Escritas

Lista de Poemas

Armas da Paixão

Removes
a poeira fina de minha alma
E sopras toda melancolia para fora
Tomas o Sol por tua tocha
E a Lua como espada

Te aquartelas em meus sonhos
E fechas as estradas da discórdia
Vestes o manto da paixão
E pelejas contra o mundo;
Em vão...

Rende-se ao que sinto
Amando-te, traspassado pelo fogo da razão
Não minto!
Vejo-te soltar as armas
Despir-se parva
Entregando-se, por fim
Amada

Desnuda-te o espírito
Cumprindo-se ao rito
Acabando por seres minha;
Nua, cândida, alva...

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Saudades de Ti

Ainda
ouço seus sons
Sinto o cheiro dos teus cabelos
Ao serem penteados pelos corais
Enchendo-se de enfeites de algas
E de vivos peixes que passeiam por suas melenas verdes e azuis
Caindo por suas franjas de brancura espumante
Nas mãos de seus amantes
Sinto falta de tuas coxas alvas
E de tuas pernas onduladas
Que se encaixam simetricamente em seus seios montanhosos
O doce odor podre de tuas axilas portuárias
Que embriagam o cais
Com tua essência
Tuas favelas arquitetadas
Apinhando-se sobre morros
E vilas apertadas
Com seu feijão preto
E o samba de raiz
Vingando do gueto
Suburbano de seus encantos
Narrando a rotina embriagante
Dos poetas apaixonados
Que ao som de tiros trágicos
Tingem seus corações de amor

E bradam a volta ás suas carnes
Cantando teu nome:
Rio de Janeiro

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Do Corpo à Cálida Desgraça

Nudos peitos desnudos
Coxas alvas e ao mundo
Num harém de pecados desmedidos
E profundos
No toque de recorrer de outrora ou
Na galhofa do clicar de um fotógrafo
De leda estirpe e olho fundo

Inocência vendida por vintém
E a pureza que hoje
Sabe-se lá quem ainda a têm
Registradas em retangulares quadros de uma vida
Periódica

Nos desejos de criança sujo à óleo ou graxa
Ou entorpecidos de dinheiro sujo
Que nos proporciona um corpo límpido
De aspirações mortas

Da germinal dobra rósea exposta
Servida em qualquer esquina como uma suja hóstia
Disposta a engordar a confissão
De qualquer trágico beato
E ao padre o sermão

Sermão e raiva reprimida de também
Ele, pároco cético de seu credo
Não ter aproveitado
Em Eva o pecado original
Ou de tê-lo feito
Escondido em regalias seminais
Nos seminários
Nada angelicais
De nossas desgraças

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Da Tua Casa à Minha

Todas
as casas de portas fechadas
E o caminho enebriante à minha frente
Tão escuras que são as estradas
Que me conduzem novamente
A mansão sombria de minhas discórdias

Poucos são os transeuntes que me aparecem
Vagabundos de lirismo arcaico que se apetecem
Da chama do umbral da noite
Molhando os dedos e apagando a vela trêmula
No sepulcro sacro do castiçal da boêmia

Resgatam temas de valentia
Em que brigavam por lemas de alforria:
Libertar a alma e o corpo
Amar à exaustão e revelia!

Choram por damas perdidas
E rememoram alegres as perdidas damas
Sonham voltar a saborear deliciosas comidas
E depois roncar solenemente
Em não mais que confortáveis e esquecidas camas

O pouco que sonham lhes é muito
E seu canto é somente onírico e mudo
Não atingem aos nossos peitos
Reverberam, quanto muito
À outros corações vagabundos

Há cachorros que lhes lambem
As chagas que os iguais, sim, mortais
Lhes conferiram em encontros informais
Pois para a morte, a fome, o frio e a violência
Não existe formalidade
Basta um terno e gravata
Carro importado e caneta refinada
Para assinar qualquer suja bravata

Esperam por nova chance
Um amor, emprego, sonhos apenas
E antes que a impossível imagem da felicidade se apague
Mais um fino trago de cachaça num só lance
A esquentar corpo, alma e melenas

São estes os únicos seres que avisto
Quando retorno da tua casa
Já que teus olhos ficaram cravados em meu peito
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Pássaro Ferido

Ferido
o pássaro que voa;
Bico entreaberto
Garras preparadas e penas eriçadas
O coração saltitando
Dentro do minúsculo peito
Coberto de penas alvas tingidas de rubro
O mais belo tom de rubro:
O vivo vermelho do sangue da liberdade

Ferido o pássaro que voa
Porém livre
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