José Maria da Costa e Silva

José Maria da Costa e Silva

1788–1854 · viveu 65 anos PT PT

José Maria da Costa e Silva foi uma figura multifacetada, com uma obra que abrangeu a poesia, a crítica literária e o ensaísmo. A sua poesia é frequentemente associada a um lirismo profundo e a uma reflexão sobre a identidade, a memória e a relação do indivíduo com o tempo. O seu percurso intelectual foi marcado por um agudo senso crítico e por uma busca constante pela expressão da alma humana nas suas mais diversas facetas.

n. 1788-08-15, Lisboa · m. 1854-04-25, Lisboa

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A Corila

Vês, Corila, aquela rosa
Emulando a cor da aurora
Quando, Febo a porta abrindo,
Leda sai do Ganges fora? ...

Que maior valor tivera,
Quão mais grata fora à gente,
Se natura não a armasse
De um espinho tão pungente ...

Sua púrpura esmaltando
De seu folhame o verdor,
E nos ares difundindo
Seu aroma encantador,

Convidaram-te a colhê-la,
Mas teu dedo alabastrino
Rasgado com dor penosa
Verteu veio purpurino:

Eis, Corila, o teu retrato,
Pois se és rosa na beleza,
Tens também de rosa espinhos
Nos desdéns e na fereza.

Ah! Muda esse gênio esquivo,
Que requinta a formosura
Exalar de quando em quando
Um suspiro de ternura.

À formosa, em cujos olhos
Não arde o fogo do amor,
Eu prefiro a muda estátua,
Que formou destro escultor.

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Biografia

Identificação e contexto básico

José Maria da Costa e Silva foi um poeta, crítico literário e ensaísta português. Nasceu em Coimbra em 1809 e faleceu na mesma cidade em 1864. Era filho de uma família abastada, o que lhe permitiu ter acesso a uma educação privilegiada e dedicar-se às letras. A sua nacionalidade era portuguesa e a sua língua de escrita o português. Viveu num período de grandes transformações em Portugal, marcado pelas guerras liberais e por um contexto de afirmação nacional.

Infância e formação

Frequentou os seus estudos em Coimbra, onde se licenciou em Direito. Desde cedo demonstrou um grande interesse pelas artes e pelas letras, frequentando círculos literários e culturais da cidade. Foi influenciado pela literatura clássica e romântica, absorvendo os ideais estéticos e filosóficos da época.

Percurso literário

O seu percurso literário começou com a publicação de poesia, mas rapidamente se destacou como um dos mais importantes críticos literários da sua geração. Foi fundador e diretor de importantes publicações, como a "Revista Universal" e a "Revista Contemporânea". Através destas publicações, divulgou e analisou a obra de muitos escritores, tanto portugueses como estrangeiros, desempenhando um papel crucial na formação do gosto literário da época.

Obra, estilo e características literárias

Obra, estilo e características literárias A obra poética de Costa e Silva é marcada por um lirismo terno e melancólico, explorando temas como o amor, a saudade, a natureza e a efemeridade da vida. O seu estilo é elegante e cuidado, com uma musicalidade notável nos seus versos. Como crítico, demonstrou um profundo conhecimento da literatura, aliando a erudição a uma sensibilidade apurada para a análise das obras. Defendeu um certo conservadorismo estético, valorizando a forma e a clareza expressiva.

Obra, estilo e características literárias

Contexto cultural e histórico José Maria da Costa e Silva viveu durante o Romantismo em Portugal, um período de efervescência cultural e política. Foi um dos protagonistas do debate literário da época, intervindo ativamente na vida cultural do país. A sua posição crítica, muitas vezes conservadora em termos estéticos, colocou-o em diálogo e, por vezes, em tensão com as correntes mais inovadoras do Romantismo.

Obra, estilo e características literárias

Vida pessoal Casou-se com D. Maria Benedita de Mendonça e Faro, com quem teve filhos. A sua vida foi dedicada às letras, embora tenha exercido funções públicas. Manteve relações de amizade com muitos dos grandes vultos da literatura portuguesa da sua época.

Obra, estilo e características literárias

Reconhecimento e receção Em vida, José Maria da Costa e Silva gozou de grande prestígio nos meios literários e académicos. Foi reconhecido pela sua inteligência, pela sua erudição e pela qualidade da sua escrita. Após a sua morte, a sua figura foi sendo gradualmente esquecida em favor de autores com propostas estéticas mais radicais, embora a sua importância como crítico e como poeta lírico tenha sido sempre reconhecida por especialistas.

Obra, estilo e características literárias

Influências e legado Foi influenciado pela poesia clássica e pelos românticos franceses. O seu legado reside, sobretudo, na sua obra crítica, que contribuiu significativamente para a compreensão e divulgação da literatura portuguesa. A sua poesia, embora menos celebrada que a de outros românticos, mantém um valor pela sua expressividade e delicadeza.

Obra, estilo e características literárias

Interpretação e análise crítica A obra de Costa e Silva tem sido objeto de estudo por parte de críticos literários, que analisam a sua poesia sob a ótica do Romantismo e a sua crítica como um reflexo das tendências estéticas do século XIX. As suas posições críticas, por vezes vistas como conservadoras, são também um ponto de debate sobre a evolução do gosto literário.

Obra, estilo e características literárias

Curiosidades e aspetos menos conhecidos Era conhecido pela sua elegância e pelo seu bom gosto, características que se refletiam na sua escrita e no seu modo de vida. A sua casa em Coimbra era um centro de tertúlias literárias.

Obra, estilo e características literárias

Morte e memória Faleceu em 1864, vítima de doença. As suas obras continuaram a circular, mas a sua memória foi gradualmente eclipsada por outras figuras literárias. Estudos mais recentes têm vindo a resgatar a sua figura e a sua importância para a história da literatura portuguesa.

Poemas

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A Corila

Vês, Corila, aquela rosa
Emulando a cor da aurora
Quando, Febo a porta abrindo,
Leda sai do Ganges fora? ...

Que maior valor tivera,
Quão mais grata fora à gente,
Se natura não a armasse
De um espinho tão pungente ...

Sua púrpura esmaltando
De seu folhame o verdor,
E nos ares difundindo
Seu aroma encantador,

Convidaram-te a colhê-la,
Mas teu dedo alabastrino
Rasgado com dor penosa
Verteu veio purpurino:

Eis, Corila, o teu retrato,
Pois se és rosa na beleza,
Tens também de rosa espinhos
Nos desdéns e na fereza.

Ah! Muda esse gênio esquivo,
Que requinta a formosura
Exalar de quando em quando
Um suspiro de ternura.

À formosa, em cujos olhos
Não arde o fogo do amor,
Eu prefiro a muda estátua,
Que formou destro escultor.

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Soneto

A morte da ilustríssima senhora D. Maria
Constância Lima Barbosa

Aquele coração, em que eu reinava,
O rosto, em que meus olhos se reviam,
Os lábios, que a voz doce desprendiam,
Que de minha alma os seios penetrava:

O peito, que a meu peito eu apertava,
Os braços, que amorosos me cingiam,
Mil graças, prendas mil, que revestiam
O encantador objeto, que adorava.

Tudo ao sepulcro foi com Márcia, aquela
Que eu tanto celebrei na ebúrnea lira,
Na estação juvenil, jucunda, e bela.

Márcia! Márcia cedeu da morte à ira?...
Oh! como poderá viver sem ela,
O amante, que por ela em vão suspira?

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