Millôr Fernandes

Millôr Fernandes

1923–2012 · viveu 88 anos BR BR

Millôr Fernandes foi um escritor, humorista, cartunista, dramaturgo e jornalista brasileiro. Destacou-se por seu humor ácido e crítico, abordando temas sociais, políticos e existenciais de forma perspicaz e irreverente. Sua obra abrange diversos gêneros, incluindo crônicas, poemas, peças de teatro e charges, sempre com uma linguagem acessível e um olhar aguçado sobre a condição humana. Foi um dos fundadores e colaboradores de jornais e revistas de grande circulação, deixando um legado de inteligência e irreverência na cultura brasileira.

n. 1923-08-16, Rio de Janeiro · m. 2012-03-27, Bairro de Ipanema

91 543 Visualizações

Poesia Matemática

Às folhas tantas
Do livro matemático
Um Quociente apaixonou-se
Um dia
Doidamente
Por uma Incógnita.
Olhou-a com seu olhar inumerável
E viu-a, do Ápice à Base,
Uma Figura Ímpar;
Olhos rombóides, boca trapezóide,
Corpo otogonal, seios esferóides.
Fez da sua
Uma vida
Paralela a dela
Até que se encontraram
No Infinito.
"Quem és tu?"indagou ele
Com ânsia radical.
"Sou a soma dos quadrados dos catetos.
Mas pode me chamar de Hipotenusa."
E de falarem descobriram que eram
- O que, em aritmética, corresponde
A almas irmãs -
Primos-entre-si.
E assim se amaram
Ao quadrado da velocidade da luz
Numa sexta potenciação
Traçando
Ao sabor do momento
E da paixão
Retas, curvas, círculos e linhas sinoidais.
Escandalizaram os ortodoxos das fórmulas euclideanas
E os exegetas do Universo Finito.
Romperam convenções newtonianas e pitagóricas.
E, enfim, resolveram se casar
Constituir um lar.
Mais que um lar,
Uma perpendicular.

Convidaram para padrinhos
O Poliedro e a Bissetriz.
E fizeram planos, equações e diagramas para o futuro
Sonhando com uma felicidade
Integral
E diferencial.
E se casaram e tiveram uma secante e três cones
Muito engraçadinhos
E foram felizes
Até aquele dia
Em que tudo, afinal,
Vira monotonia.
Foi então que surgiu
O Máximo Divisor Comum
Freqüentador de Círculos Concêntricos.
Viciosos.
Ofereceu-lhe, a ela,
Uma Grandeza Absoluta,
E reduziu-a a um Denominador Comum.
Ele, Quociente, percebeu
Que com ela não formava mais Um Todo,
Uma Unidade. Era o Triângulo,
Tanto chamado amoroso.
Desse problema ela era a fração
Mais ordinária.
Mas foi então que o Einstein descobriu a Relatividade
E tudo que era expúrio passou a ser
Moralidade
Como, aliás, em qualquer
Sociedade.

Ler poema completo
Biografia

Identificação e contexto básico

Millôr Fernandes foi um prolífico escritor, jornalista, dramaturgo, cartunista e humorista brasileiro. Conhecido por seu pseudônimo Millôr, sua obra é marcada por uma inteligência aguçada, um humor crítico e uma profunda reflexão sobre a sociedade e a condição humana. Nasceu no Rio de Janeiro, Brasil, e escreveu predominantemente em português. Viveu grande parte do século XX, um período de intensas transformações sociais, políticas e culturais no Brasil e no mundo.

Infância e formação

Millôr nasceu em uma família de classe média e teve uma infância marcada pela leitura. Desde cedo, demonstrou um talento precoce para a escrita e o desenho. Embora não tenha seguido um percurso acadêmico formal extenso, foi um autodidata voraz, absorvendo conhecimentos de diversas áreas, o que se refletiu na amplitude e profundidade de sua obra. A efervescência cultural do Rio de Janeiro na época, bem como as influências literárias e artísticas do período, moldaram sua visão de mundo e seu estilo.

Percurso literário

O início da carreira de Millôr Fernandes se deu no jornalismo, onde rapidamente ganhou destaque por sua coluna de humor e crítica. Sua escrita evoluiu ao longo das décadas, transitando por diferentes formatos como crônicas, poemas, aforismos, peças de teatro e roteiros. Colaborou intensamente com jornais e revistas de grande circulação, como O Cruzeiro, Correio da Manhã e Folha de S.Paulo, além de ter fundado e dirigido publicações próprias. Sua atividade como crítico e observador da sociedade o tornou uma voz influente.

Obra, estilo e características literárias

Obra, estilo e características literárias A obra de Millôr é vasta e diversificada, incluindo coletâneas de crônicas ("A Vida é uma Coisa Mais ou Menos", "Millôr Aforismos"), peças de teatro ("O Elevador", "Papai Papudo") e poemas. Seus temas recorrentes incluem o amor, a morte, a solidão, a hipocrisia social, a política e a natureza humana. O estilo de Millôr é caracterizado pela concisão, pela ironia fina, pelo jogo de palavras e pela capacidade de, em poucas linhas, provocar reflexão e riso. Ele frequentemente utilizava o verso livre em seus poemas e experimentava com a linguagem para expressar suas ideias de forma original. Sua voz poética é frequentemente pessoal e confessional, mas com ressonância universal. A linguagem é direta, acessível, mas carregada de significados implícitos, com um uso notável de metáforas e paradoxos. Millôr inovou ao trazer o humor inteligente e a crítica social para a esfera da poesia e da crônica, dialogando com a tradição literária brasileira ao mesmo tempo em que apontava para a modernidade.

Obra, estilo e características literárias

Contexto cultural e histórico Millôr Fernandes viveu e produziu em um Brasil em constante ebulição, atravessando períodos de ditadura militar, redemocratização e profundas mudanças sociais. Sua obra reflete esse contexto, muitas vezes de forma velada ou irônica, criticando a censura, a injustiça e a alienação. Ele conviveu e dialogou com uma geração de intelectuais e artistas que buscavam renovar a cultura brasileira, como os integrantes do Teatro de Arena e do Cinema Novo. Sua posição como intelectual crítico o colocou, por vezes, em confronto com o establishment.

Obra, estilo e características literárias

Vida pessoal Millôr Fernandes foi casado e teve filhos, mas manteve sua vida pessoal relativamente discreta. Sua vasta produção literária e jornalística foi sua principal atividade profissional. Era conhecido por sua mente inquieta, sua curiosidade insaciável e sua capacidade de observação. Suas crenças pessoais eram voltadas para um humanismo crítico e cético em relação a dogmas e instituições.

Obra, estilo e características literárias

Reconhecimento e receção Millôr Fernandes conquistou um lugar de destaque na literatura e no jornalismo brasileiro. Embora não tenha recebido grandes prêmios institucionais de forma massiva, seu reconhecimento se deu pela popularidade junto ao público e pelo respeito conquistado entre seus pares. Sua obra é amplamente lida e estudada, sendo considerada um marco do humor e da crítica social no Brasil.

Obra, estilo e características literárias

Influências e legado Millôr foi influenciado por diversos autores e pensadores, tanto brasileiros quanto estrangeiros, que compartilhavam um olhar crítico sobre a sociedade. Seu legado é imenso, impactando gerações de escritores, cartunistas e humoristas que se inspiraram em seu estilo e em sua coragem de abordar temas complexos com inteligência e irreverência. Sua obra continua relevante, oferecendo chaves de leitura para os dilemas contemporâneos.

Obra, estilo e características literárias

Interpretação e análise crítica A obra de Millôr Fernandes é frequentemente interpretada como um espelho da sociedade brasileira, expondo suas contradições e mazelas com um humor que desarma e provoca. Suas reflexões sobre a condição humana tocam em temas filosóficos universais, como a busca por sentido, a fragilidade da existência e a complexidade das relações interpessoais. Seus aforismos, em particular, convidam a múltiplas leituras e debates.

Obra, estilo e características literárias

Curiosidades e aspetos menos conhecidos Millôr tinha um humor peculiar que muitas vezes o levava a questionar o senso comum e as convenções sociais. Sua habilidade de transformar o trivial em reflexão profunda era notável. Ele mantinha um ritmo de trabalho intenso e disciplinado, produzindo diariamente. Seu apartamento no Rio de Janeiro era um refúgio de criatividade e conhecimento, repleto de livros e objetos que inspiravam sua obra.

Obra, estilo e características literárias

Morte e memória Millôr Fernandes faleceu em São Paulo, em 2012, após um período de saúde debilitada. Sua morte foi amplamente lamentada, e sua obra continua a ser publicada e redescoberta, garantindo sua memória e sua relevância no cenário cultural brasileiro. Seus escritos póstumos e antologias continuam a circular, mantendo viva sua voz crítica e seu humor inconfundível.

Poemas

10

Poesia Matemática

Às folhas tantas
Do livro matemático
Um Quociente apaixonou-se
Um dia
Doidamente
Por uma Incógnita.
Olhou-a com seu olhar inumerável
E viu-a, do Ápice à Base,
Uma Figura Ímpar;
Olhos rombóides, boca trapezóide,
Corpo otogonal, seios esferóides.
Fez da sua
Uma vida
Paralela a dela
Até que se encontraram
No Infinito.
"Quem és tu?"indagou ele
Com ânsia radical.
"Sou a soma dos quadrados dos catetos.
Mas pode me chamar de Hipotenusa."
E de falarem descobriram que eram
- O que, em aritmética, corresponde
A almas irmãs -
Primos-entre-si.
E assim se amaram
Ao quadrado da velocidade da luz
Numa sexta potenciação
Traçando
Ao sabor do momento
E da paixão
Retas, curvas, círculos e linhas sinoidais.
Escandalizaram os ortodoxos das fórmulas euclideanas
E os exegetas do Universo Finito.
Romperam convenções newtonianas e pitagóricas.
E, enfim, resolveram se casar
Constituir um lar.
Mais que um lar,
Uma perpendicular.

Convidaram para padrinhos
O Poliedro e a Bissetriz.
E fizeram planos, equações e diagramas para o futuro
Sonhando com uma felicidade
Integral
E diferencial.
E se casaram e tiveram uma secante e três cones
Muito engraçadinhos
E foram felizes
Até aquele dia
Em que tudo, afinal,
Vira monotonia.
Foi então que surgiu
O Máximo Divisor Comum
Freqüentador de Círculos Concêntricos.
Viciosos.
Ofereceu-lhe, a ela,
Uma Grandeza Absoluta,
E reduziu-a a um Denominador Comum.
Ele, Quociente, percebeu
Que com ela não formava mais Um Todo,
Uma Unidade. Era o Triângulo,
Tanto chamado amoroso.
Desse problema ela era a fração
Mais ordinária.
Mas foi então que o Einstein descobriu a Relatividade
E tudo que era expúrio passou a ser
Moralidade
Como, aliás, em qualquer
Sociedade.

2 067

Gato ao Crepúsculo

Poeminha de louvor ao pior inimigo do cão

Gato manso, branco,
Vadia pela casa,
Sensual, silencioso, sem função.

Gato raro, amarelado,
Feroz se o irritam,
Suficiente na caça à alimentação.

Gato preto, pressago,
Surgindo inesperado
Das esquinas da superstição.

Cai o sol sobre o mar.

E nas sombras de mais uma noite,
Enquanto no céu os aviões
Acendem experimentalmente suas luzes verde-vermelho-verde,
Terminam as diferenças raciais.

Da janela da tarde olho os banhistas tardos
Enquanto, junto ao muro do quintal,
Os gatos todos vão ficando pardos.

1 251

Poesia Escapista

Aqui, onde estamos morando,
O lugar não pode ser mais belo.
São duas colinas e, conseqüentemente,
Um vale. Há um rio. E há um lago.
Doutrinas não há, a não ser as do
"Centro Acadêmico Dom Casmurro".
Mas isso é distante.

De manhã vê-se se o céu está claro
Ou nublado.
Previsões só as sobre o decorrer
(Meteorológico) do dia.
Planos — os de ir a pé ou a cavalo
Para o banho diário.

Os temores locais são poucos:
Se a ponte de madeira fica pronta antes
De São João,
Se o leite chegará para o fornecimento
De manteiga.
Não há estação de rádio.

Alguns benefícios do mundo de 60
Nos chegam pela estrada — penicilina,
Tecidos, matérias plásticas,
Adornos pessoais.
Por milagre, ninguém pede jornais.
Mas as mulheres daqui são bem tratadas
E, felizmente, nada naturais.

Muito prazer de corpo, muito ar.
Luz, água, cavalos, muita vida animal.
Definitiva ligação ao essencial.
Poucos temores, poucos riscos.
Muito pouca aflição:
A China é antiga como antigamente
Não há televisão.

Mas vem, de algum recanto sutil,
A informação
E se planta e cresce insuspeitada
Com outro nome que, traduzido,
Um dia será lido.
Pois é com alegria que o menino
Entra pela casa com um cão,
Seu amigo, seu primeiro grande amigo,
E o apresenta: "Papai, ele se chama Desintegração.

3 168

Obstinação dos Outros

Deixamos de beber
E em cada esquina
Abriram um novo bar.
Abandonamos o fumo;
Passam homens, crianças
E navios
A fumar.
A rua, como nunca, está cheia de mulheres
Jovens, lindas de corpo, sedutoras de andar.
Ah, mas já deixamos de amar.

1 039

Predestinação

Tinha no nome seu destino líquido: mar, rio e lago.
Pois chamava-se Mário Lago.
Viu a luz sob o signo de Piscis.
Brilhava no céu a constelação de Aquário.
Veio morar no Rio.
Quando discutia, sempre levava um banho.
Pois era um temperamento transbordante.
Sua arte preferida: água-forte.
Seu provérbio predileto: "Quem tem capa, escapa".
Sua piada favorita: "Ser como o rio:
seguir o curso sem deixar o leito".
Pois estudava: engenharia hidráulica.
Quando conheceu uma moça de primeira água.
Foi na onda.
Teve que desistir dos estudos quando
já estava na bica para se formar.
Então arranjou um emprego em Ribeirão das Lajes.
Donde desceu até ser leiteiro.
Encarregado de pôr água no leite.
Ficou noivo e deu à moça uma água marinha.
Mas ela o traiu com um escafandrista.
E fugiu sem dizer água vai.
Foi aquela água.
Desde então ele só vivia na chuva
Virou pau de água.
Portanto, com hidrofobia.
Foi morar numa água furtada.
Deu-lhe água no pulmão.
Rim flutuante.
Água no joelho.
Hidropsia.
Bolha d’água.
Gota.
Catarata.
Morreu afogado.

1 730

Reflexão Sobre a Reflexão

Terrível é o pensar.
Eu penso tanto
E me canso tanto com meu pensamento
Que às vezes penso em não pensar jamais.
Mas isto requer ser bem pensado
Pois se penso demais
Acabo despensando tudo que pensava antes
E se não penso
Fico pensando nisso o tempo todo.

1 547

Reflexão sobre Reflexão

Terrível
é o pensar.
Eu penso tanto
E me canso tanto com meu pensamento
Que às vezes penso em não pensar jamais.
Mas isto requer ser bem pensado
Pois se penso demais
Acabo despensando tudo que pensava antes
E se não penso
Fico pensando nisso o tempo todo.
1 988

Obstinação dos Outros

Deixamos
de beber
E em cada esquina
Abriram um novo bar.

Abandonamos o fumo;
Passam homens, crianças
E navios
A fumar.

A rua, como nunca, está cheia de mulheres
Jovens, lindas de corpo, sedutoras de andar.
Ah, mas já deixamos de amar.
1 327

Poeminha de Louvos ao Strip-Tease

Eu sou do tempo em que a mulher
Mostrar o tornozelo
Era um apelo!
Depois, já rapazinho, vi as primeiras pernas
De mulher
Sem saia;
Mas foi na praia!

A moda avança
A saia sobe mais
Mostra os joelhos
Infernais!

As fazendas
Com os anos
Se fazem mais leves
E surgem figurinhas
Em roupas transparentes
Pelas ruas:
Quase nuas.

E a mania do esporte
Trouxe o short.
O short amigo
Que trouxe consigo
O maiô de duas peças.

E logo, de audácia em audácia,
A natureza ganhando terreno
Sugeriu o biquíni,
O maiô de pequeno ficando mais pequeno
Não se sabendo mais
Até onde um corpo branco
Pode ficar moreno.

Deus,
A graça é imerecida,
Mas dai-me ainda
Uns aninhos de vida!
1 105

Poeminha de louvor ao strip-tease secular

Eu sou do tempo em que a mulher
Mostrar o tornozelo
Era um apelo!
Depois, já rapazinho, vi as primeiras pernas
De mulher
Sem saia;
Mas foi na praia!

A moda avança
A saia sobe mais
Mostra os joelhos
Infernais!

As fazendas
Com os anos
Se fazem mais leves
E surgem figurinhas
Em roupas transparentes
Pelas ruas:
Quase nuas.
E a mania do esporte
Trouxe o short.
O short amigo
Que trouxe consigo
O maiô de duas peças.
E logo, de audácia em audácia,
A natureza ganhando terreno
Sugeriu o biquíni,
O maiô de pequeno ficando mais pequeno
Não se sabendo mais
Até onde um corpo branco
Pode ficar moreno.

Deus,
A graça é imerecida,
Mas dai-me ainda
Uns aninhos de vida!

1 074

Citações

40

Videos

50

Comentários (0)

Partilhar
Iniciar sessão para publicar um comentário.

Ainda não há comentários. Sê o primeiro a comentar.