Escritas

Lista de Poemas

Passaram

Passaram como infâncias... águas... tais
como os aviões, avoantes, folhas secas,
manhãs de flores, tardes de pardais
e as falsificações de eternidades.

Que levaram, enfim? Toda essa gente
quis carregar alguma coisa, é certo:
planta que desce um galho sobre a rua
perde uma folha pra quem passa perto.

Passaram. Padres que não leram Bíblias,
Picassos que perderam seus pincéis,
astrônomos que olhavam para o chão.

Estiveram na escola, eram doutores.
E fica, indecifrada, a alma dos dias,
cartas de Deus que poucos sabem ler.

De O Povoamento da Solidão (1991)

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Desperdício

Como as espigas,
as lições também apodrecem
no esquecimento das colheitas.

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Presságios

Como foi bela e sábia a vida que tivemos!
Lições em tudo... em tudo... em tudo... até nas brigas
havia água e semente e terra e sol e espigas,
pra nossa fome de entender tudo o que vemos

neste mundo de Deus. As coisas mais antigas
vividas por nós dois mostravam que os extremos
são somas, em nós dois, dos anseios supremos
de socorrer quem tomba ao peso das fadigas.

Era nosso o destino altíssimo de ver,
era nossa a ambição do topo das montanhas,
sabíamos o dia antes de alvorecer...

A tanta luz chegaste, a tanta fé subi,
chegamos a ser bons e a perfeições tamanhas,
que ainda estou a pensar que nunca te perdi...

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A Vida

A vida não dá presentes.
Podemos até:
colher duas estrelas para reacender
os olhos de Jorge Luís Borges;
denunciar a Deus que os povos ricos
riscaram do dicionário
as moedas dos povos pobres;
revitalizar a esperança no milenarismo,
onde os utopistas de tantos séculos
marcam encontros
para falar mal da natureza humana;
entregar Fernando Pessoa à Polícia,
para protegê-lo dos assaltantes de idiossincrasias;
fundar pátrias, com bandeiras
e hinos de arrepios cívicos.

A vida não dá presentes.
Podemos até:
governar o Brasil com a Constituição-Artigo-Único
de Capistrano de Abreu;
pintar de saúde
os meninos doentes do Nordeste;
escutar as glórias das velhas prostitutas
do Cais de Santos;
entrar na guerra e salvar dos arranha-céus
as mangueiras de Fortaleza;
vestir a sotaina dos jesuítas
e aldear as lagostas no fundo do mar,
contra os Bandeirantes do Capitalismo aqui-e-agora;
retroagir a Máquina do Tempo
e refazer o mundo
sem a semeadura de pavores
que assustou o nosso Pedro Nava;
levar o Pontífice Paulo II ao Congresso Brasileiro
para testemunhar que os índios não são bichos.

Mas a vida não dará presentes.
A plenitude humana
é trabalho de mineração,
com galerias cavadas no Infinito.

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Louvação a André Breton

(A Mentira das Aparências Sensoriais)

A flor, o mar, o rosto de meu filho,
pão na mesa, o retrato de meu pai,
o circo, a vaca a olhar o pé de milho,
o azul da serra, a névoa que se esvai;

a igreja, o sino, o padre, o mapa, o trilho
sob a pedra que finge, mas não cai;
a pupila estrangeira do andarilho,
a carta sem razão que já não vai;

Judas, a queima, a Festa de Aleluia,
meus banhos de menino, a grota, a cuia,
bênçãos brancas da preta Juliana...

Nada disso, em verdade, eu vi no mundo?
Faltou-me a luz e aquele olhar profundo,
mais forte que a ilusão da raça humana?

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