Escritas

Lista de Poemas

Exegese

De que é feito esse amor?, perguntam-me e não sei...
Da matéria da noite mais impávida,
onde as estrelas inscrevem uma lei ...

Da estrada longa e da cegueira ávida
com que quiseste povoar de amor os ermos...
Longe, os cães das quintas ladravam-te com raiva

(Vejo o teu gesto, um franciscano aceno,
vejo a minha mão crispar-se, dolorida,
vejo unir-nos num abraço o desespero... )

Das trevas, do linho negro em que tecemos
a manta na noite dos pobres estendida...
(Senhora, acamaradando-se dói menos. . . )

Das mãos dadas, pelo sono dos casais, pela Vida,
pela emboscada — onde caíste de cansaço
e me rasgaram a rubra e funda ferida

donde manam — o baço tempo, o alaranjado lume
e a inexorável frialdade de aço
que um anjo tetular em si reúne.

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Sonho

A sua presença de mulher foi-se ausentando...
A um gesto seu, diáfano, alou-se o sofrimento...
Tudo era sua voz, mas sem significar
mais que o murmúrio dum encantamento...

Prendia-nos um fio de segredo, murmurado
pelos seus olhos baixados, antes dum sorriso,
com que a meus olhos as coisas se velaram
para lá do seu rosto assim preciso...

Pudor na sua alma ou nos meus dedos?

Como é indizível essa experiência de morrer!

O que me resta é regressar à Vida,
amá-la, delicadamente, como os mortos
— se os mortos pudessem reviver.

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Testamento, entre os pinheiros e o mar

Se eu morrer primeiro do que tu,
salva a ternura que salvei.
Depois, se te doer, firma o olhar
nas ondas mais longínquas do mar largo,
destrói a dor nas lágrimas, e o vento
que te esvoace a saia e o cabelo,
pinheiro firme, cego dos sentidos,
entre as flores silvestres e a espuma...

E o indício de tudo ter passado
(eu, um tempo feliz que se recorda)
é sentires o longo, íntimo afago
do marulho do mar, mão pelos cabelos...

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