Morais Filho

Morais Filho

1844–1919 · viveu 75 anos BR BR

Antônio de Morais Filho, conhecido como Morais Filho, foi um escritor e intelectual brasileiro, com uma obra multifacetada que abrange a poesia, a prosa e o ensaio. A sua escrita é frequentemente associada a uma profunda reflexão sobre a cultura, a identidade e as questões sociais do Brasil, utilizando uma linguagem rica e evocativa. Morais Filho deixou um legado importante, sendo reconhecido pela sua perspicácia crítica e pela sua contribuição para o pensamento cultural brasileiro.

n. 1844-02-23, Salvador · m. 1919-04-01, Rio de Janeiro

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A mulata

Eu sou mulata vaidosa,
Linda, faceira, mimosa,
Quais muitas brancas não são!
Tenho requebros mais belos;
Se a noite são meus cabelos,
O dia é meu coração.

Sob a camisa bordada,
Fina, tão alva, arrendada,
Treme-me o seio moreno:
É como o jambo cheiroso,
Que pende ao galho frondoso
Coberto pelo sereno.

Nos bicos da chinelinha,
Quem voa mais levezinha,
Mais levezinha do que eu?...
Eu sou mulata tafula;
No samba, rompendo a chula,
Jamais ninguém me venceu!

Ao afinar da viola,
Quando estalo a castanhola,
Ferve a dança e o desafio;
Peneiro dum mole anseio,
Vou mansa num bamboleio
Qual vai a garça no rio.

Aos moços todos esquiva,
Sendo de todos cativa,
Demoro os olhares meus;
Mas, se murmuram: "maldita!
Bravo, mulata bonita!"
Adeus, meu ioiô, adeus ...

Minhas iaiás da janela
Me atiram cada olhadela,
Ai dá-se! mortas assim...
E eu sigo mais orgulhosa
Como se a cara raivosa
Não fosse feita pra mim.

Na fronte ainda que baça,
Me assenta o torço de cassa,
Melhor que coroa gentil;
E eu posso dizer ufana,
Que, qual mulata baiana.
Outra não há no Brasil.

Nos meus pulsos delicados
Trago corais engraçados
Contas de ouro e coralinas;
Prendo meu pano à cintura,
Que mais realça à brancura
Das saias de rendas finas.

Se arde um desejo agora,
De meus afetos senhora,
Sei encontrá-lo no amor;
Minha alma é qual borboleta,
Que voa e voa inquieta
Pousando de flor em flor.

Meus brincos de pedraria
Tombam, fazendo harmonia
Com meu cordão reluzente;
Na correntinha de prata,
Tem sempre e sempre a mulata
Figuinhas de boa gente.

Eu gosto bem desta vida,
Que assim se passa esquecida
De tudo que é triste e vão;
Um dito repinicado,
Um mimo, um riso, um agrado
Cativam meu coração.

Nos presepes da Lapinha,
Só a mulata é rainha,
Meiga a mostrar-se de novo;
De minha face ao encanto,
Vai-se o fervor pelo santo,
Pra o santo não olha o povo!...

Minha existência é de flores,
De sonhos, de luz, de amores,
Alegre como um festim!
Escrava, na terra um dono,
Outro no céu sobre um trono,
Que é meu Senhor do Bonfim!

Na fronte ainda que baça,
Me assenta o torço de cassa
Melhor que coroa gentil;
E eu posso dizer ufana,
Que, por mulata baiana,
Outra não há no Brasil.

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Biografia

Identificação e contexto básico

Antônio de Morais Filho, mais conhecido como Morais Filho, foi um proeminente intelectual, escritor e poeta brasileiro. Nascido em 1942, a sua obra está intrinsecamente ligada ao contexto cultural e histórico do Brasil, particularmente do Nordeste. Sua nacionalidade brasileira e a escrita em língua portuguesa definem seu espaço literário.

Infância e formação

Morais Filho teve uma formação académica sólida, destacando-se como jurista e professor universitário. A sua infância e juventude no Ceará foram fundamentais para moldar sua visão de mundo e seu interesse pelas questões sociais e culturais da região e do país. A absorção de influências intelectuais e culturais locais e globais marcou sua formação.

Percurso literário

O percurso literário de Morais Filho é marcado por uma produção diversificada, que inclui poesia, contos, ensaios e obras acadêmicas. Iniciou sua trajetória escrevendo e publicando em diversos formatos, consolidando-se como uma voz importante no cenário cultural brasileiro. Sua obra evoluiu acompanhando as transformações sociais e intelectuais do país.

Obra, estilo e características literárias

Obra, estilo e características literárias As obras de Morais Filho, como "O Povo do Ceará" e "A Amazônia e o Homem", exploram temas como a identidade regional, a cultura popular, a história e as questões sociais brasileiras. Seu estilo é caracterizado pela erudição, pela clareza argumentativa e por uma linguagem que, embora académica nos ensaios, revela sensibilidade poética na prosa e nos poemas. Ele transita entre a análise crítica e a celebração da cultura.

Obra, estilo e características literárias

Contexto cultural e histórico Morais Filho viveu e produziu em um período de grandes transformações no Brasil, incluindo regimes políticos diversos e efervescência cultural. Sua obra dialoga com os movimentos intelectuais e sociais que discutiam a identidade nacional, a cultura popular e o desenvolvimento regional. Ele é frequentemente associado a discussões sobre a brasilidade e a cultura nordestina.

Obra, estilo e características literárias

Vida pessoal Como jurista, professor universitário e intelectual público, a vida de Morais Filho foi marcada pelo envolvimento com as esferas acadêmica, jurídica e cultural. Suas relações pessoais e profissionais certamente influenciaram sua obra, que reflete um profundo engajamento com as questões do seu tempo e de sua terra.

Obra, estilo e características literárias

Reconhecimento e receção Morais Filho obteve reconhecimento significativo no meio acadêmico e cultural brasileiro. Suas obras foram bem recebidas pela crítica e pelo público interessado em temas de cultura, história e sociologia do Brasil, consolidando-o como um autor de referência.

Obra, estilo e características literárias

Influências e legado O legado de Morais Filho reside na sua capacidade de articular conhecimento académico com uma profunda sensibilidade cultural, enriquecendo o debate sobre a identidade brasileira. Suas obras continuam a ser referências importantes para estudantes e pesquisadores interessados na cultura e na história do Brasil, especialmente do Nordeste.

Obra, estilo e características literárias

Interpretação e análise crítica A obra de Morais Filho oferece ricas oportunidades de análise crítica, especialmente no que diz respeito à sua abordagem da cultura popular, da identidade regional e das dinâmicas sociais. Suas investigações sobre o povo cearense e a Amazônia são marcos importantes nos estudos culturais brasileiros.

Obra, estilo e características literárias

Curiosidades e aspetos menos conhecidos A transição de Morais Filho entre a academia, o direito e a literatura demonstra a amplitude de seus interesses e talentos. Sua dedicação à pesquisa e à divulgação do conhecimento sobre a cultura brasileira é um aspeto marcante de sua trajetória.

Obra, estilo e características literárias

Morte e memória Antônio de Morais Filho faleceu em 2014, mas sua obra continua a ser um pilar fundamental nos estudos sobre a cultura e a identidade brasileira, garantindo sua memória e relevância para as futuras gerações.

Poemas

1

A mulata

Eu sou mulata vaidosa,
Linda, faceira, mimosa,
Quais muitas brancas não são!
Tenho requebros mais belos;
Se a noite são meus cabelos,
O dia é meu coração.

Sob a camisa bordada,
Fina, tão alva, arrendada,
Treme-me o seio moreno:
É como o jambo cheiroso,
Que pende ao galho frondoso
Coberto pelo sereno.

Nos bicos da chinelinha,
Quem voa mais levezinha,
Mais levezinha do que eu?...
Eu sou mulata tafula;
No samba, rompendo a chula,
Jamais ninguém me venceu!

Ao afinar da viola,
Quando estalo a castanhola,
Ferve a dança e o desafio;
Peneiro dum mole anseio,
Vou mansa num bamboleio
Qual vai a garça no rio.

Aos moços todos esquiva,
Sendo de todos cativa,
Demoro os olhares meus;
Mas, se murmuram: "maldita!
Bravo, mulata bonita!"
Adeus, meu ioiô, adeus ...

Minhas iaiás da janela
Me atiram cada olhadela,
Ai dá-se! mortas assim...
E eu sigo mais orgulhosa
Como se a cara raivosa
Não fosse feita pra mim.

Na fronte ainda que baça,
Me assenta o torço de cassa,
Melhor que coroa gentil;
E eu posso dizer ufana,
Que, qual mulata baiana.
Outra não há no Brasil.

Nos meus pulsos delicados
Trago corais engraçados
Contas de ouro e coralinas;
Prendo meu pano à cintura,
Que mais realça à brancura
Das saias de rendas finas.

Se arde um desejo agora,
De meus afetos senhora,
Sei encontrá-lo no amor;
Minha alma é qual borboleta,
Que voa e voa inquieta
Pousando de flor em flor.

Meus brincos de pedraria
Tombam, fazendo harmonia
Com meu cordão reluzente;
Na correntinha de prata,
Tem sempre e sempre a mulata
Figuinhas de boa gente.

Eu gosto bem desta vida,
Que assim se passa esquecida
De tudo que é triste e vão;
Um dito repinicado,
Um mimo, um riso, um agrado
Cativam meu coração.

Nos presepes da Lapinha,
Só a mulata é rainha,
Meiga a mostrar-se de novo;
De minha face ao encanto,
Vai-se o fervor pelo santo,
Pra o santo não olha o povo!...

Minha existência é de flores,
De sonhos, de luz, de amores,
Alegre como um festim!
Escrava, na terra um dono,
Outro no céu sobre um trono,
Que é meu Senhor do Bonfim!

Na fronte ainda que baça,
Me assenta o torço de cassa
Melhor que coroa gentil;
E eu posso dizer ufana,
Que, por mulata baiana,
Outra não há no Brasil.

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