Judith Teixeira

Judith Teixeira

1880–1959 · viveu 79 anos PT PT

Judith Teixeira foi uma figura singular na poesia portuguesa, destacando-se pela sua audácia vanguardista e pela força expressionista da sua obra. Nascida em 1880, foi pioneira na exploração de temas como a modernidade urbana, a psicanálise e a condição feminina, temas pouco abordados na sua época. Com uma linguagem intensa e um estilo por vezes chocante, abordou a complexidade da alma humana, as pulsões e os desejos, num percurso marcado pela inovação e pela tentativa de romper com as convenções literárias estabelecidas, deixando um legado de poesia visceral e visionária.

n. 1880-01-25, Viseu · m. 1959-05-17, Lisboa

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A Minha Amante

Dizem que eu tenho amores contigo!
Deixa-os dizer!…
Eles sabem lá o que há de sublime
Nos meus sonhos de prazer…
De madrugada, logo ao despertar,
Há quem me tenha ouvido gritar
Pelo teu nome…

Dizem - e eu não protesto -
Que seja qual for
o meu aspecto
tu estás
na minha fisionomia
e no meu gesto!

Dizem que eu me embriago toda em cores
Para te esquecer…
E que de noite pelos corredores
Quando vou passando para te ir buscar,
Levo risos de louca, no olhar!

Não entendem dos meus amores contigo -
Não entendem deste luar de beijos…
- Há quem lhe chame a tara perversa,
Dum ser destrambelhado e sensual!
Chamam-te o génio do mal -
O meu castigo…
E eu em sombras alheio-me dispersa…

E ninguém sabe que é de ti que eu vivo…
Que és tu que doiras ainda,
O meu castelo em ruína…
Que fazes da hora má, a hora linda
Dos meus sonhos voluptuosos -
Não faltes aos meus apelos dolorosos
- Adormenta esta dor que me domina!
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Biografia

Identificação e contexto básico

Judith Teixeira, cujo nome completo era Judith de Sousa Teixeira, nasceu a 11 de dezembro de 1880 e faleceu a 11 de novembro de 1959. Não há registos que indiquem a utilização de pseudónimos ou heterónimos. Nasceu em Fafe, Portugal, numa família com alguma estabilidade económica.

Infância e formação

Pouco se sabe sobre a infância e formação de Judith Teixeira, mas a sua obra revela uma forte influência das correntes de pensamento da época, especialmente a psicanálise freudiana, e um contacto com as vanguardas europeias, embora a sua educação formal não seja amplamente documentada.

Percurso literário

O percurso literário de Judith Teixeira é marcado pela publicação da sua obra mais significativa, "Jardim Assombrado", em 1924. Esta obra, considerada precursora do modernismo em Portugal, foi escrita em resposta a um período de grande efervescência intelectual e artística.

Obra, estilo e características literárias

Obra, estilo e características literárias A obra de Judith Teixeira é dominada por "Jardim Assombrado", um livro que se destaca pela sua linguagem crua, expressionista e pela abordagem de temas como a sexualidade, a loucura, a angústia existencial e a vida urbana. Explora a psique humana, as pulsões inconscientes e os aspetos sombrios da existência. O seu estilo é caracterizado pela intensidade imagética, pelo uso de metáforas ousadas e pela quebra das estruturas poéticas tradicionais, aproximando-se do verso livre. A voz poética é frequentemente confessional e carregada de um lirismo sombrio e atormentado. A sua linguagem é densa, por vezes chocante, e utiliza recursos retóricos para evocar sensações fortes. Judith Teixeira introduziu inovações temáticas ao abordar a mulher moderna, a psicanálise e a realidade urbana de uma forma explícita e sem precedentes na poesia portuguesa. A sua obra dialoga com a modernidade e rompe com a tradição, associando-a ao expressionismo e às primeiras manifestações modernistas em Portugal.

Obra, estilo e características literárias

Contexto cultural e histórico Judith Teixeira viveu num período de grandes transformações em Portugal e na Europa, marcado pelo final da Primeira República, a ascensão do Estado Novo e a efervescência das vanguardas artísticas. A sua obra reflete um diálogo com as novas correntes de pensamento, como a psicanálise, e com a atmosfera de renovação artística que se vivia.

Obra, estilo e características literárias

Vida pessoal Detalhes sobre a vida pessoal de Judith Teixeira são escassos. Sabe-se que viveu uma vida dedicada à sua obra, com um profundo interesse pela psicanálise, tema que permeia a sua escrita. As suas relações afetivas e familiares não são amplamente documentadas na esfera pública.

Obra, estilo e características literárias

Reconhecimento e receção "Jardim Assombrado" foi uma obra que causou impacto e alguma controvérsia na época, mas o reconhecimento de Judith Teixeira como uma poeta vanguardista e inovadora consolidou-se sobretudo postumamente. É hoje vista como uma figura pioneira do modernismo português.

Obra, estilo e características literárias

Influências e legado As influências de Judith Teixeira parecem vir das vanguardas europeias e das teorias psicanalíticas. O seu legado reside na sua ousadia temática e estilística, abrindo caminho para a exploração de novas abordagens na poesia portuguesa, especialmente no que toca à dimensão psicológica e à condição feminina.

Obra, estilo e características literárias

Interpretação e análise crítica A obra de Judith Teixeira tem sido interpretada à luz da psicanálise, explorando a sua exploração do inconsciente, dos desejos reprimidos e da fragmentação do eu. A sua poesia levanta questões sobre a identidade, a loucura e a liberdade feminina num contexto patriarcal.

Obra, estilo e características literárias

Curiosidades e aspetos menos conhecidos Um aspeto curioso da sua obra é a forma como antecipou temas que seriam explorados por gerações posteriores de escritores, demonstrando uma notável sensibilidade para as transformações sociais e psicológicas do século XX.

Obra, estilo e características literárias

Morte e memória Judith Teixeira faleceu em 1959. As suas publicações são limitadas à sua obra principal, com edições posteriores a darem continuidade à sua memória e ao estudo da sua obra única.

Poemas

8

A Minha Amante

Dizem que eu tenho amores contigo!
Deixa-os dizer!…
Eles sabem lá o que há de sublime
Nos meus sonhos de prazer…
De madrugada, logo ao despertar,
Há quem me tenha ouvido gritar
Pelo teu nome…

Dizem - e eu não protesto -
Que seja qual for
o meu aspecto
tu estás
na minha fisionomia
e no meu gesto!

Dizem que eu me embriago toda em cores
Para te esquecer…
E que de noite pelos corredores
Quando vou passando para te ir buscar,
Levo risos de louca, no olhar!

Não entendem dos meus amores contigo -
Não entendem deste luar de beijos…
- Há quem lhe chame a tara perversa,
Dum ser destrambelhado e sensual!
Chamam-te o génio do mal -
O meu castigo…
E eu em sombras alheio-me dispersa…

E ninguém sabe que é de ti que eu vivo…
Que és tu que doiras ainda,
O meu castelo em ruína…
Que fazes da hora má, a hora linda
Dos meus sonhos voluptuosos -
Não faltes aos meus apelos dolorosos
- Adormenta esta dor que me domina!
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Flores de Cactus

Flores de cactus resplandecentes,
Espelhantes, encarnadas!
Rubras gargalhadas
De cortesãs…
Embriagam-se de sol,
Pelas doiradas manhãs,
Viçosas e ardentes!

Bela flor imprudente!
Brilha melhor o sol rutilante
Nas suas pétalas vermelhas…
É sugestivo
O ar insolente
E petulante,
Como se deixam morder
Pelas doiradas abelhas!

Nascem para ser beijadas
E possuídas
Pelo sol abrasador…
Lascivas,
Predestinadas
Para os mistérios do amor!

Eu gosto desta flor pagã
E sensual,
Que num místico ritual
Se entrega toda aberta
Aos beijos fulvos do sol!

Oh! Flor do cactus enrubescida!
No teu vermelho, há sangue, há vida…
- E eu tenho uma enorme sede de viver!
3 105

A Estátua

O teu corpo branco e esguio
Prendeu todo o meu sentido…
Sonho que pela noite, altas horas,
Aqueces o mármore frio
Do alvo peito entumecido…

E quantas vezes pela escuridão
A arder na febre de um delírio,
Os olhos roxos como um lírio
Venho espreitar os gestos que eu sonhei…

- Sinto os rumores duma convulsão,
A confessar tudo que eu cismei

Ó Vénus sensual!
Pecado mortal
Do meu pensamento!
Tens nos seios de bicos acerados,
Num tormento,
A singular razão dos meus cuidados
2 679

Ninguém

Embriaguei-me
num doido desejo
E adoeci de saudade.
Caí no vago ... no indeciso
Não me encontro, não me vejo -
Perscruto a imensidade

E fico a tactear na escuridão
Ninguém. Ninguém
Nem eu, tão pouco!

Encontro apenas
o tumultuar dum coração
aprisionado dentro do meu peito
aos saltos como um louco.

1 578

Sinfonia Hibernal

Adoro o Inverno.
Envolvo-me assim mais no teu carinho
Friorenta e louca
Nascem-me na alma os beijos
Que se vão aninhar na tua boca!

Gosto da neve a diluir-se ao sol
Em risos de cristal!
Vem-me turbar a ânsia do teu rogo
E a neve fulgente
Dos meus dentes trémulos
Vai fundir-se na taça ardente,
Rubra e original
Na qual eu bebo os teus beijos em fogo!

Tu adormentas a minha dor na doce sombra dos teus cabelos,
E eu envolvo-me toda nos teus braços
Para dormir e sonhar!
- Lá for a que não deixe de chover,
E o vento que não deixe de clamar!

Deixá-lo gritar!
Que importa o seu clamor,
Se me abrasa o teu olhar
Vivíssimo?!
Ateia, meu amor, o fogo em que me exalto
- Enrola-me mais
Ainda mais no teu afago;
Que esta alegria do nosso amor
Suavíssimo,
Será mais forte e gritará mais alto!
1 591

Adeus

Sim, vou partir.
E não levo saudade
De ninguém
Nem em ti penso agora!
Julgavas que a tristeza desta hora
Fosse maior que a firme vontade
Que eu pus em destruir
O luminoso fio de ternura
Que me prendia ao teu olhar?
Julgaste mal:
Eu sei amar,
Mas meu amor
O que eu não sei
É ser banal!

Mas por que vim eu escrever-te ainda?
Nem eu sei!
Talvez somente
O hábito cortês da despedida
- e o hábito faz lei!

Choro?! Oh, sim , perdidamente!
Mas sabes tu, por que este pranto
Assim amargo e soluçado vem?
É que na hora da partida
Eu nunca pude sem chorar
Dizer adeus a ninguém!
1 752

Liberta

Noutros cenários a minha alma vive!
Outros caminhos..
Por outras luzes iluminada!
- Eu vim daquele mundo onde estive
tanto tempo emparedada…

Andavam de negro
As minhas horas…
A esquecer-me da vida-
Não me encontrava!
Meus sonhos amortalhados
Em crepúsculo,
A noite não os levava!

.............................

Um entardecer triste e doloroso
Enrubesceu o céu!
E o meu olhar ansioso
Fundiu-se no teu !

.............................

E as tuas lindas mãos,
Esguias e nevróticas,
Pintam-me telas rubras
Bizarras e exóticas
De largos horizontes…

.............................

Hoje, ergue-me a ânsia enorme
De outras horas viver!
- Sensualizando a vida,
Descobrindo novas fontes
De dor e de prazer…

- Orgias de estranha cor
de que tu fosses somente
o extraordinário inventor!
1 520

O Palhaço

Anda-se a rir, a rir dentro de mim,
Com as lívidas faces desbotadas
Um estranho palhaço de cetim,
Rasgando em dor meu peito às gargalhadas!
Sobe aos meus olhos sempre a rir assim -
Espreitando as figuras malsinadas
Que não se vestem nunca de arlequim,
Mas andam pela vida disfarçadas.

Na sombra dos meus cílios, emboscado,
Ri, no meu olhar frio e desolado,
Escondendo-se atónito e surpreso

E quando desce à triste moradia,
Vem mais louco e soberbo de ironia
Na irrisão dum sarcástico desprezo!
1 781

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