UM ANJO MISERÁVEL
Existe um menino, com olhar parado, quieto. Às vezes procura sorrir para chamar atenção, mas acha que sorriso dói. Fica todo dia no mesmo lugar, oferecendo doces aos motoristas que, irritados, dizem não. Mais um não na sua vida de criança.
Seu mundo é a rua, a calçada, as esquinas, os motoristas zangados. Sua música é o som dos carros, ônibus, motos e caminhões que cruzam a avenida, deixando o calor do combustível desperdiçado na correria em vão do dia a dia. Seu quadro é pintura inesquecível do céu acinzentado , sufocante e poluído da cidade. O frio que chega da noite diz que é tempo de se recolher, talvez para debaixo de algum lugar.
As horas passam e chega o entardecer. Teve sucesso, dinheiro pra um lanche! Com os bolsos cheios de moedas, estampa um sorriso no rosto e entende que não é tão estranho sorrir.
Prepara-se para ir embora quando avista uma mulher com um bebê. Ela está deitada com sua cria, que berra de fome em cima de trapos imundos e rasgados.
O menino, sujo e fedorento, atravessa a rua e entra no bar mais próximo. Todos o olham com medo. Será um assalto? Será que viverão à essa catástrofe que assola o homem branco de bem, contribuínte da sociedade?
O mesmo garoto compra um litro de leite e volta para aquele resto de ser humano abandonado com seu filhote do outro lado do paraíso. Num gesto de ternura, oferece a bebida à nova vida que, impaciente, grita pedindo a comida que a mãe não pode lhe dar.
A mulher sorri e agradece. Deus lhe pague!
O menino segue seu caminho mais miserável e feliz do que nunca, pois sabe que contribuiu para que uma nova pessoa sobreviva mais um dia.
ANO:1998
Seu mundo é a rua, a calçada, as esquinas, os motoristas zangados. Sua música é o som dos carros, ônibus, motos e caminhões que cruzam a avenida, deixando o calor do combustível desperdiçado na correria em vão do dia a dia. Seu quadro é pintura inesquecível do céu acinzentado , sufocante e poluído da cidade. O frio que chega da noite diz que é tempo de se recolher, talvez para debaixo de algum lugar.
As horas passam e chega o entardecer. Teve sucesso, dinheiro pra um lanche! Com os bolsos cheios de moedas, estampa um sorriso no rosto e entende que não é tão estranho sorrir.
Prepara-se para ir embora quando avista uma mulher com um bebê. Ela está deitada com sua cria, que berra de fome em cima de trapos imundos e rasgados.
O menino, sujo e fedorento, atravessa a rua e entra no bar mais próximo. Todos o olham com medo. Será um assalto? Será que viverão à essa catástrofe que assola o homem branco de bem, contribuínte da sociedade?
O mesmo garoto compra um litro de leite e volta para aquele resto de ser humano abandonado com seu filhote do outro lado do paraíso. Num gesto de ternura, oferece a bebida à nova vida que, impaciente, grita pedindo a comida que a mãe não pode lhe dar.
A mulher sorri e agradece. Deus lhe pague!
O menino segue seu caminho mais miserável e feliz do que nunca, pois sabe que contribuiu para que uma nova pessoa sobreviva mais um dia.
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