Escritas

Lista de Poemas

Poema de Múltipla Escolha - Faça seu Poema

Em que tempo vivo
em que hora? de aço ( )
de água ( )
de mágoa ( )
de arma ( )

em que tempo vivo
em que hora? de faca ( )
de ferro ( )
de fúria ( )
de fuga ( )

em que tempo vivo
em que hora? de canto ( )
castigo ( )
cegueira ( )
cadeia ( )

em que tempo vivo
em que hora? de teia ( )
de muro ( )
de usura ( )
de guerra ( )


Poema integrante da série Tentativa de Ofício II - poemas de pesquisa.

In: LEMOS, Lara de. Aura amara. Brasília: Coordenada Ed. de Brasília, 1969. (Poesia especial)
👁️ 2 880

Vida não Vivida

Espero o fim da façanha.

O ocaso dos tiranos
a abolição dos mandatos
a bicicleta dos cegos
a vinda do ser biônico.

Espero o fim da patranha.

A supressão dos impostos
a queima das promissórias
a vitória nas diretas
o carnaval em agosto.

Espero o fim dos cucanhas.

Proibição das trapaças
manhãs de falas abertas
a praça para os profetas
o fim dos tecnocratas.

Espero o fim da esperança.


Poema integrante da série Adaga Lavrada.

In: LEMOS, Lara de. Adaga lavrada. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira; São Paulo: Massao Ohno, 1981. (Poesia hoje, 51. Nova fase)
👁️ 1 842

Penélope

Para Lígia M. Averbuck

No tear pequeno
teço os fios
da minha vida
teço o tédio.

No tear do tempo
teço teia in-
consistente
teço o verso.

No tear do Universo
teço o verbo
solitário
teço o poema.

No tear do medo
teço o pano
derradeiro
teço o sudário.


Poema integrante da série Adaga Lavrada.

In: LEMOS, Lara de. Adaga lavrada. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira; São Paulo: Massao Ohno, 1981. (Poesia hoje, 51. Nova fase)
👁️ 2 144

Legado

Para Laury Maciel

Recuso-me a herança
deste poço vazio
deste lodo legado
em negligências.

Engulo a seco e calo.
Aposto em cada poema
— único engenho
ainda não vencido.

Proponho rubros jogos
olhos atentos
para o imaginário.

Ases de puro ouro
— naipes que guardo
para meu incêndio.


Poema integrante da série Adaga Lavrada.

In: LEMOS, Lara de. Adaga lavrada. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira; São Paulo: Massao Ohno, 1981. (Poesia hoje, 51. Nova fase)
👁️ 1 748

O Irmão

No rosto a ruga
na fala o susto
na boca a baba
no corpo o luto.

No sangue o saque
na carne o fogo
no riso a claque
na palma o nome.

No olho o cisco
nos pés a corda
na dor o quisto
na mão a vela.

Na cara o risco
no dente a falha
na casa o lixo
na morte a vala.


Poema integrante da série Para um Rei Surdo.

In: LEMOS, Lara de. Amálgama. Pref. Gilberto Mendonça Teles. Porto Alegre: Globo: IEL, 1974. (Sagitário)
👁️ 1 415

IV [Trazes os olhos derramando estrelas

A Cecília Meireles

Trazes os olhos derramando estrelas.
Foges de ti por tudo o que te cerca.
Teu roteiro é a Rosa-Ventania
apontando além de tuas fronteiras.

Nos limites do mundo crias espaços
por onde segues crente e arrebatada,
repartindo teus dias, teus abraços,
teu jardim, tuas fontes, teus segredos.

Renasces a cada morte prematura
com tesouro maior e mais profundo,
à grandeza do amor acostumada.

Inventando canções enternecidas,
prossegues com teu cântaro de sonhos
reverdecendo em cada madrugada.


Poema integrante da série Do Irreversível.

In: LEMOS, Lara de. Canto breve: poesia. Porto Alegre: Difusão de Cultura, 1962
👁️ 1 283

Conta Corrente

Para Wanda Maria

CRÉDITO DÉBITO

O creditado de mim o que dei
não foi muito. foi pouco

Quatro sentidos o que nasce
e uma visão: a si se opondo:

além do visgo meu sim, meu não
do lucro minha sina

além do oco meu sangue aguado
do homem de medo.

além do soco A palavra e a
do mundo. mordaça.

SALDO

só o domado viver.
Mais nada.


Poema integrante da série Adaga Lavrada.

In: LEMOS, Lara de. Adaga lavrada. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira; São Paulo: Massao Ohno, 1981. (Poesia hoje, 51. Nova fase)
👁️ 1 490

A Teia

A teia se tece
de grade sem ferro
do negro sem fresta
do muro sem pedra.

A teia se tece
do árduo da espera
do aço da espada
e sua ameaça.

A teia se tece
da fala da insídia
da rede que enreda
na mesma cilada.

A teia se tece
de liça, contenda
açoites, cobiça
invídia, solércia.

A teia se tece
de nomes antigos
de amigos perdidos
no elo das celas.


Poema integrante da série Para um Rei Surdo.

In: LEMOS, Lara de. Amálgama. Pref. Gilberto Mendonça Teles. Porto Alegre: Globo: IEL, 1974. (Sagitário)
👁️ 2 399

Anticanção para o Negrinho do Pastoreio

Não. Não quero a vela
para encontrar o inencontrável.

Nem quero achar gordos cavalos
que não pertencem
a nenhum só
de nossa gente.

Perca-se tudo
(menos coragem)
no perecível
das mãos que punem
homem indefeso
nas invernias.

Não quero a vela
nem teu segredo
menino-morto-assassinado
para encontrar campo
roubado
gado engordado
com tua pobreza
multiplicada.

Poupa teu choro menino-cristo
poupa teu medo, cresce
pra luta
preto com branco
branco com preto
no mesmo campo
no mesmo lado
no mesmo canto.


Poema integrante da série Do Mundo.

In: LEMOS, Lara de. Aura amara. Brasília: Coordenada Ed. de Brasília, 1969. (Poesia especial)
👁️ 1 490

Cantiga do Pressentir

A noite já nos espreita
e permaneço esquecida
à beira do meu destino.
És tardo porque ignoras
que vivo do que adivinho.

Repele a palavra esquiva
não te cubras de distância,
estende um lenço, um soluço,
troca teus olhos de ausente
por dois claros de esperança.

E vem, que te aguardo ainda
nesses linhos de aconchego,
em braços de puro embalo,
em plumagens de mornura,
em claras nuvens de espuma.

Enquanto não me descobres
me perco em falas menores,
me reparto sem vontade,
tropeço pedras amargas,
naufrago secretos mares.


Poema integrante da série Canto Breve.

In: LEMOS, Lara de. Canto breve: poesia. Porto Alegre: Difusão de Cultura, 1962
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