Lista de Poemas
A Minha Amante
Deixa-os dizer!…
Eles sabem lá o que há de sublime
Nos meus sonhos de prazer…
De madrugada, logo ao despertar,
Há quem me tenha ouvido gritar
Pelo teu nome…
Dizem - e eu não protesto -
Que seja qual for
o meu aspecto
tu estás
na minha fisionomia
e no meu gesto!
Dizem que eu me embriago toda em cores
Para te esquecer…
E que de noite pelos corredores
Quando vou passando para te ir buscar,
Levo risos de louca, no olhar!
Não entendem dos meus amores contigo -
Não entendem deste luar de beijos…
- Há quem lhe chame a tara perversa,
Dum ser destrambelhado e sensual!
Chamam-te o génio do mal -
O meu castigo…
E eu em sombras alheio-me dispersa…
E ninguém sabe que é de ti que eu vivo…
Que és tu que doiras ainda,
O meu castelo em ruína…
Que fazes da hora má, a hora linda
Dos meus sonhos voluptuosos -
Não faltes aos meus apelos dolorosos
- Adormenta esta dor que me domina!
Flores de Cactus
Espelhantes, encarnadas!
Rubras gargalhadas
De cortesãs…
Embriagam-se de sol,
Pelas doiradas manhãs,
Viçosas e ardentes!
Bela flor imprudente!
Brilha melhor o sol rutilante
Nas suas pétalas vermelhas…
É sugestivo
O ar insolente
E petulante,
Como se deixam morder
Pelas doiradas abelhas!
Nascem para ser beijadas
E possuídas
Pelo sol abrasador…
Lascivas,
Predestinadas
Para os mistérios do amor!
Eu gosto desta flor pagã
E sensual,
Que num místico ritual
Se entrega toda aberta
Aos beijos fulvos do sol!
Oh! Flor do cactus enrubescida!
No teu vermelho, há sangue, há vida…
- E eu tenho uma enorme sede de viver!
A Estátua
Prendeu todo o meu sentido…
Sonho que pela noite, altas horas,
Aqueces o mármore frio
Do alvo peito entumecido…
E quantas vezes pela escuridão
A arder na febre de um delírio,
Os olhos roxos como um lírio
Venho espreitar os gestos que eu sonhei…
- Sinto os rumores duma convulsão,
A confessar tudo que eu cismei
Ó Vénus sensual!
Pecado mortal
Do meu pensamento!
Tens nos seios de bicos acerados,
Num tormento,
A singular razão dos meus cuidados
Ninguém
num doido desejo
E adoeci de saudade.
Caí no vago ... no indeciso
Não me encontro, não me vejo -
Perscruto a imensidade
E fico a tactear na escuridão
Ninguém. Ninguém
Nem eu, tão pouco!
Encontro apenas
o tumultuar dum coração
aprisionado dentro do meu peito
aos saltos como um louco.
Sinfonia Hibernal
Envolvo-me assim mais no teu carinho
Friorenta e louca
Nascem-me na alma os beijos
Que se vão aninhar na tua boca!
Gosto da neve a diluir-se ao sol
Em risos de cristal!
Vem-me turbar a ânsia do teu rogo
E a neve fulgente
Dos meus dentes trémulos
Vai fundir-se na taça ardente,
Rubra e original
Na qual eu bebo os teus beijos em fogo!
Tu adormentas a minha dor na doce sombra dos teus cabelos,
E eu envolvo-me toda nos teus braços
Para dormir e sonhar!
- Lá for a que não deixe de chover,
E o vento que não deixe de clamar!
Deixá-lo gritar!
Que importa o seu clamor,
Se me abrasa o teu olhar
Vivíssimo?!
Ateia, meu amor, o fogo em que me exalto
- Enrola-me mais
Ainda mais no teu afago;
Que esta alegria do nosso amor
Suavíssimo,
Será mais forte e gritará mais alto!
O Palhaço
Com as lívidas faces desbotadas
Um estranho palhaço de cetim,
Rasgando em dor meu peito às gargalhadas!
Sobe aos meus olhos sempre a rir assim -
Espreitando as figuras malsinadas
Que não se vestem nunca de arlequim,
Mas andam pela vida disfarçadas.
Na sombra dos meus cílios, emboscado,
Ri, no meu olhar frio e desolado,
Escondendo-se atónito e surpreso
E quando desce à triste moradia,
Vem mais louco e soberbo de ironia
Na irrisão dum sarcástico desprezo!
Adeus
E não levo saudade
De ninguém
Nem em ti penso agora!
Julgavas que a tristeza desta hora
Fosse maior que a firme vontade
Que eu pus em destruir
O luminoso fio de ternura
Que me prendia ao teu olhar?
Julgaste mal:
Eu sei amar,
Mas meu amor
O que eu não sei
É ser banal!
Mas por que vim eu escrever-te ainda?
Nem eu sei!
Talvez somente
O hábito cortês da despedida
- e o hábito faz lei!
Choro?! Oh, sim , perdidamente!
Mas sabes tu, por que este pranto
Assim amargo e soluçado vem?
É que na hora da partida
Eu nunca pude sem chorar
Dizer adeus a ninguém!
Liberta
Outros caminhos..
Por outras luzes iluminada!
- Eu vim daquele mundo onde estive
tanto tempo emparedada…
Andavam de negro
As minhas horas…
A esquecer-me da vida-
Não me encontrava!
Meus sonhos amortalhados
Em crepúsculo,
A noite não os levava!
.............................
Um entardecer triste e doloroso
Enrubesceu o céu!
E o meu olhar ansioso
Fundiu-se no teu !
.............................
E as tuas lindas mãos,
Esguias e nevróticas,
Pintam-me telas rubras
Bizarras e exóticas
De largos horizontes…
.............................
Hoje, ergue-me a ânsia enorme
De outras horas viver!
- Sensualizando a vida,
Descobrindo novas fontes
De dor e de prazer…
- Orgias de estranha cor
de que tu fosses somente
o extraordinário inventor!
Comentários (3)
A foto é de Gilka Machado
A foto é de Gilka Machado
A foto é de Gilka Machado
Saudade | Poema de Judith Teixeira com narração de Mundo Dos Poemas
Aulas de Poesia Mundial · Judith Teixeira por Fernando Cabral Martins
Podes Ter Os Amores Que Quiseres | Poema de Judith Teixeira com narração de Mundo Dos Poemas
Adeus | Poema de Judith Teixeira com narração de Mundo Dos Poemas
Mais Beijos | Poema de Judith Teixeira com narração de Mundo Dos Poemas
Sinfonia Hibernal | Poema de Judith Teixeira com narração de Mundo Dos Poemas
Judith Teixeira-Volupia
Judith Teixeira - "Volúpia"
Judith Teixeira
Aula sobre Judith Teixeira
Judith Teixeira. 1880-1959.
Apresentação da obra vencedora do Prémio de Poesia Judith Teixeira
VI CILG - Mesa 11 - Safismo e modernismo: 100 anos de Judith Teixeira
Homenagem a Judith Teixeira, Poetisa do Modernismo Português. Bolero de Ravel
Poema 'Rosas Vermelhas', de Judith Teixeira
#onossopoemário «Poente» de Judith Teixeira
Judith Teixeira - Ninguém - Leitor da noite
Homenagem a Judith Teixeira (1880 - 1959)
Mais beijos (Poema), de Judith Teixeira
Samantha Pious reads Judith Teixeira's "As the Sun dies"
"Pescados do Mar" poemas "O osso da água" Prémio Judith Teixeira | Bem-Vindos RTP África | T01 E07
Isabel Hagos Diz Judith Teixeira, Adeus
Cultura em Páginas - 20 de Junho - Judith Teixeira
Homenagem a Judith Teixeira em Viseu
Leitura do poema “Ausência”, de Judith Teixeira
Homenagem a Judith Teixeira - Intervenção de Aurora Simões de Matos
Promocional - O Amor é sempre inocente
Que tem medo de Judith Butler? - Jacqueline Moraes Teixeira
La descontrolable...
Lançamento - O Amor é sempre inocente
Este poema não é meu / This poem is not mine - Mais beijos / More kisses - Judith Teixeira
"O Muro Onde a Sombra Persiste", de Luís Aguiar
Cláudia Pazos Alonso
Defesa de Mestrado - Nadia Luciene Ziroldo
Judith Butler e a Teoria Queer
Trakinuz - Judite (Short Film II)
Pessoa Desaparecida
June 14, 2023
[Aula 02] Introdução a Judith Butler - A vida psíquica do poder: teorias da sujeição
Webinar Performatividade de Gênero e Sujeito de Poder em Judith Butler - Jacqueline Teixeira
Victor K. Mendes
julio de 0 a 6 mois
Judith Butler - Seu comportamento cria seu gênero (legendado)
[Aula 06 - Parte 02/02] Problemas de Gênero / Judith Butler (Curso de Extensão FFLCH-USP)
[Aula 06 - Parte 01/02] Problemas de Gênero / Judith Butler (Curso de Extensão FFLCH-USP)
Defendant collapses in court after guilty verdict
Um Vinho da Herdade Barranco do Vale, um prato e um poema
Judith Butler no Brasil | Caminhos divergentes [legendado]
Poeta | Poema de Teixeira de Pascoaes com narração de Mundo Dos Poemas
Catherine Dumas
Português
English
Español