Leonel Neves

Leonel Neves

1922–2004 · viveu 82 anos PT PT

Leonel Neves é um poeta brasileiro conhecido pela sua obra que explora a condição humana com sensibilidade e profundidade. A sua poesia frequentemente aborda temas como o tempo, a memória e a busca por sentido, utilizando uma linguagem rica em imagens e simbolismos. Com um estilo marcado pela introspeção e pela musicalidade do verso, Neves consolidou-se como uma voz importante na poesia contemporânea em língua portuguesa.

n. 1922-01-22, Carazinho · m. 2004-06-21, Rio de Janeiro

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LEMBRANÇA DA SEGUNDA GRANDE GUERRA

Uma manhã chegou a guerra. Do Japão.
Veio e aqui ficou talvez dois ou três anos.
De japoneses havia uma divisão;
julgo que só trezentos, dos australianos.

Como eram poucos, eram bons. Os outros, não:
mataram-me vizinhos, o meu pai, dois manos.
O meu homem fugiu e ajudou no Subão
dois loiros a afogar cem dos mais desumanos.

Naquela noite, entrou-me em casa uma baioneta.
Um soldado amarelo e súbito agarrou-me
- eu estava sozinha - e deitou-me depressa.

Deixei-o possuir-me, silenciosa e quieta;
e, quando adormeceu, sem perguntar-me o nome,
peguei numa catana e cortei-lhe a cabeça.

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Biografia

Identificação e contexto básico

Leonel Neves é um poeta brasileiro. A sua obra poética destaca-se pela profundidade lírica e pela exploração de temas existenciais.

Infância e formação

Informações sobre a infância e formação de Leonel Neves são limitadas na esfera pública, mas o seu percurso aponta para um desenvolvimento literário marcado por leituras atentas e um profundo interesse pela linguagem e pela expressão poética.

Percurso literário

O percurso literário de Leonel Neves é caracterizado por uma dedicação à poesia como forma de explorar a alma humana e as complexidades da existência. Ao longo do tempo, a sua escrita manteve um fio condutor de introspeção, aprofundando a sua linguagem e a sua capacidade de evocar emoções e reflexões.

Obra, estilo e características literárias

A obra de Leonel Neves caracteriza-se por uma profunda exploração de temas como o tempo, a memória, a identidade e a busca por sentido. Utiliza uma linguagem poética rica em imagens e simbolismos, com um estilo marcado pela introspeção e pela musicalidade do verso. A sua poesia convida à reflexão, evocando sentimentos e pensamentos sobre a condição humana.

Contexto cultural e histórico

Leonel Neves insere-se no contexto da poesia contemporânea brasileira, um período marcado pela diversidade de estilos e pela contínua reinterpretação da tradição poética à luz das novas realidades sociais e culturais.

Vida pessoal

Os detalhes da vida pessoal de Leonel Neves não são amplamente divulgados, mas a sua obra sugere uma personalidade sensível e reflexiva, com um forte envolvimento com as questões existenciais.

Reconhecimento e receção

Leonel Neves é reconhecido como um poeta com uma voz singular na poesia contemporânea em língua portuguesa, apreciado pela profundidade e pela qualidade lírica da sua obra.

Influências e legado

A influência de Leonel Neves reside na sua capacidade de articular a experiência humana de forma poética, tocando os leitores com a sua sensibilidade e a força das suas imagens. O seu legado é o de um poeta que soube dar voz às inquietações da alma.

Interpretação e análise crítica

A poesia de Leonel Neves convida a múltiplas interpretações, centradas na exploração de temas universais como a passagem do tempo, a fugacidade da vida e a busca por um significado mais profundo.

Curiosidades e aspetos menos conhecidos

Informações específicas sobre curiosidades ou aspetos menos conhecidos da vida de Leonel Neves não estão publicamente disponíveis.

Morte e memória

Não há informações públicas sobre a morte de Leonel Neves.

Poemas

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LEMBRANÇA DA SEGUNDA GRANDE GUERRA

Uma manhã chegou a guerra. Do Japão.
Veio e aqui ficou talvez dois ou três anos.
De japoneses havia uma divisão;
julgo que só trezentos, dos australianos.

Como eram poucos, eram bons. Os outros, não:
mataram-me vizinhos, o meu pai, dois manos.
O meu homem fugiu e ajudou no Subão
dois loiros a afogar cem dos mais desumanos.

Naquela noite, entrou-me em casa uma baioneta.
Um soldado amarelo e súbito agarrou-me
- eu estava sozinha - e deitou-me depressa.

Deixei-o possuir-me, silenciosa e quieta;
e, quando adormeceu, sem perguntar-me o nome,
peguei numa catana e cortei-lhe a cabeça.

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UM ROMANCE DE REGRESSO

Vindo do Mundo Perdido,
Mau-Máli foi à Missão,
por acaso ou a pedido
ensinar sua lição,
fazer o que em qualquer parte
faria como artesão:
trabalhar na sua arte
de bonecos de latão.

Depois, ou por ter gostado
desta ou daquela oração,
ou por ter-se enamorado
de algum Cristo de latão,
fosse lá pelo que fosse,
Mau-Máli fez-se cristão,
dentro e fora baptizou-se,
Mau-Máli virou João.
E, como João, guardou
dentro do seu coração
não palavras que escutou
mas toda a sua intenção.

Pecados mortais e tudo
ouviu com muita atenção...
mas, guerreiro sobretudo,
que lá matar, isso não!

Tendo assim acontecido,
dada e tomada a lição,
voltou ao Mundo Perdido,
não Mau-Máli, mas João.
E a mulher barlaqueada
com Mau-Máli artesão
já com outro tinha aramada
sua esteira de traição.

Um timor que assim se engana
sabe a sua obrigação,
a que só uma catana
pode dar satisfação.
Uma adúltera confessa
merece tanto perdão
como o outro: sem cabeça,
o seu crime pagarão.
Mas o que Mau-Máli sabe,
o que manda a tradição,
é coisa que já não cabe
na cabeça de João.

Poderia esquecer tudo,
Cristo, baptismo, oração,
mas lembra-se sobretudo
que lá matar, isso não!

Ora já foi cumprido
o seu tempo na Missão,
já só no Mundo Perdido
há bonecos de latão,
não há lugar onde ponha
sua vida de artesão.
Sem lavar sua vergonha
como há-de viver João?
Por isso decapitou-se
com um só golpe de mão.

Mas... João suicidou-se?
- Mau-Máli matou João!

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