre.

Sento-me na poltrona 
Que solitariamente enfeita a sala. 
Uns raios de luz desnudam
O estofo velho e gasto.
Folhas outonais 
Entram furtivamente pela janela 
Com a brisa matinal.    
Um espelho encontra-se defronte,
Mostrando uma cara embrutecida 
E melancólica. 

Lembro-me dos momentos em que saltava do lugar,
Enérgico e convencido de que ia mudar o mundo.
Para isso, 
Bastava-me um poema fugaz 
Ou um romance filosófico. 

No entanto, 
Quedo-me na segurança do meu lar, 
Enquanto outros lutam 
Pelas causas do mundo,
Sendo elas tantas! 
Muitas vezes me questiono 
Por que causas realmente devemos lutar
Estando tudo tão distorcido.

A realidade, se a houvera,
Muito possivelmente perdeu-se
Ante o abandono de Deus, 
Com a mesma facilidade  
Com que perdemos brincos 
E pessoas. 

Será essa a diferença?
Eu que nenhuma certeza tenho, 
Ante a total certeza dos que lutam. 
Não...é do espírito. 
O meu não é de lutador.
Sou dos que se quedam em sonhos grandes 
E feitos tão pequenos.

Sou dos que idealizam
Mudanças trágicas 
E vitórias justas. 
Mas que realizar-se-ão sempre 
No dia depois deste. 
Nunca fui a marcha alguma, 
E a realidade arde-me como fogo. 

Ouve-se um grito abafado 
Que ecoa na humidade das paredes, 
A marcha estagnou. 
Hora do lanche. 
Até as lutas têm as suas pausas,
Como não havia de ter a minha vida, 
Estagnada há tanto tempo.

Desde o tempo
Em que a ilusão caiu 
Como um vestido desprendido 
No fulgor do momento. 

Não sou mais que um rosto cansado, 
Sem propósito algum. 

Oiço mais um grito 
E a marcha segue caminho.
Será o meu ponto de partida, 
Mas estou cansado de mais. 

A vida passou por mim 
E nem dei por ela. 
Prometi fazer tudo 
E nada fiz.

Hoje almoço no Matos.
Desço pela calçada e,
Ao longe,
Protestos e lamentos 
Ecoam tão profundos.

A minha apatia é tão gigante,
Que gela toda a exuberância
Que emana neste espaço.

Metamorfoseei-me do Camelo em Leão
Há muito tempo, 
Enquanto percorria os pesados escombros dos espíritos. 
Mas nunca derrotei o Dragão que me perseguia e,
Até ver, 
Sempre me foi pesada esta noção de espírito. 

Quedo-me pensativo 
No meio dos transeuntes
Suados pelo arcar da marcha. 
E pesa-me, 
Como nunca me pesou,
A minha figura sólida
E a minha mente ativa.
Pesa-me a realidade,
Pesa-me a existência.

Os pés embrutecidos 
Não me permitem andar.
Encontro-me entre o limiar do ser
E do não ser.
Entre se desejo a realidade 
E luto por ela,
Ou se vivo estático,
Neste mundo próprio, 
Impenetrável.

Vejo a marcha partir.
Entro no Matos
E cumprimento-o. 
Boa tarde, Matos. 
Peço o mesmo de sempre 
E a monotonia dos dias
Atinge-me como um raio.
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