Escritas

Lista de Poemas

Quando fez a primeira comunhão

Quando fez a primeira comunhão
o pai explicou-lhe
com honesta rectidão
as comunhões
são como os bonés de caça
basta tapar as orelhas
e já está
tens o que desejas
ficas logo comunhado
gostou
e comunhou-se mais três vezes
sempre atento e preocupado
mas era fácil
daí em diante teve a certeza
bastava tapar as orelhas
era só
era uma beleza
pronto
orelha protegida
e comunhão logo garantida.
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CANÇÃO DA MANHÃ

como os estranhos pássaros nascidos em tua boca
como os rios que te correm entre os olhos
como   as   esmeraldas   que   formam   as   asas   dos   teus ombros
como os longos ramos da árvore de sono do teu braço
como o grande espaço em que o teu corpo repousa
deitado na tua própria mão
como a tua sombra idêntica à nuvem
que se encontra no mar

assim é a presença que de ti tenho
nas noites em que o fogo se acende
nas montanhas longínquas e fulgurantes
quando os meus passos me projetam
para os mais elevados cumes solitários
quando o sangue canta
através do aço vibrante do meu corpo
levando-me ao longo do caminho de flores rubras
que tu plantaste

assim é o desejo de te encontrar
nascida nas minhas mãos
erguida como torre de catedral perdida
envolta na minha boca
caminhando comigo
pela estrada que nossos pés abrirão triunfantes

Deixa que eu quebre tudo que tenho e que terei
tudo o que é de todos e que só a mim pertence
deixa-me quebrar o cavalo que me deste
na noite do nosso primeiro encontro
deixa-me partir a bola o cão o espaço
deixa-me quebrar a minha casa e a minha cama
a minha única cama. . .
não o,uero que me contem a aventura
nem que me dêem almofadas
não quero que me ofereçam sombras
só por mim construídas e logo abandonadas
nem sequer esquinas de ruas
não quero a vida
sei claramente que a não quero
a não ser que ela esteja partida quebrada
quebrada por mim e por ti

e a minha infância
essa dou-ta
inteira muito longa e cruel
deixa que dela me fique apenas
essa crueldade
e que nela só eu siga
ignorando o que me deste
e que
martelo ou pedra
eu continue partindo quebrando
esfacelando dilacerando
o teu corpo que já não está ao meu alcance
deixa-me ser anatomicamente autêntico
sem êrro
sangrando
perdido para sempre
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Origem dos sonhos esquecidos

Entre a bicicleta e a laranja
vai a distância de uma camisa branca

Entre o pássaro e a bandeira
vai a distância dum relógio solar

Entre a janela e o canto do lobo
vai a distância dum lago desesperado

Entre mim e a bola de bilhar
vai a distância dum sexo fulgurante

Qualquer pedaço de floresta ou tempestade
pode ser a distância
entre os teus braços fechados em si mesmos
e a noite encontrada para além do grito das panteras

qualquer grito de pantera
pode ser a distância
entre os teus passos
e o caminho em que eles se desfazem lentamente

Qualquer caminho
pode ser a distância
entre tu e eu

Qualquer distância
entre tu e eu
é a única e magnífica existência
do nosso amor que se devora sorrindo
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Depois de fuzilado

Depois de fuzilado
ao levar
o tiro na nuca pra acabar
chateou-se
e viu-se obrigado
a explicar
ao major
que comandava o pelotão
que o tinha fuzilado
por favor
preste atenção
e não me obrigue a repetir
a repreensão
na próxima vez
que mandar matar
dê tempo ao morto
pra gritar
convicto
um último viva de revolução
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Triângulo cabalístico

Eu sei que as túlipas
são os olhos de todos os aviões perdidos

Eu sei que as cidades
são os esqueletos das aves de rapina

Eu sei que os candeeiros ardendo de noite
são os pulmões dos peixes-voadores

Eu sei que o mistério
é uma dentadura abandonada

Eu sei que a loucura
é um braço solitário sorrindo eternamente

Eu sei que os meus olhos
são as tuas pernas frementes

Eu sei que os teus cabelos
são o meu acendedor de pirilampos

Eu sei que a tua boca
é o meu uivo solar

Eu sei que o teu peito e o teu sexo
são a minha água profundamente azul
onde se encontram todos os fantasmas
já perdidos há séculos.
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ÚLTIMA TENTAÇÃO

E então ela quis tentá-lo definitivamente. Olhou bem em volta, com extrema atenção. Mas só conseguiu encontrar uma pêra pequenina e pálida.
Ficaram os dois numa desesperante frustação.
Não há dúvida que o Paraíso está a tornar-se cada vez mais chato!
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Cegarrega para crianças

A Velha dormindo
o rato roendo
a Velha zumbindo
o rato correndo
a Velha rosnando
o rato rapando
a Velha acordando
o rato calando
a Velha em sentido
o rato escondido
a Velha marchando
o rato mirando
a Velha dizendo
o rato escutando
a Velha ordenando
o rato fazendo
a Velha correndo
o rato fugindo
a Velha caindo
o rato parando
a Velha olhando
o rato esperando
a Velha tremendo
o rato avançando
a Velha gritando
o rato comendo
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canção do mundo novo

Entre eternos dias de poeira
entre noites imensas de ferrugem
bebendo a cinza que nos dão por vida
cuspindo nevoeiros de silêncio
de mãos amarradas pelo medo
e bocas sufocadas pela sombra
com os pés viscosamente presos
num solo de pântano e repulsa
olhos perdidos e sem luz
reflectindo apenas um remoto horizonte
a desfazer-se em treva

assim vamos quotidianamente

mastigando sem força a própria cobardia
afagando a vergonha podre em que vivemos
entre uma longa interminável
estrada de baionetas
na obediência inútil e servil
a uma voz sem rosto e sem presença
cumprindo surdas ordens de ódio e mentira
marchando sem razão e sem destino

assim vamos quotidianamente
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Aviso Urgente

Quando as coisas que hão-de vir
chegarem
confúcio buda lao-tsé
reis barbudos pendões e caldeiros duvidosos
arnezes oscilantes aríetes sem emprego fixo
reis imberbes e condutores de noite aprisionada
cristo maomé
conquistadores a construir pirâmides inúteis
vitória e os seus lagos imperiais
e outros muitos sempre
estarão nos livros
de consulta e história analítica
os paraísos diversos indicados
tornar-se-ão textos curiosos
em microfilme encadernado
levado na mala exacta
das férias pelo espaço
serão armas perfeitamente abandonadas
do medo ainda a querer viver
nas propostas teo ilógicas
de uma morte para além da morte
paraísos dispersos mastigando-se
fornecidos com molho especial
mas mesmo assim
quotidianamente incertos na afirmação
das garantias oportunas
de uma wall street de promessas
em inflação constante
colunas templárias sem cavalo de sela
para ser montado
pequenas fábricas do acontecer
obrigatório por esperança empacotada
memórias
de santos mártires heróis santos efectivos
no livro de registo caligráfico
para a organização menor da lepra em família
três mártires três
todos na panela sem tempero hoje
prato do dia por enquanto
santos
vários
a lista é grande
tiveram sortes imagísticas abundantes
e heróis
ainda em produção contínua
na necessidade urgente de criar novos modelos
e pô-los em circulação imediata
antes que a história os recuse
um carimbo eficaz no peito
a garantir origem qualidade e preço
e alguma perna a menos para andar
tudo isto nos textos em que estará a recordação
de cóleras bancos pestes governos
batalhas casamentos impreteríveis
ducados colónias sobras de banquetes bíblicos
notícias de suicídios
sexos mutilados cidades afundadas

quando as coisas que hão-de vir
chegarem
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W

tudo o que existiu
entre mim e o que tu serias
foi como a nuvem
ligeira   muito rápida
veloz e diferente
a única verdade que poderia
trazer-nos o encontro
dos nossos corpos por existir

o ódio   a raiva
trópico claro
exaustivamente  procurado
como um braço que se prolonga
até ao infinito
 
a ti
que foste real como as aves que partem para o ignoto
toda a minha solidão

a ti
que foste a única que verdadeiramente existiu
todo o meu sangue
toda a minha ânsia

tu a primeira
que só para mim és
a herança do meu ódio

para ser conservada só por nós dois
para continuar mesmo depois de eu existir
para continuar mesmo sem tu existires senão para mim

para ti
a recordação perdida
do que nunca existiu
porque seria demais se aparecesse
para ti

o meu grande amor
leito de encontro
já desfeito há séculos
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Comentários (1)

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Fernando moraes
Fernando moraes
2023-10-24

Era um tio querido que estava presente na minha casa Fernando moraes.