Jules Laforgue

Jules Laforgue

1860–1887 · viveu 27 anos FR FR

Jules Laforgue foi um poeta e crítico literário francês, figura de transição entre o simbolismo e o modernismo. Conhecido pela sua ironia, melancolia e experimentação formal, a sua obra explorou temas como o amor, a morte, o tempo e a condição humana com uma perspetiva cética e desiludida. Apesar de uma produção literária relativamente curta e de um reconhecimento limitado em vida, o seu estilo inovador e a sua visão única da modernidade exerceram uma influência significativa sobre a poesia do século XX, particularmente sobre os poetas modernistas americanos.

n. 1860-08-16, Montevidéu · m. 1887-08-20, Paris

4 743 Visualizações

Solo de Lua

Fumo, de frente para o céu,
Sobre a imperial da carruagem;
Meu corpo aos solavancos, minh’alma dança
Como um Ariel;
Sem mel, sem fel, minha bela alma dança,
Ó colinas, ó fumaças, ó vales, ó viagem!
Minha bela alma, recapitulemos.

Nós nos amávamos como dois loucos, perdidamente,
Nos separamos sem falar a respeito.
Um spleen me mantinha ausente
E esse spleen me vinha de tudo. Perfeito.

Seus olhos diziam: "Entende?
Por que você não entende?"
Mas ninguém quis dar o primeiro passo,
Querendo demais cair juntos num abraço.
(Entende?)

Onde está ela agora?
Talvez ela chora...
Onde está ela agora?
Ah! Cuide-se ao menos, senhora!

O frescor dos bosques ao longo da avenida,
O xale de melancolia, toda alma está um pouco à espia,
Pois minha vida
É malquerida!
Esta imperial da carruagem tem certa magia.

O irreparável acumulemos!
Nossa sorte desafiemos!
Há mais estrelas do que grãos de areia no mar,
Onde outros viram seu corpo se banhar;
Mas tudo acaba morto.
Não há porto.

Os anos vão passar,
Cada um vai teimar,
E muitas vezes, já posso imaginar,
Vamos dizer: "Se eu tivesse sabido..."
Mas se tivéssemos casado, não teríamos dito:
"Se eu tivesse sabido, se eu tivesse sabido!..."?
Ah! Encontro maldito!
Ah! Meu coração encurralado!...
Tenho-me mal comportado.

Maníacos por felicidade,
Então, que vamos fazer? Eu com a espiritualidade,
Ela com sua falível pouca idade?
Ó pecadora a envelhecer,
Oh! Quantas noites infame vou-me fazer
Para teu prazer!

Seus olhos piscavam: "Entende?
Por que você não entende?"
Mas ninguém deu o primeiro passo
Para cairmos juntos, ah!, num abraço.

A lua se eleva,
Ó estrada de grande sonho!...
Passamos as fiações, a serraria,
Mais que os marcos do caminho,
Nuvenzinhas de um rosa de confeitaria,
Enquanto um fino crescente de lua se eleva,
Ó nenhuma música, ó estrada de sonho...
Nesses bosques de pinho
Onde desde o começo do mundo
É sempre treva,
Que quarto limpo e profundo!
Oh! Para uma noite de mudança!
E eu os povôo e neles me vejo,
E é um casal de amantes, num beijo,
Que fora da lei dança.

E eu passo e os deixo,
E torno a me deitar frente ao céu.
A roda gira, sou Ariel,
Ninguém me espera, visitas desleixo,
Sou amigo só dos quartos de hotel.

A lua ascende,
Ó grande sonho de estrada,
Ó estrada sem escopo,
Eis a parada,
Onde a lanterna se acende,
Onde se bebe um copo
De leite, e fustiga o postilhão,
No estrilo dos grilos,
Sob as estrelas de verão.

Ó luar,
Festa de fogos de artifício afogando meu penar,
As sombras dos choupos sobre o caminho...
Ouve-se o borburinho...
Do riacho a cantar...
Do rio Lete a inundar...

Ó Solo de lua,
Desafias minha pluma,
Oh! Esta noite na estrada:
Ó estrelas, vocês dão medo, por nada,
E estão todas aí! todas agora!
Ó fugacidade desta hora...
Oh! Se eu pudesse bem
Proteger a alma até o outono que vem!

Faz frio, muito frio a esta hora,
Oh! se também agora,
Ela vai pelas florestas,
Sua desgraça afogar
Nas festas do luar!...
(Ela gosta tanto de passear a esta hora!)
Deve ter esquecido de se agasalhar,
Vai ficar doente, dada a beleza da hora!
Oh! Cuida-te, senhora!
Oh! Essa tosse não quero mais escutar!

Ah! Por que não caí de joelhos!
Ah! Por que não desmaiaste em meus joelhos!
Eu teria sido um marido modelo!
Como o frufru do teu vestido é o frufru modelo.

Ler poema completo
Biografia

Identificação e contexto básico

Jules Laforgue foi um poeta e crítico literário francês, conhecido principalmente pelo uso do pseudónimo "Sincerus Sciencius". Nasceu no seio de uma família de origem francesa, mas radicada em Montevideu, no Uruguai. A sua nacionalidade era francesa e a sua língua de escrita o francês.

Infância e formação

A sua infância e juventude decorreram em Montevideu, onde recebeu a sua educação primária. Posteriormente, regressou a França para prosseguir os seus estudos, frequentando o Lycée de Saint-Cloud, em Paris. A sua formação foi marcada por uma forte influência da literatura francesa e pela absorção de correntes filosóficas e artísticas da época, incluindo as ideias de Schopenhauer e o movimento simbolista.

Percurso literário

Laforgue iniciou a sua atividade literária precocemente, mas foi em Paris que desenvolveu o seu percurso. Colaborou com diversas publicações, incluindo a "Revue Indépendante". A sua obra evoluiu de uma fase inicial mais influenciada pelo parnasianismo para um estilo mais pessoal e inovador, caracterizado pela ironia e pela exploração do verso livre. A sua produção, embora concisa, deixou uma marca indelével na poesia francesa.

Obra, estilo e características literárias

Obra, estilo e características literárias As suas obras principais incluem "Les Complaintes" (1885), "L'Imitation de Notre-Dame la Lune" (1886) e "Les Moralités Légendaires" (1887). Os temas recorrentes na sua poesia são o amor (muitas vezes abordado de forma irónica e desiludida), a morte, o tempo, a natureza e a condição existencial do homem moderno. Laforgue foi um mestre na utilização do verso livre e da forma fixa, experimentando com métricas e ritmos de forma inovadora. O seu estilo é marcado por uma linguagem coloquial misturada com termos eruditos, uma densidade imagética singular e um uso frequente da metáfora e da ironia. A sua voz poética é frequentemente confessional, mas impregnada de um ceticismo filosófico. Introduziu uma perspetiva inédita sobre a modernidade, dialogando com a tradição literária, mas rompendo com ela através da sua subjetividade e da sua abordagem fragmentada.

Obra, estilo e características literárias

Contexto cultural e histórico Laforgue viveu num período de efervescência cultural em Paris, com o auge do Simbolismo e a emergência de novas correntes artísticas. Ele próprio é considerado uma figura de transição, influenciando o Modernismo. A sua obra reflete o descontentamento e a desilusão da época face à sociedade burguesa e aos valores tradicionais.

Obra, estilo e características literárias

Vida pessoal As suas relações pessoais e amorosas, nomeadamente com a pintora inglesa Aimée Lubin de Courcy, tiveram um impacto na sua obra, muitas vezes refletindo as complexidades e as frustrações do amor. Laforgue não viveu exclusivamente da sua escrita, tendo desempenhado funções administrativas.

Obra, estilo e características literárias

Reconhecimento e receção Em vida, Laforgue teve um reconhecimento limitado. Foi apenas após a sua morte que a sua obra começou a ser mais amplamente divulgada e valorizada, especialmente através da influência que exerceu sobre poetas modernistas anglo-saxónicos como T.S. Eliot. Hoje, é considerado um dos precursores da poesia moderna.

Obra, estilo e características literárias

Influências e legado Laforgue foi influenciado por poetas como Baudelaire e Verlaine, mas também por filósofos como Schopenhauer. O seu legado é notável pela forma como antecipou muitas das preocupações e experimentações da poesia do século XX, influenciando diretamente poetas como Ezra Pound e T.S. Eliot, que reconheceram a sua importância. A sua obra continua a ser estudada pela sua originalidade e pela sua perspetiva única sobre a modernidade.

Obra, estilo e características literárias

Interpretação e análise crítica A obra de Laforgue tem sido interpretada sob diversas óticas, destacando-se a sua abordagem irónica à condição humana, o seu ceticismo perante as grandes narrativas e a sua exploração da fragmentação do eu. A tensão entre o lirismo e a ironia é um ponto central da análise crítica.

Obra, estilo e características literárias

Curiosidades e aspetos menos conhecidos Uma curiosidade sobre Laforgue é a sua ligação ao Uruguai, onde passou grande parte da sua infância e juventude, algo que contrasta com a sua identidade literária profundamente francesa. A sua escrita era marcada por um hábito de reflexão intensa e por uma busca constante por novas formas de expressão poética.

Obra, estilo e características literárias

Morte e memória Jules Laforgue faleceu prematuramente devido a tuberculose. Após a sua morte, a sua obra ganhou maior visibilidade e a sua memória foi perpetuada através do reconhecimento do seu papel fundamental na evolução da poesia moderna.

Poemas

1

Solo de Lua

Fumo, de frente para o céu,
Sobre a imperial da carruagem;
Meu corpo aos solavancos, minh’alma dança
Como um Ariel;
Sem mel, sem fel, minha bela alma dança,
Ó colinas, ó fumaças, ó vales, ó viagem!
Minha bela alma, recapitulemos.

Nós nos amávamos como dois loucos, perdidamente,
Nos separamos sem falar a respeito.
Um spleen me mantinha ausente
E esse spleen me vinha de tudo. Perfeito.

Seus olhos diziam: "Entende?
Por que você não entende?"
Mas ninguém quis dar o primeiro passo,
Querendo demais cair juntos num abraço.
(Entende?)

Onde está ela agora?
Talvez ela chora...
Onde está ela agora?
Ah! Cuide-se ao menos, senhora!

O frescor dos bosques ao longo da avenida,
O xale de melancolia, toda alma está um pouco à espia,
Pois minha vida
É malquerida!
Esta imperial da carruagem tem certa magia.

O irreparável acumulemos!
Nossa sorte desafiemos!
Há mais estrelas do que grãos de areia no mar,
Onde outros viram seu corpo se banhar;
Mas tudo acaba morto.
Não há porto.

Os anos vão passar,
Cada um vai teimar,
E muitas vezes, já posso imaginar,
Vamos dizer: "Se eu tivesse sabido..."
Mas se tivéssemos casado, não teríamos dito:
"Se eu tivesse sabido, se eu tivesse sabido!..."?
Ah! Encontro maldito!
Ah! Meu coração encurralado!...
Tenho-me mal comportado.

Maníacos por felicidade,
Então, que vamos fazer? Eu com a espiritualidade,
Ela com sua falível pouca idade?
Ó pecadora a envelhecer,
Oh! Quantas noites infame vou-me fazer
Para teu prazer!

Seus olhos piscavam: "Entende?
Por que você não entende?"
Mas ninguém deu o primeiro passo
Para cairmos juntos, ah!, num abraço.

A lua se eleva,
Ó estrada de grande sonho!...
Passamos as fiações, a serraria,
Mais que os marcos do caminho,
Nuvenzinhas de um rosa de confeitaria,
Enquanto um fino crescente de lua se eleva,
Ó nenhuma música, ó estrada de sonho...
Nesses bosques de pinho
Onde desde o começo do mundo
É sempre treva,
Que quarto limpo e profundo!
Oh! Para uma noite de mudança!
E eu os povôo e neles me vejo,
E é um casal de amantes, num beijo,
Que fora da lei dança.

E eu passo e os deixo,
E torno a me deitar frente ao céu.
A roda gira, sou Ariel,
Ninguém me espera, visitas desleixo,
Sou amigo só dos quartos de hotel.

A lua ascende,
Ó grande sonho de estrada,
Ó estrada sem escopo,
Eis a parada,
Onde a lanterna se acende,
Onde se bebe um copo
De leite, e fustiga o postilhão,
No estrilo dos grilos,
Sob as estrelas de verão.

Ó luar,
Festa de fogos de artifício afogando meu penar,
As sombras dos choupos sobre o caminho...
Ouve-se o borburinho...
Do riacho a cantar...
Do rio Lete a inundar...

Ó Solo de lua,
Desafias minha pluma,
Oh! Esta noite na estrada:
Ó estrelas, vocês dão medo, por nada,
E estão todas aí! todas agora!
Ó fugacidade desta hora...
Oh! Se eu pudesse bem
Proteger a alma até o outono que vem!

Faz frio, muito frio a esta hora,
Oh! se também agora,
Ela vai pelas florestas,
Sua desgraça afogar
Nas festas do luar!...
(Ela gosta tanto de passear a esta hora!)
Deve ter esquecido de se agasalhar,
Vai ficar doente, dada a beleza da hora!
Oh! Cuida-te, senhora!
Oh! Essa tosse não quero mais escutar!

Ah! Por que não caí de joelhos!
Ah! Por que não desmaiaste em meus joelhos!
Eu teria sido um marido modelo!
Como o frufru do teu vestido é o frufru modelo.

1 483

Videos

50

Comentários (0)

Partilhar
Iniciar sessão para publicar um comentário.

Ainda não há comentários. Sê o primeiro a comentar.