Escritas

Lista de Poemas

UMA EQUAÇÃO NO HYDE PARK

está chovendo no
hyde park hoje
e estou do outro
lado do hemisfério
sentada ao sol
com um gato
entre meus pés
que estão descalços
e levemente
avermelhados.

está chovendo no
hyde park hoje
e lembro de ter
andado num parque
de ângulos quadrados
com o menino da caixa
preta que tinha uma foto
de uma floresta nórdica
virada de ponta-cabeça na
parede do seu quarto
e que gostava de contar
até 24 depois de cruzar
o gradil.

a gente andava
no meio-fio e sentava
no parque e depois deitava e o
roupão preto felpudo
já na casa dele
e o roommate chamado
steve que amava
uma japonesa.

está chovendo no
hyde park hoje e não sei
o que dizer a ele
que agora está sentado
algumas mesas à frente
e que dentro de um filme
seria alguém que diz sim
mas não estou dentro de um
filme — ouço a voz em eco
no buraco do real —
e me refaço pensando
que podia contar
que o gps funcionou
e indicou o ponto de encontro
mas a mensagem
só chegou depois.

está chovendo no
hyde park hoje
e podia contar que meu
coração tinha sido arrancado
pela boca e que estava
esquecido sobre uma pedra
com o sangue
ainda quente.

sim, está chovendo
no hyde park
e ao inferno
já desceram
um ou dois
ou
três
mas ele
há de subir
atravessando as curvas,
o belvedere, os espaços dirigíveis
“ogni speranza lasciate
voi che entrate”
— há mundo por vir?
ele pergunta antes de passar
e leva na mão
um gravador
e nós cruzamos o olhar
— só por um segundo —
e não lembro mais
desse dia
mas depois o
mesmo olhar
volta à memória
como a interferência
de uma voz saindo
do carro em movimento
pela ladeira.

está chovendo no
hyde park e aquele par
de olhos encontra os meus,
e esse cruzamento
de olhares me distrai
por um momento
da equação.
👁️ 1 109

ESTRELAS DESCEM À TERRA

começo do começo,
que foi quando me pediram
os poemas que leria no encontro
“a voz do escritor”:
ainda faltava 1 mês
para este encontro
e eu não tinha ideia do que aconteceria
entre o dia do convite e o dia
de estar aqui hoje

assim,
esta voz que fala aqui
é a voz de uma marília de um mês atrás
é a minha voz falando a partir do passado,
é a minha voz,
mas sem controle.

há um mês eu não tinha
como prever o que aconteceria
e eu pensei que se este mês
seguisse o ritmo acelerado
e catastrófico do último ano
tanta coisa já teria
acontecido hoje,
que me dava medo
imaginar.
e eu fiquei me
perguntando:
— com quem estou falando aqui hoje?
e eu fiquei me perguntando:
— como fazer para essas palavras escritas
no passado dizerem algo
sobre estar aqui
agora?
e eu não soube responder.

então, fiquei me perguntando
se hoje faria frio ou não,
e se haveria poeira no ar.
eu sempre me surpreendo
com a poeira que turva a vista:
de repente no meio do dia
uma poeira que se ergue,
uma nuvem
de poeira,
pode ser a poeira vinda das coisas quebradas
todos os dias na vida das pessoas
e eu pensei que talvez a gente pudesse
fazer silêncio
e deixar a escuta aberta
para ouvir.

talvez a gente pudesse fazer silêncio
e de repente neste silêncio
acontecer de ouvir algo por detrás
dos ruídos das máquinas que
cruzam o céu.

talvez não desse para ouvir as máquinas voadoras
neste dia,
foi o que pensei,
mas eu me enganei
porque hoje
desde cedo
os helicópteros estão voando.
— vocês estão ouvindo?
um som infernal
estrelas caindo do céu
em cima da cabeça
o som está cada vez mais perto,
posso encostar a mão
se me viro vejo a sombra
em câmera lenta
sobre a cabeça.

imaginem que isso aqui é um quadrado
com drones volantes,
ou uma cena congelada
com o céu cheio de zepelins,
mas o som é um só:
barulho de máquinas
voadoras
pelo céu.

se a gente prestar atenção e fizer silêncio
— se a gente prestar atenção e fizer
silêncio —
pode ser que ouça
alguma mensagem
perdida no ar.
👁️ 627

blind light

aqui a luz faz o contrário de iluminar, é como
a desorientação ou a serendipia. blind
light, um quadrado que
cega
          a pergunta certa podia ser: o que você
faz enviando postais de lisboa ou
seu telefone não atende a
chamadas com números
longos?
mas não podia dizer nada
o último jantar era silencioso,
enquanto pensava em uma escala que planificasse o
esférico: o mundo não seria redondo
mas alguns pacotes de água empilhados
em uma superfície plana para
cobrir os buracos
deste ponto de vista o azul não é
azul. precisa desta vez de
29 dimensões para caber:
e então ela entra
em cena


silêncio


aqui a luz faz o contrário de iluminar
e mais uma vez o 2 e o 9: primeiro somam
58. depois as placas riscavam o ar repetindo-
se a cada esquina. 2. 9. 2. 9


– você ainda vai me ver três
vezes antes do final, fique atento
aos sinais, falou. se procurar as palavras-
chave encontrará
números mas também
seres marinhos, cílios, quilômetro, retina e
eletricidade. 2. 9. 2. 9.2.
o que eu vejo ao lembrar
de você é um buraco
                                   só um buraco.
um buraco cegando tudo.
diante do buraco, as hélices desenhando a
cena em pleno ar:
                                   imagina
que desce durante o giro, o corpo em
câmera lenta caindo
👁️ 822

uma mulher que se afoga

coloco a mão sobre o seu joelho
e você me olha de frente
                                   mas depois vira de lado ajeitando o
retrovisor por causa da chuva e eu quero dizer que aquela
frase era de uma canção, a mesma que você tinha usado
em outro lugar, então de novo você me olha
de frente
            e sorri interrogando
minha expressão sempre confusa
e eu queria dizer que na viagem fraquejei
que tenho medo de enlouquecer
que tenho medo do que está
por vir mas acabo contando a história
do homem que perguntava
você me ama?
                        depois de anos casado com a mesma mulher
e ela dizia
                  não
e ele com aquela música repetindo na cabeça
aquela música sem parar tocando
ao fundo ecoando
e ela
            não
e ele perguntava
                                   será que eu sou louco?
perguntava depois que o barco na enseada
ela indo embora, fugindo
eu sou louco?
perguntava depois do acidente, do barco apagando
bajo la lluvia, 24 vezes a mesma carta enviada com o nome dela
e o telefone chamando
na bolsa
            hoje ela me viu na rua e veio contar
o que tinha acontecido: vontade de gritar
vai embora daqui
                                   não quero mais ouvir essa voz
e ela falando sem parar e eu
coloco a mão sobre seu joelho e você
me olha na hora e ela dizendo na rua que
não tinha me reconhecido
antes
            por que então veio falar comigo?
mas não digo só penso e aquele silêncio
e ela dizendo que foi
por acaso
            tudo bem
                        de agora em diante
e eu pensando não me lembro o que dizer
nessas horas, não suporto, será que um dia?,
e você coloca a mão sobre o meu joelho e eu
olho para você de frente, ainda ouvindo canção
pergunta gritos de
afogamento
                        será que eu sou louco?
e digo que você é uma das poucas
pessoas que quero que fiquem aqui
e você me responde
nunca sonhei em conhecer alguém
como você
e eu olho de volta e digo
                                   você sabe que ninguém nunca
segurou minha mão assim?
você vira de lado ajeitando
o retrovisor e se projeta pra ultrapassar
o carro da frente.
👁️ 635

pelos grandes bulevares

[do lado de dentro]

o que ela vê quando fecha
os olhos? linhas sinuosas, um mapa
feito à mão, parece uma pista vista de cima —
os campos cortados ou poderia ser
uma sombra riscando o verde quando passa
lá no alto.
o que ela vê quando
olha em linha reta tentando
descrever
a garota que conheceu no café?
a transformada de
wavelets ou um peixe-lua-
circular em uma região abissal.
não é nada abissal
estar nesta superfície,
você quis dizer de vidro? esférico?
ou um animal marinho em miniatura:

um polvo de 1mm?

o cinema é 24 vezes
a verdade por segundo. este segundo
poderia ser 24 vezes a cara dela
quando fecha os olhos e vê.

[de fora]
não é por falta de repetição, mas não
encontrava a palavra exata.
o que ela vê não sabe e tudo fica tremido
se fast forward.
agora fecha os olhos para
entender, para ir mais
devagar.
não se perde alguém por duas
vezes, era o que achava
mas a essa altura chego no mesmo terminal
duas semanas depois e a cena se
repete.
— você está tendo um problema
de realidade, ele cochichou.
— qual é o desastre desta vez?

 o que ela vê ao abrir a
claraboia? ao bater aquela foto da
ponte ou quando lê
a legenda:
“nos abismos a vida é submetida
ao frio, escuridão, pressão.
oito mil metros de profundidade”
uma montanha
ao contrário.
👁️ 622

em loop, a fala do soldado

vivo numa caixa preta
de 20 centímetros.
vejo o mundo por um visor,
no meio uma cruz
para mirar as coisas
prédios  estradas   objetos   cachorros.

tudo que passa pelo quadro
vira alvo, então penso em algo
linear: você já reparou que algumas imagens
se repetem? de repente,
um cisco no olho.
“eu vivo numa caixa preta”,
disse. estamos sentados
lado a lado no trem
— em silêncio — os dois de calça verde
e camisa branca.
sei que não está tudo bem,
levanto o olhar tentando alcançar
o dele e ouço apenas a voz
de frente para o alvo.
vivo numa caixa preta, diz,
e eu não sei como parar
a repetição.
👁️ 646

estereofonia

ESTEREOFONIA

nunca falei tão sério, disse e olhei
para cima: seu rosto no meio das gotas,
o guarda-chuva preto como uma moldura redonda
e você parado, cantando, virado para o vidro
do carro, sem ouvir mais nada
só a voz
 a voz cantando no meio da chuva
e o eco no vidro do carro.

essa poderia ser a descrição
completa, mas o caminho mais rápido,
de um ponto a outro, ele respondeu,
eu podia ter ido embora na hora
os cílios partidos e aquela voz
cantando - mas o caminho mais rápido,
ele diz, e eu olho pra cima de novo
e lembro da cor malva
e dele dizendo que é quase
malva, tem um pingo que torna tudo
malva, mas a única cor que lembro
era o nublado daquele dia
a única cor era o
chumbo daquela vez:
eu olhei pra cima e você ia embora
pelas escadas. no último degrau
não se vira mais.

- esse poema contém 12 passos, ele diz,
e eu saio contando a distância
enquanto caminho dizendo o poema de cor,
mas daquele dia só me lembro
da cor de chumbo e a voz
em eco no vidro do carro.

olho para cima outra vez
e vejo sempre o mesmo
guarda-chuva preto, moldura para
descongelar cada um dos degraus,
para descongelar a ordem
do verso seguinte:
panorâmica, golpe e caixa-preta.

você vai sempre pelo som?
- que som?
👁️ 556

É UMA LOVE STORY E É SOBRE UM ACIDENTE

primeiro, a cena congelada.
um dedo pousa no vidro,
a tela vibra.
você lembra o que
disse na hora? você gritou? doeu?
você lembra do que aconteceu?
— a curva, a chuva, um clarão.

você lembra o que disse na hora
em que o carro deslizou?
três horas na chuva esperando,
a curva, o estrondo — você lembra?
você entre as ferragens
perguntando o que houve.

(mas isso é um acidente
e é sobre uma love story)

o amor, diz, é um efeito especial,
pensa que viu tudo
mas quando acende a luz
os pontos
cegos se espalham:
uma fossa abissal, uma nuvem
de distância e uma cidade chamada vidro ou
vértice
volpi ou verdi.

o amor é alguém entrando
na geometria da sua mão.
neste momento atravessa o corredor:
— não há mais isso entre nós,
de onde o timbre da sua voz
um efeito-estertor.
o amor é isso, diz, não um corvo,
mas um impermeável vermelho pendurado
na janela vindo de outro poema
para tocar na sua tela.
é você comendo o que sobrou
depois do estrondo.

“é difícil olhar as coisas
diretamente”,
elas são muito luminosas
ou muito escuras

2/3 deste país são feitos de água
e sempre que se vira, um
afogamento.
apenas um mergulho
dizia a imagem. vamos ver o deserto,
andar pelo centro do mundo?

mas isso é um dicionário
e é sobre uma love story.
👁️ 633

antes do encontro

procurar uma escada de madeira
dando para o abismo
é uma ação que só pode acontecer nesta língua
estranha e numa cidade cortada por um rio
que fique no meio dos dois
(quando um precisa ir embora
para sempre)

mas um dia ela chega
com a pergunta:
— o que vem à sua cabeça
quando digo a palavra
amor?

um dia desce no meio do dia
e vê. e um dia vê a peça lilás sobre a quina da mesa
quando volta. ele diz saltar. saltar para fora.
e atravessa na esquina
procurando a escada. depois diz que quer saltar
para fora desta canção.

mas um dia chega com
a pergunta:
— o que vem à sua cabeça quando
digo a palavra amor?
e ela responde
que amor em japonês
se diz /ai/.

e, de repente, um branco.
as linhas se tornam cada vez mais
quebradiças. um banco parado no meio da cena,
um quadrado iluminado e a frase mais longa
que ele me disse nos últimos
seis meses.

o que significa um cachecol vermelho
pinicando sozinho?
uma abelha, pensa, mas o cachecol pinicando,
voando como uma abelha, talvez um inseto
estridente, incidente para ouvir quando ele
chegar e vir.

agora sobrou apenas a estática
tremendo e você a leva de volta até o barco:
— a estática?, pergunta, você lembra
daquela vez? e ela fica parada na chuva
com o colete salva-vidas esperando
alguma coisa acontecer.

[aqui o telefone
vibra na bolsa e um parêntese
para dizer que não sabe onde está mas é longe
não sabe onde está mas é frio
não sabe onde está mas é quase.
ao ouvir a voz,
parece de verdade,
e então ele levanta e me diz algo
sobre o fim
ou sobre o sim
e toca na tela uma imagem
do filme]
👁️ 474

plano b

hola, spleen, disse. nos cruzamos em
uma lagoa de atol. sentada no banco de trás
olhava pelo vidro azul cobalto
a 3000 quilômetros do ponto em
que o deixara.
                        hola, spleen, disse. você ainda vai me ver
três vezes antes do fim. uma linha esconde
outra linha, a voz esconde o que pré-
existe entre os dois. pensava na carta sem remetente
em alguma maneira de dizer pensava nas
esculturas sonoras (não havia
um plano c? para onde
seguia)

era como descobrir o sulco
fechado de um disco e ficar
rodando no loop daquela melodia
circular. precisa de uma língua
que defina isso

hola, spleen, disse.
mas não falava da latitude
no mapa, eram peixes
no fundo do oceano com a cartilagem
luminosa derretendo nos olhos
e a única preocupação quando
entrou era o som por detrás da voz dela:
saber se está triste há um ano
ou há 24 horas.

(na volta, passa a colecionar
objetos. a vingança começa num
aquário:
            é como furar a realidade
com a realidade, ele dizia, ficar no quarto
medindo o nível do mar
para descobrir onde pôr
os peixes)
👁️ 560

Comentários (0)

Iniciar sessão ToPostComment

NoComments