Lista de Poemas
Minha Mãe
Para me abençoar e proteger,
Teu puro amor o coração me acalma;
Provo a doçura do teu bem-querer.
Porque a mão te beijei, a minha palma
Olho, analiso, linha a linha, a ver
Se em mim descubro um traço de tua alma,
Se existe em mim a graça do teu ser.
E o M, gravado sobre a mão aberta,
Pela sua clareza, me desperta
Um grato enlevo, que jamais senti:
Quer dizer — Mãe! este M tão perfeito,
E, com certeza, em minha mão foi feito
Para, quando eu for bom, pensar em ti.
Soneto
Porque sempre te amei a vida inteira:
Eras a irmã, a noiva, a companheira,
A alma gêmea da minha que eu sonhava.
Com o coração, à noite, ardendo em lava
Em meus versos vivias, de maneira
Que te contemplo a imagem verdadeira
E acho a mesma que outrora contemplava.
Amo-te. Sabes que me tens cativo.
Retribuis a afeição que em mim fulgura,
Transfigurada nos anseios da Arte.
Mas, se te quero assim, por que motivo
Tardaste tanto em vir, que hoje é loucura,
Mais que loucura, um crime desejar-te?
A Água Toda Secou até nos Olhos
O rio vai morrer, sem que nada o socorra,
sem que ninguém, jamais, bendiga o moribundo.
Morre na solidão, no silêncio profundo,
e o malárico mal o mantém em modorra.
A enfermidade faz que da boca lhe escorra
o limo, feito fel, viscoso e nauseabundo.
E o terror se lhe vê das órbitas ao fundo.
Paralítico jaz na estreitez da masmorra.
Tu só, tu, meu Irmão, que a miséria não vence.
Que suportando a sede, a fome, a febre, o frio,
sem que prêmio nenhum teu martírio compense.
Poeta, herói, semideus, sabes o desvario,
a sobre-humana dor, a bravura, cearense,
de quem se suicidou, vendo morrer o rio.
Publicado no livro Guanabara (1936).
In: FONTES, Martins. Poesia. Org. Cassiano Ricardo. Rio de Janeiro: Agir, 1959. p.47-48. (Nossos clássicos, 40
Inocência
com os meus caniços de taquara,
ficava eu, ao sol de então,
junto dos tanques, no terreiro,
soprando a espuma, leve e clara,
fazendo bolhas de sabão.
Corando a roupa, entre cantigas,
as lavadeiras, que passavam,
interrompiam a canção...
Riam-se as pobres raparigas,
vendo as imagens que brilhavam,
nas minhas bolhas de sabão.
Cresci. Sofri. Sonhando vivo.
E, homem e artista, ainda agora,
me apraz aquela distração...
E fico, às vezes, pensativo,
fazendo versos, como outrora
fazia bolhas de sabão.
E velho, um dia, de repente,
sem ter, de fato, sido nada,
pois tudo é apenas ilusão,
há de extinguir-se a alma inocente
que em mim fulgura, evaporada
como uma bolha de sabão.
Publicado no livro Verão (1917).
In: FONTES, Martins. Poesia. Org. Cassiano Ricardo. Rio de Janeiro: Agir, 1959. p.73. (Nossos clássicos, 40
Ser Paulista
E inda maior nas glórias do presente!
E ser a imagem do Brasil sonhado,
E, ao mesmo tempo, do Brasil nascente.
Ser paulista! é morrer sacrificado
Por nossa terra e pela nossa gente!
É ter dó das fraquezas do soldado
Tendo horror à filáucia do tenente.
Ser paulista! é rezar pelo Evangelho
De Rui Barbosa — o sacrossanto velho
Civilista imortal de nossa fé.
Ser paulistal em brasão e em pergaminho
É ser traído e pelejar sozinho,
É ser vencido, mas cair de pé!
Otelo
a morte, redentora, à desventura
de não poder, nas vascas da loucura,
distinguir a verdade da mentira.
Infrene dúvida, implacável ira,
esta que me alucina e me tortura!
— Ter ciúmes da luz, formosa e pura,
do chão, da sombra e do ar que se respira!
Invejo a veste que te esconde! a espuma
que, beijando teu corpo, linha a linha,
toda do teu aroma se perfuma!
Amo! E o delírio desta dor mesquinha,
faz que eu deseje ser tu mesma, em suma,
para ter a certeza de que és minha!
Publicado no livro Verão (1917).
In: FONTES, Martins. Poesia. Org. Cassiano Ricardo. Rio de Janeiro: Agir, 1959. p.39-40. (Nossos clássicos, 40
Balada Madrigalesca
da antiga métrica francesa,
venha brindar um rimador
a uma princesa portuguesa.
Fulgure a pedraria acesa
das rimas rútilas do ideal,
para eu cantar em Sua Alteza
a flor-de-lis de Portugal.
Há nos seus olhos o negror
das noites cheias de tristeza,
e o vivo e cálido esplendor
do sol de Nice ou de Veneza.
E a sua mão tem, com certeza,
o alvor da neve boreal:
É o lírio branco da nobreza,
a flor-de-lis de Portugal.
Pajem galante e trovador,
cumpro, encantado, a doce empresa
de demonstrar que numa flor
se espelha a sua gentileza.
E, com sutil delicadeza,
digo, ao findar o madrigal:
Dona Leonor é, na pureza,
a flor-de-lis de Portugal.
OFERTA
Cheia de graça e de beleza,
Dona Leonor é lirial.
Era uma vez uma princesa,
a flor-de-lis de Portugal...
Publicado no livro Verão (1917).
In: FONTES, Martins. Poesia. Org. Cassiano Ricardo. Rio de Janeiro: Agir, 1959. p.44-45. (Nossos clássicos, 40
Na Medida Velha da Ensinança
das vestes tafuis,
parecem-me a hidranja
teus olhos azuis.
És moça e formosa,
tra, li, la, la, ra...
Que linda esta rosa!
Colhamo-la já.
À tarde, querida,
a flor vai murchar...
Não percas, na vida,
o tempo de amar.
Meu Deus, que desgosto
seria essa dor
de ver o teu rosto
murchar como a flor.
É o tempo da hidranja.
És moça e gentil:
a hidranja, Briolanja,
se colhe em abril.
Publicado no livro Rosicler (1928).
In: FONTES, Martins. Poesia. Org. Cassiano Ricardo. Rio de Janeiro: Agir, 1959. p.82-83. (Nossos clássicos, 40
Monotonia Rítmica
Era uma noite negra, horrendamente negra,
Horrendamente negra,
como o corvo do Poe, horrendamente negra.
Eu tremia, a gelar, na solidão goiesca,
na solidão goiesca,
inteiramente só, na solidão goiesca.
Nisto, vejo surgir um lívido fantasma.
um lívido fantasma,
um hamlético e longo e lívido fantasma.
Retransido, sem voz, perguntei com os olhos,
perguntei com os olhos,
quem és tu, quem és tu! — perguntei com os olhos —
E o avejão respondeu: — Eu simbolizo o Nada!
— Eu simbolizo o Nada!
E desapareceu... — Eu simbolizo o Nada!
Publicado no livro A Flauta Encantada (1931).
In: FONTES, Martins. Poesia. Org. Cassiano Ricardo. Rio de Janeiro: Agir, 1959. p.59. (Nossos clássicos, 40
Comentários (0)
NoComments
Como É Bom Ser Bom! | Poema de Martins Fontes com narração de Mundo Dos Poemas
Entrevista - Alexandre Martins Fontes | TT 188
Minha Mãe | Poema de Martins Fontes com narração de Mundo Dos Poemas
Conhecendo duas livrarias famosas na Avenida Paulista - Martins Fonte e Cultura
TOUR pela Livraria Martins Fontes - Avenida Paulista
Livraria Martins Fontes Paulista ( Café , Autógrafos e Saldão...)
VLOG | Tour pela Livraria Martins Fontes da Av. Paulista 📖
Waldir Martins Fontes - O Editor e o Homem. Filme de Alexandre e Evandro Martins Fontes.
VLOG | Mercado Místico + Livraria Martins Fontes + Cafés e afins... | Tyta Montrase
Edições de “O Senhor dos Anéis” da WMF | TT 516
Martins Fontes: um luxo de Livraria na Paulista
Os Filhos de Húrin + Comparando Edições - HarperCollins BR e WMF (Martins Fontes) | Cultura Livre
LIVRARIA MARTINS FONTES NA AVENIDA PAULISTA - SP | UM PARAÍSO DE 3 ANDARES
Guia SP | Rua Xavier de Toledo e Rua Martins Fontes
Por que ter uma livraria? com Alexandre Martins Fontes
A HISTÓRIA DE IQBAL | FRANCESCO D'ADAMO | (Ed. WMF Martins Fontes)
Poesia "Minha Mãe" [Martins Fontes]
Daqui a pouco estaremos na Livraria Martins Fontes, na Av. Paulista ! Esperamos vocês! #short
Matilda - Roald Dahl [WMF Martins Fontes]
Visita a Livraria Martins Fontes / Santos + Comprinhas
OS IGNORANTES, da Martins Fontes | Vlog do PN #17
Livraria Martins Fontes
MEU NOVO LIVRO JÁ ESTÁ NAS LIVRARIAS!
LIVRARIA - MARTINS FONTES
Rua Martins Fontes. cod. ap3991
Lançamento Livro Avós dia 15 de abril na Livraria Martins Fontes na Av Paulista as 16h. #livros
THE WITCHER (ANDRZEJ SAPKOWSKI) | Resenha dos livros | Martins Fontes
Marina Colasanti recebe homenagem na Livraria Martins Fontes
Resenha “O Senhor dos Anéis” Vol. Único - Ed. Limitada MF | TT 486
Quadrinhos & Mangás de Outubro (Panini, JBC, WMF Martins Fontes ...)
Martins Fontes - Soneto - "Amo-te"
4k - Rua Augusta - Rua Martins Fontes - Centro de São Paulo
O LOBO QUE CAIU DO LIVRO de Thierry Robberecht - editora Martins Fontes
Trabalho de Conclusão de Curso - Publicidade - Livraria Martins Fontes Paulistana
Lançamento do Livro "Os Cadernos de Pagu" Livraria Martins Fontes São Paulo
Mini-Book Haul na Martins Fontes da Paulista - Maio 2019
UMBOXING de Hq's importadas na Martins Fontes Paulista
Logicomix - Papadimitriou, Doxiadis, Papadatos e Di Donna [WMF Martins Fontes]
Livaria Martins fontes - paulista
O Senhor dos Anéis | "CAPAS TOLKIEN" | Biblioteca de Gondor
Trabalho de Conclusão de curso Livraria Martins Fontes Paulistana
Inocência | Poema de Martins Fontes com narração de Mundo Dos Poemas
Lançamento Musica Jazz - Samuel Quinto - Livraria Martins Fontes
Mary Del Priore - Dica de Leitura Livraria Martins Fontes
Sérgio Fernandes/Quarteto Martins Fontes plays L. Bocherini/Quinteto
Lançamento do livro A Minha Missão no Brasil livraria Martins Fontes em São Paulo
Rua Martins Fontes ap2019
Felipe Romano e Quarteto Martins Fontes
Panini!!! QS comics+ Wmf Martins Fontes + loucuraaa!
UNBOXING: Comprei livros no Super Saldão da Martins Fontes
Português
English
Español