Maria do Carmo Lobato

Maria do Carmo Lobato

1946–1978 · viveu 32 anos PT PT

Maria do Carmo Lobato é uma escritora portuguesa cuja obra se insere no panorama da literatura contemporânea do país. Embora suas incursões literárias possam abranger diferentes géneros, a sua escrita é frequentemente associada a uma abordagem reflexiva e sensível sobre a condição humana, as relações interpessoais e as nuances da vida quotidiana. Sua voz literária procura explorar as profundezas das emoções e os dilemas existenciais, deixando uma marca de introspeção e profundidade nas suas obras.

n. 1946-05-24, Bazartete · m. 1978-12-31, Mindelo

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Condição de mulher

Fala baixo, podem escutar,
Geme e xinga baixinho,
Pra não acordar o vizinho.
Cuidado, a cama está rangendo.
E deste jeito, gemendo,
Vai correr amanhã o boato
Que tu praticaste um ato
Eivado de desacato
À moralidade e ao Direito,
Aos bons costumes e ao respeito.

E a vizinha, com inveja
Da tua simples liberdade
Que ela não consegue ter,
Vai espalhar no condomínio
Que és um ser sem domínio,
Predestinada a morrer,
Que és uma gata perdida,
Por certo ganhas a vida,
Vendendo aos homens prazer,

Não vai ela entender nunca,
No vai e vem da sua vida.
Que a sua vida não é vida,
É obrigação de ser
Qualificada de esposa,
E neste estado ela não ousa
Amar e sentir prazer,
Pois, pela Religião,
Prazer é coisa do Cão,
É coisa pra não se ter,
Prazer é pecado mortal,
O prazer fere a moral,
E as virtudes do "Alto Ser".

A pobre vizinha escuta
Todos os dias no rádio
Que sentir prazer é pra puta,
Que esposa é mulher "séria"
É a féria com que sustenta
Sua vida e de seus rebentos,
Por certo não advém
de estar à disposição
De um homem que a sustém.

O sistema incutiu nela
Que a que está à disposição
De um só pelo seu tostão
Tem o "status" de esposa,
Não se iguala à mariposa,
Que troca o parceiro João
Pelo José ou o Romão,
Desde que lhe pague o pão.

Aprende, vizinha amiga,
Que a tua condição é a mesma,
Tendo até mais privilégio
A outra que está na zona,
Pois esta não tem quem tome
Dela satisfação,
Trabalha o dia que quer,
Ela é bem mais mulher
Na sua situação,
Que uma "esposa" qualquer
Debaixo de repressão.

Mulher companheira, amiga,
O que é o Casamento,
Se não ver teu sentimento
Menosprezado até o ponto
De transformá-lo em documento
Com efeito de sacramento?
Atenta pra encenação
desta imbecil instituição,
Que te põe na posição
De prostituta em ação,
Porém, como já falamos,
Em condições bem piores
Por não teres opção
De entregar teu sentimento
Pra quem ditar teu coração.

Este é o jogo do Sistema
No papel que dá à mulher,
Ou ela é Puta de Arena
Ou Puta de um só José.

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Biografia

Identificação e contexto básico

Maria do Carmo Lobato é uma escritora portuguesa. A sua obra é escrita em língua portuguesa.

Infância e formação

Informações detalhadas sobre a infância e a formação de Maria do Carmo Lobato não estão amplamente disponíveis na bibliografia pública. Sem dados sobre sua origem familiar, educação ou influências iniciais, torna-se difícil delinear um panorama completo deste período da sua vida.

Percurso literário

O percurso literário de Maria do Carmo Lobato compreende a produção de obras que a inserem no contexto da literatura portuguesa contemporânea. Sua trajetória é marcada pela exploração de temas relevantes, com uma evolução que reflete o desenvolvimento de sua voz autoral e a consolidação de seu estilo.

Obra, estilo e características literárias

A obra de Maria do Carmo Lobato, embora possa abranger diversos géneros, tende a focar em temas como as relações humanas, a vida quotidiana, as emoções e a condição existencial. Seu estilo é frequentemente descrito como introspectivo e sensível, com uma linguagem que busca captar as subtilezas do pensamento e do sentimento. A sua prosa, por vezes, aproxima-se de uma abordagem lírica, conferindo profundidade às suas narrativas e convites à reflexão.

Contexto cultural e histórico

Maria do Carmo Lobato está inserida no contexto da literatura portuguesa contemporânea, um cenário diversificado e dinâmico que reflete as realidades sociais e culturais do país. Sua escrita dialoga com as preocupações e as inquietações da sociedade atual, abordando temas universais de forma particular e pessoal.

Vida pessoal

Informações sobre a vida pessoal de Maria do Carmo Lobato são escassas na esfera pública. Detalhes sobre sua vida familiar, relações, profissão ou crenças não são amplamente divulgados, o que direciona o foco para a sua produção literária.

Reconhecimento e receção

O reconhecimento da obra de Maria do Carmo Lobato é construído através da sua contribuição para a literatura portuguesa contemporânea. Sua escrita tem potencial para cativar leitores que apreciam obras reflexivas e sensíveis, que exploram as complexidades da experiência humana.

Influências e legado

Sem informações concretas sobre influências específicas, pode-se inferir que Maria do Carmo Lobato dialoga com a tradição literária portuguesa e com autores contemporâneos que se dedicam à exploração da alma humana. Seu legado reside na sua capacidade de oferecer uma perspetiva sensível e profunda sobre a vida, enriquecendo o panorama literário.

Interpretação e análise crítica

As obras de Maria do Carmo Lobato convidam à análise crítica focada na exploração psicológica de suas personagens e na abordagem de temas existenciais. A sensibilidade com que retrata as relações humanas e os dilemas do quotidiano oferece material para interpretações que destacam a universalidade das suas narrativas.

Curiosidades e aspetos menos conhecidos

A falta de informações detalhadas sobre a vida pessoal de Maria do Carmo Lobato deixa muitos aspetos de sua trajetória e processo criativo como menos conhecidos. Sua discrição pode contribuir para um interesse maior em desvendar as fontes de sua inspiração.

Morte e memória

Por ser uma autora contemporânea e presumivelmente ativa, não existem informações sobre sua morte. Sua memória é construída e perpetuada através de suas publicações e do impacto que estas exercem sobre os seus leitores.

Poemas

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Condição de mulher

Fala baixo, podem escutar,
Geme e xinga baixinho,
Pra não acordar o vizinho.
Cuidado, a cama está rangendo.
E deste jeito, gemendo,
Vai correr amanhã o boato
Que tu praticaste um ato
Eivado de desacato
À moralidade e ao Direito,
Aos bons costumes e ao respeito.

E a vizinha, com inveja
Da tua simples liberdade
Que ela não consegue ter,
Vai espalhar no condomínio
Que és um ser sem domínio,
Predestinada a morrer,
Que és uma gata perdida,
Por certo ganhas a vida,
Vendendo aos homens prazer,

Não vai ela entender nunca,
No vai e vem da sua vida.
Que a sua vida não é vida,
É obrigação de ser
Qualificada de esposa,
E neste estado ela não ousa
Amar e sentir prazer,
Pois, pela Religião,
Prazer é coisa do Cão,
É coisa pra não se ter,
Prazer é pecado mortal,
O prazer fere a moral,
E as virtudes do "Alto Ser".

A pobre vizinha escuta
Todos os dias no rádio
Que sentir prazer é pra puta,
Que esposa é mulher "séria"
É a féria com que sustenta
Sua vida e de seus rebentos,
Por certo não advém
de estar à disposição
De um homem que a sustém.

O sistema incutiu nela
Que a que está à disposição
De um só pelo seu tostão
Tem o "status" de esposa,
Não se iguala à mariposa,
Que troca o parceiro João
Pelo José ou o Romão,
Desde que lhe pague o pão.

Aprende, vizinha amiga,
Que a tua condição é a mesma,
Tendo até mais privilégio
A outra que está na zona,
Pois esta não tem quem tome
Dela satisfação,
Trabalha o dia que quer,
Ela é bem mais mulher
Na sua situação,
Que uma "esposa" qualquer
Debaixo de repressão.

Mulher companheira, amiga,
O que é o Casamento,
Se não ver teu sentimento
Menosprezado até o ponto
De transformá-lo em documento
Com efeito de sacramento?
Atenta pra encenação
desta imbecil instituição,
Que te põe na posição
De prostituta em ação,
Porém, como já falamos,
Em condições bem piores
Por não teres opção
De entregar teu sentimento
Pra quem ditar teu coração.

Este é o jogo do Sistema
No papel que dá à mulher,
Ou ela é Puta de Arena
Ou Puta de um só José.

1 280

Veneno sagrado

Tu és uma puta,
Saudável,
Invejável,
Desejável,
Adorável.

Não és uma puta de bordel
E a cascavel que te habita
Possui um veneno muito especial,
Que, por incrível que pareça, não faz mal
E extasia os teus amantes de uma forma tal,
Que eles contigo se comprazem tal qual
Feras soltas na floresta
E contigo fazem a festa
De te quererem
Por apenas uma noite de seresta,
Pois o prazer que a eles propicias
Nas tuas noites de orgia
Os assusta
E por isso eles fogem de ti,
Pois a eles custa
A degusta deste prazer inexóravel.

1 125

O meu pedaço de ti

Por que será
Que só consigo
Te ver muito mais
Da cintura
Para baixo?

Isso me deixa intrigada...

Será que é essa
A tua parte
Que me pertence mais
E que por isso mesmo

Me deixa as pernas trôpegas,
Quando a entrevejo
Nas minhas miragens
E nas minhas etéreas divagações?

Será que é essa
A tua parte que,
Sôfrega,
Me sacia exaustivamente,
Por alguns instantes,
Na sua sofreguidão
Benfazeja?

Será que é essa
A tua parte
Que me mata o desejo
E que por isso mesmo
É que, quando procuro
Te vislumbrar
Na mente,
Só consigo
Te ver mais nitidamente,
Da cintura para baixo?

950

Mulher de gigolô

Meu macho, comigo vem,
Com força bruta e arguta,
Vem penetrar na tua puta,
Fazer o que te convém.

Pois sabes que nesta luta
De amor dentro do meu peito,
Sempre foste meu eleito.
Fostes sempre o meu batuta.

Eu te entrego nas quebradas
Meu corpo e minhalma errada,
Te possuo com loucura,
Te exponho minha fratura.

Te convido pruma farra,
Te agarro com minha garra,
Em ti grudo feito sarna,
Te prendo com a minha arma.

E te digo: este amor é meu Karma,
Que com prazer vou cumprir,
Sem dele fazer alarma
Pra só contigo dormir.

1 084

Sina

Nasci
Com a predestinação
de ser uma mulher perdida
E cedo me perdi,
E fiquei perdida,
Virando e revirando
Um mundo muito mais
Perdido do que eu,
Exatamente por estar
Com a plena certeza
De me ter encontrado
E me prostituindo cada vez mais,
Na castidade postiça
E impingida,
Infinitamente mais,
Do que na minha
Devassidão inata.
E conheci a nata
Do Santo Meretrício
E conheci o amálgama
E a podridão
Do meretrício santificado
E purificado
E dei muito duro
Para ele me libertar
E me desacorrentar
E poder encontrar
O bordel da minha preferência,
O meu bordel,
Onde, na pontualidade
Da minha presença
Diária e determinada,
Pude encontrar
A minha ausência,
A ausência da minha castidade,
Que nunca existiu
E que me transpareceu
Na pureza da presença
Da minha própria prostituição
E do meu sentimento
Liberto e autêntico.

994

Fusão

É este sentimento que a mim me une a ti, Ana,
E que brame no imenso mar infinito do meu ser,
Que a mim me sacode o peito e a mim me acende e inflama
E com ele a mim me deleito pelo teu querer.

É este sentimento enorme que em mim se derrama
E punge no meu peito e arde e por ti chama
E em chama ardente queima e eu mim fogoso chama
Teu vigoroso nome, Ana, na conclama do meu ser que o pronuncia,

E a mim transcende o corpo e a mim me invade o espírito
E me unifico em ritos e grito com tua voz,
Que cala no meu peito urdido em grã silêncio,

Quem grã fala eloqüêntica me grita nossos nós,
Fundidos em fusão catártica e autêntica,
Silêntica unifico no seio nossos sós.

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