Escritas

Lista de Poemas

Canção de Anquises

Não reflete o bronze polido
a imagem dos passados anos:
a fronte sem marca de cãs,
sem rugas, braços vigorosos,
luz no olhar, aprumado dorso,
o viço na pele rosada,
pernas firmes. Oh, juventude!
Um dia, no passado esplêndido,
subi ao leito de Afrodite.
Agora, vejo a decadente
massa deformada insinuar,
na comissura de meus lábios
pensos, a pena iniludível,
que aguarda a todo ser humano.
Ao pé das muralhas de Tróia
devastada, deponho a lança
inútil, que vibrou outrora.

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A um Poeta

para Frederico Barbosa
Agudo pensamento, coração preclaro,
o poeta
cata um grão esconso
no labirinto nada.
O poeta
a palavra vela
e o signo rala
na linha vasa:
muda geometria.
Eis, súbito, um projétil,
que não falha,
a língua tesa prepara.
O poeta,
zarabatana calada,
no silêncio do rigor,
raro artefato dispara.

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Aquiles

A minha morte escolho nesta hora,
ao pé do corpo frio que jaz inerte.
No campo de batalha, junto a Tróia,
não mais verei, entrando nessa tenda,
sentado no divã, tocando a lira,
o amigo que foi morto em meu lugar.
Tristes despojos, Pátroclo divino,
regressas sem a vida e sem o escudo,
teu cadáver saqueado à tenda torna,
pilhado da armadura que envergaste.
Heitor, que te deu fim, e agora empunha
as armas que brandiste bravamente,
ufano está do feito vitorioso.
Pois regozije enquanto a Moira escura
no gume de meu gládio não provar.
Bem sei que morrerei dessa vingança,
assim me foi predito pelos deuses;
mas nada vale a vida sem a cólera,
que me dará na morte eterna glória.

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A Machado de Assis

Menino, no caminho da escola primária,
teu nome eu soletrava na placa de rua,
sem saber mais que o som daquelas letras nuas
entre os ramos dourados de cachos de acácias.

Quem foste, velho bruxo? Ao desnudar falácias,
expor que a vida é um vício e um vaso de imposturas,
os livros, que escreveste na idade madura,
mostraram a alma humana, e como ela é precária.

Bentinho, Capitu, Cristiano, Sofia,
Quincas Borba, Brás Cubas, Simão Bacamarte,
Dona Carmo, Virgília, Paulo, Pedro, Flora,

e tantas personagens que não digo agora,
criaste, entre o riso irônico e a melancolia,
como acácias eternas no jardim das artes.

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Murilo Mendes ad Oraculum

Serei pastor de meus dias?
O que a alma e as cordas do cor?
Suaves sirenas sopram serenas
a manhã abismal ou delicada?
A voz do piano no caos,
firmamento,
movimento,
equilíbrio do azul rendilhado,
sussurra que segredo ao vento,
sol, lua, marés...?

............................................

Todo mortal lamento
não passa de escuma:
miragem de um susto, apenas.

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Lição de Elementos

Para faca, água;
para murro, terra;
para fera, fogo;
para vida, ar.

Em você se acanhe o medo,
em você se mostre a raça
de água, terra, fogo e ar.

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Epifania

Ninfa da manhã, matinal magia,
miragem na bruma plúmbea.
À margem do trêfego tráfego,
que trepida estremunhado,
esvoaças distraída na calçada,
como um langoroso sonho.
..........................................
Solavancos no meu coração.

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De Inventione

1
Fico parado, quieto.
Se espero, nada vem,
Ou vem (pior!) postiço,
Fala falsa do que não há,
Palavras ocas, palavrório.
Nenhuma poesia pousa
Na página atulhada de signos.
E não há sintaxe que anime,
Prosódia melíflua que encante,
Ou truque de imagem que esconda
A só carcaça de versos.
O poema impostor não se impõe, perece.

2
Fico parado, quieto.
Se nada espero, nada vem,
Ou vem (bem!) sem querer,
Não se pode evitar;
Palavras aladas assumem controle
E semeiam a folha muda de signos,
Que dançam e cantam e rompem
A espessa caligem das coisas.
É quando a poesia pousa
Numa flor inútil
E nela deposita, como borboleta,
O pólen que a fertiliza.

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