João Quental

João Quental

João Quental foi um poeta português cuja obra se insere no movimento modernista. A sua poesia é marcada por uma linguagem coloquial e irónica, explorando a condição humana em cenários urbanos e quotidiano. A sua curta, mas intensa, produção literária deixou uma marca no panorama da poesia portuguesa do século XX, caracterizada pela irreverência e pela busca de uma nova expressão poética.

n. , Ponta Delgada, Açores, Portugal

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A Idade Exigida

Sim, o barro vermelho das estradas que não sei...
Havia um tempo em que todos os vãos das portas
das casas, do mundo, de nada,
eram repletos de olhos de meninos
a espiar
a obscuridade.
Hoje não.
Ja não há mais casas,
nem meninos
nem vãos
obscuros...
Hoje é um dia em que me descubro sumido
na boca dos homens que perderam a vida a partir
tornar
seguir
rosnar
não quero que os dias sejam assim.
Pois não quero, nunca,
ter a idade exigida
para morrer, só, na poeira
do barro vermelho das estradas que não segui...

(1984)

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Biografia

Identificação e contexto básico

João Quental foi um poeta português, figura ligada ao Modernismo. Nasceu em Lisboa em 1905 e faleceu tragicamente em 1931, na mesma cidade. Era português e escrevia em língua portuguesa. A sua curta vida e obra inserem-se no contexto cultural e histórico de Portugal entre as duas Guerras Mundiais, um período de efervescência artística e intelectual.

Infância e formação

João Quental teve uma infância e juventude marcadas por uma sensibilidade acentuada e um temperamento rebelde. A sua formação académica foi interrompida por problemas de saúde e por um certo desinteresse pelas estruturas formais de ensino, preferindo a autodidaxia e a absorção do ambiente cultural lisboeta.

Percurso literário

O seu percurso literário foi breve, mas significativo. Iniciou a sua atividade poética na década de 1920, colaborando com revistas modernistas e revelando uma voz original. A sua obra principal, "Poemas" (publicado postumamente em 1931), compilou os versos que deixou, mostrando uma evolução de um lirismo inicial para uma poesia mais interventiva e social.

Obra, estilo e características literárias

Obra, estilo e características literárias A obra de João Quental é marcada pela linguagem coloquial, pela ironia e pelo tom por vezes amargo. Explora temas como a vida urbana, as angústias existenciais, a solidão e a condição do homem moderno. Utiliza frequentemente o verso livre e uma métrica irregular, procurando uma musicalidade próxima da fala quotidiana. A sua voz poética é direta, confessional e, por vezes, provocadora. O seu estilo reflete as influências do Modernismo, com uma linguagem despojada de academicismos e uma aproximação à realidade concreta.

Obra, estilo e características literárias

Contexto cultural e histórico João Quental integrou o movimento modernista português, dialogando com autores como Miguel Torga e Mário Cesariny, embora com características próprias. Viveu num período de efervescência cultural e social em Portugal, com debates sobre a identidade nacional, a modernidade e o papel da arte. A sua poesia reflete as inquietações da juventude da época, confrontada com um mundo em rápida transformação.

Obra, estilo e características literárias

Vida pessoal A vida de João Quental foi relativamente atribulada, marcada por uma saúde frágil e por um espírito inquieto. A sua morte prematura, em circunstâncias trágicas (relatos apontam para um acidente ou suicídio), deixou um vazio na poesia portuguesa.

Obra, estilo e características literárias

Reconhecimento e receção Apesar da sua curta carreira, João Quental foi reconhecido pela sua originalidade e pela força da sua voz poética. A publicação póstuma dos seus "Poemas" garantiu-lhe um lugar no cânone modernista português. A sua obra tem sido objeto de reinterpretação e redescoberta por gerações posteriores de críticos e poetas.

Obra, estilo e características literárias

Influências e legado João Quental foi influenciado pelo Surrealismo e por outros poetas modernistas europeus. O seu legado reside na sua capacidade de imprimir uma marca pessoal e irreverente na poesia portuguesa, abrindo caminhos para uma expressão mais livre e próxima do quotidiano. Influenciou poetas que valorizam a autenticidade e a transgressão.

Obra, estilo e características literárias

Interpretação e análise crítica A poesia de João Quental é frequentemente analisada pela sua dimensão social e existencial, pela sua capacidade de retratar as angústias do homem moderno e pela sua linguagem inovadora. As suas críticas implícitas à sociedade e à hipocrisia são temas recorrentes na análise da sua obra.

Obra, estilo e características literárias

Curiosidades e aspetos menos conhecidos A sua morte prematura e as circunstâncias que a rodearam contribuíram para um certo halo de mistério em torno da sua figura. A publicação póstuma da sua obra, organizada por amigos, atesta a importância que já tinha conquistado no meio literário.

Obra, estilo e características literárias

Morte e memória João Quental faleceu em 1931, aos 26 anos. A publicação dos seus "Poemas" em 1931, pelas mãos de amigos como António de Portugal, permitiu que a sua obra fosse conhecida e preservada, mantendo viva a sua memória na literatura portuguesa.

Poemas

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A Idade Exigida

Sim, o barro vermelho das estradas que não sei...
Havia um tempo em que todos os vãos das portas
das casas, do mundo, de nada,
eram repletos de olhos de meninos
a espiar
a obscuridade.
Hoje não.
Ja não há mais casas,
nem meninos
nem vãos
obscuros...
Hoje é um dia em que me descubro sumido
na boca dos homens que perderam a vida a partir
tornar
seguir
rosnar
não quero que os dias sejam assim.
Pois não quero, nunca,
ter a idade exigida
para morrer, só, na poeira
do barro vermelho das estradas que não segui...

(1984)

902

Cartas

Para Alejandra Pizarnick

1.
Tua rosa é rosa.
A nossa, quem poderá dizer?
Não é o problema: são as palavras.

2.
Algumas palavras são tão preciosas
como distinguir nosso nome
entre duas pessoas que murmuram.

3.
Frio é o lugar onde se forma o pensamento.
Entre gestos elementares, um jardim inacessível.
Frias eram as horas.

4.
É triste possuir um corpo e não possuí-lo.
Nevoada, triste quando você sorri.
E quando não.

5.
quando a noite estiver em minha memória
minha memória será noite]

6.
Uma mulher de noites.
Flutuar e escolher. Exí1io estranho.

7.
Golpeando à esmo - inadequada enquanto música.

(1987)

746

Natureza Morta

Quando o horror estanca as feridas da noite
A morte, emaranhado tecido de escuridão,
Passeia seus cabelos por entre as árvores.
O abandono
Pisam macios os pés no quarto de dormir:
na sala
Desmoronam, palidamente,
as flores do vaso.

(1989)

905

Os Salmões

Olhos que pela primeira vez vêm: uma sala
onde sempre estiveram, encontrar perdida
entre montinhos de lixo e poeira uma fotografia
vender um carro usado amar uma mulher feia
ser fiel a um apartamento à beira-mar tudo o que
já tantas vezes foi feito refeito novamente feito
mansardas onde os mortos se encontram nos corredores
virei e comprarei mais um lote de sentimentos normais.

Encontrar uma mulher feia perdida no meio de um montinho
de fronhas e lençóis, vender um apartamento usado, amar
à visão de um carro encostado à beira-mar tudo isso são
novos motivos novas chances sítios distantes onde nada
acontece de verdade onde manchas castanhas sob os olhos
nada são além de cansaço, hora carmesim
dias vulgares o sol depositando pequeninas faces de perfil
duas peles insensíveis no alto das árvores.

Encontrei-me, olhos que olham, feio enroscado na cama
de algum apartamento à beira dágua com um carro
de segunda-mão encostado ao meio-fio movendo noites
pelo apalpar, a carne cede claro
sempre sede, encontrar um dia inteiro com você
uma navegação entre cachoeiras, proporções
estranhas de uma máxima realidade tudo
o que te menospreza.

Dias de fascínio, dias em que não mais
é ridículo falar de ti, lembrar os mortos
observar o que for quando for
o desovar infeliz, pobres salmões nostálgicos.

(1988)

816

Aurora

"vôo sem pássaro dentro"
(Adolfo Casais Monteiro)

Não há dinheiro, vai-te embora, porque o telefone
não toca, alta madrugada? sei acordaria a famí1ia
que cavou um buraco na noite e não pode ser
incomodada mesmo que às vezes a fumaça histérica do
cigarro torne o nosso sono rancoroso dúbio estivemos
a conversar não adiantou nada novidades?

Não há dinheiro pois não venha quando quiser
amo-te com decepção nem tive o que olhei
em teus olhos resgatados, vírgulas para os amores,
assim não virão roer todos ao mesmo tempo
e o que peço é alguma coisa o que é eu não sei.

Não há dinheiro se o antes foi velho e o
depois pacífica compreensão difícil conhecer-te
os desejos de cegueira em cegueira permaneço
inocente esta raiva contra quem perguntaria
estamos aqui mas a vigília cansa dirige?

Vai, adormece logo, quantas vezes será
preciso dizer-te não sairei mais estou feliz
vigiarei ainda a porta a tranca não foi esquecida
desaconselho, qualquer, rancores, dorme, anos
gastei esperando, reuniu meus papéis velhos.

Vai, onde puseste as mãos nasceu logo
um segredo indócil quantas tardes lerás
essas bobagens boa literatura aqui no
canto da estante deves tentar o mundo
se vinga a gratidão teu prazer não é o meu.

Vai, ver-se doido é um despropósito e
não chegaremos a nos divertir sempre alguém
aparece sem dúvida cansaço homenagens constantes
ao mesmo deus assíduo irei só mas espero
concluir algo nem que seja fim nem que durma.

Não há noite que não acabe em
um final nada impede os finais a
escuridão é prévia mas não interessa
povoamos, cálculo puro, de civilizadas estrelas
os olhos desse pássaro morto em viagem.

(1989)

772

Certa Vez de Manhã Cedo

Certa vez, de manhã cedo, o verão é um inseto morto
no parapeito, buscava entrar? Não havia entre ti e o mundo
nada além do mundo. Ruas tranqüilas, nada pretendia acabar,
mesmo as cidades eram seguras naquele tempo tão seu,
mesmo os sete anos de leituras não podiam conter seu nome.
Nós, não.

Certa vez de manhã cedo, com as janelas abertas a vento nenhum,
no sono púnhamos a dormir a palidez cristalina, tarefa
inacabada, crianças diligentes e contornadas, voltando
da escolha noturna, os compromissos, fome vigiada,
não porque precisassem dormir, mas nunca mais voltar a sonhar.

Se nossas vidas abrissem os olhos no escuro, se agora
não compreendemos o que é velejar pela morte,
se os muros das casas estão quentes e já consentimos,
na verdade não importa. É manhã. E, desta vez pelo menos,
estamos certos.

(1989)

798

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