Escritas

Lista de Poemas

Natureza-morta vivente

Culpa do delicado voo da andorinha,
o desequilíbrio da mesa
mete tremor nas fruteiras
arremessa maçãs para o Éden
faz cometa das cerejas.

Flutua o brócolis em regime de nave-mãe
enquanto põe embaraço
no impecável da toalha de almoço
– já um tanto alvoroçada e picotada
pela iminente imaginação
da faca.

É verdade que nesse terraço
(onde se perscruta o limite entre mortos e vivos)
nada perturba o mar que flui à deriva.
Tudo está plácido à tona d’água
– e o mesmo se diz daquilo que
(como o céu)
não sofre ranhuras
– ainda que abalado pela alada imagem inicial.

Há uma pera no ar.
E duas azeitonas que colho ao léu
mas com as quais mal posso preparar o drique:

álcool volatizado na direção
do arremesso.
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Soneto enclausurado

Se deu-me Amor a dor e tal sufoco,
do fino cravo a história e a vida breve,
secou a flor e a mim mantém-me em febre
sem fim que me sustenha por suposto.

Detém-me o passo, obscurece o rosto
desta que teve (em tempos) olhar leve!
De tudo que irradia a alma despede
pairando na vigília do sol posto.

O que me espreita? Só ranço e desgosto!
Fechada nesta cela que a luz despe,
a voz confusa, o sentimento tonto,

fixo a memória que não desvanece,
percorro o dom inebriado e solto
que (mesmo morto) ainda não falece.
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A música

Flexível como a corda que a tange
ela vibra. O leão aprofundado no instrumento
espera o momento certo para saltar –
que é quando se casa o sopro
com as cordas.

Tudo lhe á de lembrar a floresta
o som do vento
o riacho quebrando-se
a flecha que o espera para segui-lo
sem, contudo, nunca o alcançar.

A música é para ouvir e lembrar
(sobretudo)
o jamais vivido,
o que não teve memória.
Mesmo o monocorde das cores
não impede a passagem do que silva e se alça
– como por encanto.
Daí seu fascínio,
a mágica a perscrutar
(nas nossas fibras)
a ressonância que a funda
– apenas a ela.
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