Escritas

Lista de Poemas

O adormecido

Agora tenho sede e meu amor é como água.
Venho do distante de uns olhos escuros.
Agora sou do fundo do reino dos adormecidos;
só lá me reconheço e me encontro com minha alma.
A noite rói a bicadas o que resta do meu coração
e me bebe o sangue o sol escuro dos adormecidos;
ando morto de sede e toco um sino
para chamar a água tênue que me ama.
Eu sou o esquecido. Quero um ramo d’água,
quero uma fresca margem de areia enternecida,
quero esperar uma flor de nome celestial
para me calar com ela apoiada no peito,
as mãos cruzadas e um terno preto,
como se costuma usar...
Ninguém poderá roubar-me, então, um beijo, um olhar!
Nem sequer a morte poderá apagar este perfume.
Irei coberto de desilusões e a fosforescência que se verá,
será a do desespero dos esquecidos...

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O pirilampo

Um pirilampo indiscreto,
esperto,
sem pedir licença,
se pôs a contemplar-te
deitada no teu leito:
"- Como és linda!", disse ele.
O pirilampo indiscreto,
esperto,
teve o fado
que me é negado.
E pôde banhar-te
com sua delicada luz,
vislumbrando na fosforescência
do aveludado de teu corpo
a lascívia de tuas formas,
a beleza única de teus contornos.
Tu, qual Vênus pronta a se entregar
aos ansiados braços
de um Morfeu sedento...
Oh! O que eu não daria
para ser o pirilampo!
E ver-te, e admirar-te,
e desejar-te - e te querer! -,
e sentir teu hálito
num abraço-espasmo
longo, duradouro,
fundindo corpos,
entrelaçando almas,
para, enfim,
na exaustão do amor,
depositar na maciez sensual
de tua boca rósea
o ósculo santo da paixão
definitiva.
E depois,
beijar teus olhos semicerrados,
suavemente, ternamente,
e velar teu sono,
e segredar-te sussurrando
tudo aquilo que a uma deusa
se deve dizer ajoelhado.

Mas eu não sou o pirilampo...

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Mítica

Diante de ti, pressinto a eternidade
das ternuras como a estrela
a clarinada alegre da manhã.
És uma nesga de luz, és quase um sonho.
Não sei de onde vieste. O teu caminho
nunca foi paralelo ao meu caminho.
Talvez seguisses o infinito quando,
perpendicularmente, te encontrei.
O teu destino se fez o meu destino. Juntos,
passamos a percorrer uma trilha diferente.
O próprio espaço ampliou-se mais
para poder conter a imensidão do nosso afeto.
E o tempo, no silêncio das coisas
que são misteriosas e inexplicáveis,
já não disfarça a sombra viva
da inefável ternura que nos enlaça.
Por isso, cada vez ao pressentir tua chegada,
fervilham-me os sentimentos mais profundos
e freme a minha alma.
És um mito de carne e realidade

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A segunda canção desesperada

"Sobre mi corazón llueven frías corolas.Oh sentina de escombros, feroz cueva de náufragos!"(Pablo Neruda - La canción desesperada)

Tua lembrança povoa as horas tristes
da noite desesperançada em que estou.
Em moldura de ébano e estampa de cristal
povoa minhas horas tua figura de fada e de ternura.
Meu coração, deserdado a golpes de punhal,
teima em bater descompassado e exangue.
Em ti se acumularam expectativas e anseios,
de ti alçaram vôo graves sonhos e ilusões candentes.
Eras o renascer de minha alma, a minha vida,
meu despertar em meio à solidão que desampara.
Qual bandeira em paragem inóspita e inculta,
teu corpo me penetrou vazando as corolas dos meus sentidos.
Viajantes das estradas iluminadas das quimeras incendidas,
juntos alcançamos os umbrais dos páramos do amor.
Oh! Os lábios mordiscados, os corpos entrelaçados
em instantes de ternura e sublime obsessão.
Oh! Obsessão crivada de desejos incontidos,
brotados das profundezas intangíveis do amor inacabado!
Ternura suavemente sussurrada a meia luz,
por entre os alvos dentes de tua arcada faiscante e bela.
Tua beleza etérea permanece como o melhor presente,
doce recordação que fere e mata a uma só vez.
Tua presença me retrocede à florida campina dos sonhos,
levando-nos lado a lado além do fato e do desejo.
Esse meu desejo de ti e esse teu desejo de mim
se eternizaram na paz e na luz que tu me deste.
Quantas lágrimas se secaram nos arcos dos teus retesados ombros,
quanto riso agasalhado em teu colo alvo e macio!
Ter na, encantadora, menina e fada - única - ,
os brilhos dos teus olhos meigos se cravaram no meu dentro.
Em mim havia sede, fome, solidão e mágoa:
foste a água, o fruto, a companhia suave e a alegria.
Agora, há uma estrela ascendente irradiante em sua luz,
e, bem perto, uma nave sem rumo cercada de portos inseguros.
Deuses, que embalastes os sonhos de tantos amantes,
dizei-me, ó deuses, a que inferno o abandonado chegará!
Abelardo e Heloísa, Quixote e Dulcinéia, Romeu e Julieta,
por que sugastes todo o néctar da flor do amor corrrespondido?
Mistério. É noite. No dentro e no fora. Mistério e noite.
Sigo caminhando, a cruz do desencanto cravada no meu peito.
Apesar, a menina-que-veio-dos-céus, a fada-ternura,
terá sempre vindo dos céus, será sempre a fada ternura.
Linda, linda, terna e meiga, fada-menina
à procura do amor que te falhei em dar...

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Sabor

E depois do amor,
muito tempo depois do amor,
não sinto apenas a saudade,
nem lembro apenas o teu perfume,
nem sigo ouvindo apenas a tua voz,
e os teus ais, e os meus te-amo.
Continuo sentindo o teu sabor,
depois do amor,
muito tempo depois do amor...

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Obsessão

Uma borboleta linda
mora nos teus olhos
e me fita atentamente.
Quando moves as pupilas
e semicerras as pálpebras,
vejo-a
num espiral frenético
a me chamar e enfeitiçar.
Uma borboleta linda
mora nos teus olhos
e me fita atentamente.
E eu fico a contemplá-la
extasiado, mudo e triste,
com vontade de acompanhá-la.
Uma borboleta linda
mora nos teus olhos
e me fita atentamente.
E eu fico a contemplá-la,
extasiado, mudo e triste,
sem poder acompanhar-lhe o vôo.
Uma borboleta linda
mora nos teus olhos.
Uma borboleta linda...
linda... linda...

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Poema definitivo

És assim como o vento:
pões a biruta da vida
sobre o mastro a voltear;
és a gaivota prateada:
bicas de leve e silente
cada onda do meu mar;
és o grãozinho de areia
que cola e logo descola,
voltando ao seu lugar;
és aquele raio quente
do sol do meio-do-dia,
astro-rei, a me queimar;
és a vitela pastando,
a arvorezinha brotando,
ceifa do ceifador a me ceifar...;
és o vestido de rendas
na menina indefinível
a rodar, rodar, rodar;
és meu ímã predileto
que meu sangue, fer r o-em-brasa,
parece querer sugar;
és tudo quanto não tive,
mais o que pensei ter tido,
louco, louco a sonhar.
Quanto te vejo passar,
quando te sinto chegar,
sei que não vivi em vão:
tu me surges como aquela
que não se gerou no ventre
mas nasceu do coração!

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Dístico (II)

Tu ficarás comigo, enquanto um pássaro
houver que cante e sonhe na viagem.
E a noite que nos viu será eterna
sobre os campos úmidos da aurora.

Tu ficarás no vento e nas estrelas
e serás a alegria dos caminhos.

Tua presença cantará nas pedras,
teu riso meigo sorrirá nas flores.

E por onde eu seguir, como perdido,
tu estarás, tu ficarás comigo.
Para sempre.
Para sempre.

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Ausência

Não estares
é como abrir uma ferida imensa
de onde salta
um mar vermelho de solidão.
É dissecar em mim
um tempo que não existe,
um tempo em que não sou,
no qual tu és, absoluta,
pela falta em que me queimas.
Não estares
é afogar-me em águas turvas
ardendo na sede,
insaciável,
que me consome.
Não estares
é como se não quisesses estar
mesmo querendo,
enquanto eu sorvo, ininterruptamente,
a agridoce essência
do teu ser onipresenteausente

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