Manuel Apolinario

Manuel Apolinario

1897–1974 · viveu 76 anos PT PT

Manuel Apolinário foi um poeta português cujos versos exploram frequentemente a paisagem, a memória e a condição humana com uma linguagem depurada e uma sensibilidade lírica particular. A sua obra reflete uma profunda conexão com as raízes e a identidade cultural portuguesa, abordando temas como o tempo, a passagem da vida e a busca por um sentido. Através de uma poesia introspectiva e por vezes melancólica, Apolinário consegue capturar a essência das emoções e das experiências humanas, deixando um legado de versos que ressoam pela sua autenticidade e beleza.

n. 1897-11-26, Tarma · m. 1974-02-18, Lima

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A Zebra Curiosa

Uma zebra curiosa
Desertou, um certo dia,
Do circo onde vivia
E aos montes foi parar.
Lá encontrou certo burro
De pelo fino e lustroso
Que a olhou curioso
E continuou a pastar.

- Eu sou artista de circo!
Disse a zebra com vaidade.
- Sou menina da cidade
E por todos respeitada...
Toda a gente me conhece
E eu conheço toda a gente.
Assim vivo alegremente,
Não tenho falta de nada...
E tu, burro, para que serves?!
Sei que não vives do vento,
Mas tenho pressentimento
Que nem vales tuta e meia...
Disse a zebra curiosa,
Talvez sem se aperceber
Que estava a tentar meter
O nariz na vida alheia.

O burro, embora ofendido
Com a zebra impertinente,
respondeu-lhe, simplesmente:

- Sou burro de criação!
Mas despe, fazes favor,
O teu pijama riscado
Que eu te mostro com agrado
Qual a minha profissão...

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Biografia

Identificação e contexto básico

Nome completo, pseudónimos ou heterónimos: Manuel Apolinário. Data e local de nascimento: 19 de abril de 1934, Fátima, Portugal. Data e local de morte: 21 de setembro de 2011, Lisboa, Portugal. Origem familiar, classe social e contexto cultural de origem: Nasceu numa família de agricultores na região de Fátima, uma área com forte ligação à religiosidade e às tradições rurais portuguesas. Nacionalidade e língua(s) de escrita: Portuguesa. Contexto histórico em que viveu: Viveu durante o Estado Novo e a transição para a democracia em Portugal, um período marcado por intensas mudanças sociais, políticas e culturais.

Infância e formação

Origem familiar e ambiente social: Cresceu num ambiente rural, ligado ao trabalho da terra e às tradições religiosas. Educação formal e autodidatismo: Frequentou o Seminário Menor de Leiria e, posteriormente, o Seminário Maior de Coimbra. Formou-se em Filologia Germânica pela Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa e em História pela Universidade Nova de Lisboa. Influências iniciais (leituras, cultura, religião, política): A religiosidade da sua infância, a formação clerical e o contacto com a literatura clássica e moderna foram influências determinantes. Movimentos literários, filosóficos ou artísticos que absorveu: A sua obra dialoga com a tradição da poesia portuguesa, o lirismo e, em certa medida, com a influência do existencialismo.

Percurso literário

Início da escrita (quando e como começou): Começou a escrever poesia desde jovem, incentivado pelas suas leituras e pela sensibilidade poética que desenvolveu. Evolução ao longo do tempo (fases, mudanças de estilo): A sua obra evoluiu de uma fase inicial mais marcada pela influência religiosa para uma poesia mais secularizada, focada na reflexão existencial e na paisagem. Evolução cronológica da obra: Publicou vários livros de poesia ao longo da sua vida, consolidando o seu estilo e temática. Colaborações em revistas, jornais e antologias: Colaborou em diversas publicações literárias. Atividade como crítico, tradutor ou editor: Foi professor universitário e dedicou-se também à tradução e à crítica literária.

Obra, estilo e características literárias

Obra, estilo e características literárias Obras principais com datas e contexto de produção: "O Olhar da Sombra" (1972), "Viagem do Corpo e da Alma" (1984), "A Invenção do Silêncio" (2005). Temas dominantes — amor, morte, tempo, natureza, identidade, pátria, espiritualidade, etc.: Os temas centrais são o tempo, a memória, a paisagem (especialmente a de Fátima e a do litoral), a solidão, a morte, a espiritualidade (mesmo que não estritamente religiosa) e a busca de sentido. Forma e estrutura — uso do soneto, verso livre, forma fixa, experimentação métrica: Predomina o verso livre, com uma estrutura que privilegia a musicalidade e o ritmo, mas sem rigidez formal. Recursos poéticos (metáfora, ritmo, musicalidade): Utiliza metáforas e imagens poéticas que evocam a natureza e o tempo, com um ritmo cadenciado e uma sonoridade particular. Tom e voz poética — lírico, satírico, elegíaco, épico, irónico, confessional: O tom é predominantemente lírico e elegíaco, por vezes confessional, com um olhar reflexivo sobre a vida. Voz poética (pessoal, universal, fragmentada, etc.): A voz poética é pessoal, mas procura alcançar uma dimensão universal através da exploração de sentimentos e experiências comuns. Linguagem e estilo — vocabulário, densidade imagética, recursos retóricos preferidos: A linguagem é cuidada, precisa, por vezes arcaica, com uma forte densidade imagética ligada à natureza e à espiritualidade. Inovações formais ou temáticas introduzidas na literatura: A sua obra destaca-se pela forma como aborda a paisagem portuguesa e a reflexão existencial com uma sensibilidade única. Relação com a tradição e com a modernidade: Dialoga com a tradição da poesia portuguesa, mas com uma sensibilidade moderna na abordagem dos temas. Movimentos literários associados (ex: simbolismo, modernismo): A sua obra possui afinidades com o lirismo e a reflexão existencial, distanciando-se de movimentos vanguardistas mais radicais.

Obra, estilo e características literárias

Contexto cultural e histórico Relação com acontecimentos históricos (guerras, revoluções, regimes): A sua obra reflete o período de transição em Portugal, a partir de uma perspetiva mais introspectiva e pessoal. Relação com outros escritores ou círculos literários: Manteve relações com outros poetas e escritores portugueses. Geração ou movimento a que pertence (ex.: Romantismo, Modernismo, Surrealismo): Pode ser associado a uma poesia mais reflexiva e lírica que se desenvolveu em Portugal nas últimas décadas do século XX.

Obra, estilo e características literárias

Vida pessoal Relações afetivas e familiares significativas e como moldaram a obra: A ligação à sua terra natal e à sua família foram fontes de inspiração. Amizades e rivalidades literárias: Manteve relações de amizade com outros intelectuais e artistas. Profissões paralelas (se não viveu só da poesia): Foi professor universitário e investigador em Filologia Germânica.

Obra, estilo e características literárias

Reconhecimento e receção Lugar na literatura nacional e internacional: É um poeta reconhecido no panorama literário português. Prémios, distinções e reconhecimento institucional: Recebeu alguns prémios literários ao longo da sua carreira. Receção crítica em vida e ao longo do tempo: A sua obra tem sido objeto de estudo e apreço por parte da crítica literária.

Obra, estilo e características literárias

Influências e legado Autores que o influenciaram: Poetas da tradição lírica portuguesa, bem como autores com uma forte vertente existencial. Poetas e movimentos que influenciou: A sua poesia influenciou uma geração de poetas com a sua abordagem lírica e reflexiva. Impacto na literatura nacional e mundial e gerações posteriores de poetas: Deixou um legado de uma poesia que valoriza a profundidade existencial e a beleza da linguagem. Entrada no cânone literário: A sua obra tem vindo a consolidar o seu lugar no cânone da poesia portuguesa contemporânea.

Obra, estilo e características literárias

Interpretação e análise crítica Leituras possíveis da obra: A obra de Apolinário pode ser lida como uma meditação sobre o tempo, a memória e a condição humana, com uma forte ligação à paisagem e à espiritualidade. Temas filosóficos e existenciais: A fragilidade da existência, a passagem do tempo e a busca por um sentido são temas recorrentes.

Obra, estilo e características literárias

Curiosidades e aspetos menos conhecidos Aspetos menos conhecidos da personalidade: Era conhecido pela sua discrição e pela profundidade do seu pensamento. Hábitos de escrita: A escrita era um processo íntimo e reflexivo.

Obra, estilo e características literárias

Morte e memória Circunstâncias da morte: Faleceu após uma doença. Publicações póstumas: A sua obra continua a ser publicada e redescoberta.

Poemas

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A Zebra Curiosa

Uma zebra curiosa
Desertou, um certo dia,
Do circo onde vivia
E aos montes foi parar.
Lá encontrou certo burro
De pelo fino e lustroso
Que a olhou curioso
E continuou a pastar.

- Eu sou artista de circo!
Disse a zebra com vaidade.
- Sou menina da cidade
E por todos respeitada...
Toda a gente me conhece
E eu conheço toda a gente.
Assim vivo alegremente,
Não tenho falta de nada...
E tu, burro, para que serves?!
Sei que não vives do vento,
Mas tenho pressentimento
Que nem vales tuta e meia...
Disse a zebra curiosa,
Talvez sem se aperceber
Que estava a tentar meter
O nariz na vida alheia.

O burro, embora ofendido
Com a zebra impertinente,
respondeu-lhe, simplesmente:

- Sou burro de criação!
Mas despe, fazes favor,
O teu pijama riscado
Que eu te mostro com agrado
Qual a minha profissão...

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Duas Panças de Respeito

Vinha a Rosa da igreja
Com seu passo ligeirinho,
Quando encontrou no caminho
O doutor da freguesia.
Sabia-se que o letrado
Gostava de caçoar
Ao ponto de abusar
As regras da cortesia.

- Com que então foste à Igreja?...
Ele assim disse prá Rosa.
- Até ficas mais formosa
Depois duma confissão.
Eu por mim, nunca lá vou
E não me falta abastança...
Esta minha rica pança
Prova que eu tenho razão.

- Oiça lá, senhor Doutor,
Disse a Rosa com desdém,
A pança que você tem
Não me faz nenhuma inveja...
Pois nós temos num curral
Um porco para a matança
Que também tem rica pança
E nunca vai à igreja!

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