Escritas

GILDA

rfurini

 Quem diria que aquela senhorinha miúda,
caminhando arcada já,
sentindo o peso da idade,
fora em outros tempos, uma linda e exuberante jovem,
pernas roliças, e peitos empinados, 
Passando pela pela praça XV, arrancando suspiros, e revirando os olhos dos feirantes,
estes, mal conseguiam controlar seus olhares, ao vê-la passar, tamanha era,
a exuberância desta mulher.
Ao vê-la assim hoje,
arrastando o peso da idade, tão sofridamente,
Jurava que tal feito era exagero,
Mas minha mãe jurava que sim,
D. Gilda, fora uma dessas mulheres - de parar o trânsito,
Como era costume se dizer na época,   
Contava ela,  que em sua meninice, saia com minha vó as compras, e o que  mais lhe
chamava atenção, era D. Gilda,
Mulher minhonzinha, de curvas perfeitas, bunda e peitos empinados, cabelos escuros e ondulados,
E a boca carnuda sempre muito vermelha, esbanjava sorrisos, e gesticulava muito ao falar, 
Não tinha como não prestar atenção naquela mulher, 
Era a florista do bairro,
Todos comentavam sobre sua beleza, e simpatia,
Minha mãe conta, que depois de algum tempo, notou que D. Gilda havia deixado
Sua banca de flores no centro,
Soube ela tempos depois que essa, havia se casado com um comerciante do bairro,
Ele, muito ciumento, disse que agora casada, era mulher direita, não precisava mais trabalhar
Ele, honraria com todas a despesas da casa, ela por sua vez só teria que ser do lar,
Cuidar da família, como toda mulher honesta devia fazer.
D. Gilda resignada, e ciente de seu papel de esposa, nem ousou questionar, 
Até porque nem era costume da época.
E então no auge de sua formosura, assumiu seu papel de esposa, e a praça XV
Perdia então todo o seu encanto, 
Os passeios de muitos, deixaram de ter graça, sem a presença da florista sorridente do bairro.
Mas voltemos para D. Gilda,
Não demorou muito, ela pariu o primeiro filho,
Logo em seguida veio o segundo, e depois do terceiro, disse a Amadeu, seu amado esposo,
- já temos três, chega né!?
- Mas não temos nossa menininha ainda, 
  - Depois que tivermos uma filha,  sim... paramos.
D.Gilda não questionou, afinal desejo de esposo, não se questiona, acata-se.
Depois do quinto filho, nasceu Catarina, linda, olhos negros, cabelos escuros e ondulados
Já nasceu sorridente, seria igual a mãe, com certeza.
D. Gilda pode então sossegar, criar seus seis filhos com tranquilidade, afinal Amadeu, era 
Homem do comércio, trabalhador, e supria as necessidades da família, como todo homem
Honrado da época fazia.
Mas eis que o destino, tem suas próprias regras, e escreve a história de D. Gilda de uma maneira diferente
do que vinha se desenhando até então.
Antônio, seu filho mais velho, tinha então 11 anos qdo o pai veio a falecer,
Um mal súbito interrompeu a vida daquele pai de família, deixando para viúva,  seis filhos pequenos,
e um comércio falido
A viúva endividada, com a venda do comércio, conseguiu saldar as dívidas,
Por sorte a casa onde morava, foi dada como quitada pelo credor
Mas os filhos pequenos tinham necessidades,
Precisavam de escola, roupas, alimentação,
e D.Gilda, já sem sua banca de flores, foi buscar emprego no comércio do bairro.
Depois de parir seis filhos, D. Gilda já não tinha aquela exuberância de outrora, mesmo assim
Ainda era uma mulher bem apresentada,    
Conseguiu emprego em uma loja de um amigo do falecido,   
Iria trabalhar no balcão, vendendo tecidos,
Não entendia muito do assunto, mas era esforçada, e de vendas entendia muito bem,
Só trocaria as flores, por tecidos.
Feliz com o emprego, já que esse iria lhe garantir o sustento de seus filhos,
Não tinha tempo para queixas e nem lamuriações,
Trabalhava muitas vezes até 10 hrs diárias, em pé, cortando tecidos,
e quando chegava em casa, todas as tarefas domésticas lhe aguardavam
Antonio, seu filho querido, tomava conta dos irmãos, mas, menino pequeno que ainda era,
Tinha suas limitações, mesmo assim, mantinha os irmãos sempre ocupados,
com as tarefas de aula todas em dia, limpos e bem alimentados,
D. Gilda tinha o maior orgulho de vê-los assim, unidos, sob a supervisão de seu mais velho.
E assim foi a vida dessa mulher arcada, que hoje passava por mim na praça XV.
Entre o trabalho, a casa e os filhos, ela foi levando a vida sem nunca reclamar,
nem lembrava mais, que em outras épocas,  arrancava suspiros dos feirantes, quando a viam passar,
Seu papel de dona de casa e  mãe de família, apagaram todos os traços de uma jovem vaidosa, e exuberante, 
seu viço, e sua juventude,  hoje, são lembranças daqueles que a conheceram em outros tempos.
Antonio hoje é Dr,  em em uma cidadezinha no interior, e nunca deixa que lhe falte nada,
Me contou a minha mãe, a um tempo atrás, que o desejo de Antonio , 
era levar sua mãe morar com ele,
afinal morava com sua esposa, e filha em uma
Casa grande e confortável, com empregados, que poderiam atender todas as necessidade
De D.Gilda,
mas segundo ele mesmo disse, quando o convite foi feito, a recusa veio de um jeito amoroso, mas firme.
- Vou não meu filho, gosto da minha casa, e vc e sua família tem que viver sua própria vida,
Seus irmãos estão sempre por perto, não te preocupa, nada me falta, estou bem assim, e p mim, maior realização nesta minha vida, é saber que vcs todos estão bem, todos formados,
Vc dr, seus irmãos advogados, trabalhando juntos, e sua irmã dentista, felicidade maior não tem meu filho, a única coisa que peço a Deus, é que continuem me visitando, e me trazendo meus netos,  p que eu possa vê-los,
pq velha como estou já, fica difícil eu ir até vcs, então te peço meu filho,
não me tira da minha casa, sou feliz aqui!   
Então Antonio, sempre que pode cumpre a promessa feita,
reúne os irmãos e suas famílias, e enchem a casa d D. Gilda de alegria, e neste dia,
Todos voltam a infância simples, mas feliz, que viveram naquela casa.
Quando escutei de minha mãe, a história de D. Gilda e seus filhos, senti um amor imenso por esta mulher,
e hoje,
Toda vez que ela passa na praça XV , em frente a minha banca de flores,
Sinto uma profunda admiração e respeito,
Consigo ver naquela sinhorinha miúda, que passa a passos lentos,
A exuberância e a beleza da
Jovem Gilda de outrora.

RFURINI

03/2020
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Comentários (1)

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wilson1970
wilson1970
2020-03-29

História incrível Parabéns