João Lobeira

João Lobeira

1233–1285 · viveu 52 anos PT PT

João Lobeira foi um trovador e poeta galego-português, ativo na segunda metade do século XIII e início do século XIV. Destacou-se na poesia lírica galego-portuguesa, particularmente nas cantigas de amigo, onde explorou temas de amor e saudade com grande sensibilidade. A sua obra insere-se no contexto da lírica trovadoresca medieval, sendo um representante importante desta tradição na Península Ibérica. Apesar de menos prolífico que alguns contemporâneos, Lobeira deixou um legado significativo na poesia medieval galaico-portuguesa.

n. 1233 · m. 1285, Madrid

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- Venh'eu a Vós, Mia Senhor, Por Saber

- Venh'eu a vós, mia senhor, por saber
do que bem serve e nom falec'em rem
a sa senhor e lh'a senhor faz bem,
qual deles deve mais [a] gradecer.
- Amigo, mais dev'o bem a valer;
       ca, se o bem dad'é por o servir,
       o servidor deve mais a gracir.

- Quem bem serve, senhor, sofre gram mal
e grande afã e mil coitas sem par,
onde devia bom grado a levar,
se mesura da sa senhor nom fal.
- Amigo, mais é o bem e mais val;
       ca, se o bem dad'é por o servir,
       o servidor deve mais a gracir.
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Biografia

Identificação e contexto básico

João Lobeira é um nome associado a um trovador galego-português, cuja atividade poética se situa entre a segunda metade do século XIII e o início do século XIV. A sua obra é escassa mas relevante no panorama da lírica medieval galaico-portuguesa.

Infância e formação

Pouco se sabe sobre a infância e formação de João Lobeira. A sua origem social e o ambiente em que cresceu não são detalhadamente documentados, mas a sua produção literária indica uma familiaridade com os códigos da nobreza e da cultura cortês da época. A sua educação terá sido a típica de um membro da nobreza medieval, com acesso à leitura e à escrita, essenciais para a prática da lírica trovadoresca.

Percurso literário

O percurso literário de João Lobeira está intrinsecamente ligado à prática da cantiga, gênero poético dominante na lírica galego-portuguesa medieval. É conhecido principalmente por uma cantiga de amigo, "Perdida me sodes vós e eu também", que é um exemplo paradigmático do gênero. A sua obra, embora reduzida a poucas composições, demonstra mestria na exploração dos temas e formas características.

Obra, estilo e características literárias

Obra, estilo e características literárias A obra mais conhecida de João Lobeira é a cantiga de amigo "Perdida me sodes vós e eu também". Esta cantiga é célebre pela sua expressividade lírica e pela representação da voz feminina a lamentar uma separação ou perda. O tema central é a saudade e a angústia amorosa, expressos numa linguagem que combina a simplicidade aparente com uma profunda carga emocional. O estilo de Lobeira na sua cantiga de amigo caracteriza-se pela utilização de paralelismos e refrães, elementos típicos do gênero. A voz poética é a de uma donzela que expressa os seus sentimentos de forma pungente. A métrica é a tradicional das cantigas, com versos de contagem silábica variável e rima.

Obra, estilo e características literárias

Contexto cultural e histórico João Lobeira viveu num período de grande efervescência cultural na Península Ibérica, marcado pela ascensão e consolidação dos reinos cristãos e pela produção da lírica trovadoresca em língua galego-portuguesa. Este movimento cultural uniu a nobreza de Portugal, Galiza e Leão em torno de uma produção poética comum que influenciou a literatura posterior.

Obra, estilo e características literárias

Vida pessoal As informações sobre a vida pessoal de João Lobeira são escassas. Sabe-se que era um nobre e que provavelmente participou na vida cortês da época. Não há registos detalhados sobre a sua família, relações afetivas ou profissão para além da atividade trovadoresca.

Obra, estilo e características literárias

Reconhecimento e receção Embora a sua obra seja limitada em quantidade, João Lobeira obteve reconhecimento pela qualidade da sua cantiga de amigo. "Perdida me sodes vós e eu também" tornou-se um dos exemplos mais estudados e citados da poesia lírica galego-portuguesa medieval, atestando a sua importância na tradição.

Obra, estilo e características literárias

Influências e legado João Lobeira insere-se na vasta tradição da poesia lírica galego-portuguesa, influenciada pela poesia provençal e pela música popular. O seu legado reside na contribuição para o desenvolvimento e a sofisticação da cantiga de amigo, um dos pilares desta tradição literária. A sua obra serviu de modelo e inspiração para outros trovadores e para o estudo posterior da lírica medieval.

Obra, estilo e características literárias

Interpretação e análise crítica A cantiga de Lobeira tem sido objeto de análise crítica sob diversas perspetivas, incluindo a sua dimensão lírica, a representação da psicologia feminina e a sua inserção nos códigos da cavalaria e do amor cortês. A sua aparente simplicidade esconde uma complexidade emocional que continua a fascinar.

Obra, estilo e características literárias

Curiosidades e aspetos menos conhecidos Apesar da sua relevância literária, João Lobeira permanece uma figura envolta em mistério. A escassez de dados biográficos alimenta a sua aura de figura literária do passado, cuja obra transcende a individualidade do autor.

Obra, estilo e características literárias

Morte e memória Não há informações detalhadas sobre as circunstâncias da morte de João Lobeira. A sua memória perpetua-se através da sua única cantiga de amigo amplamente conhecida, que continua a ser estudada e admirada em antologias e estudos sobre a literatura medieval galaico-portuguesa.

Poemas

8

Amigos, Eu Nom Posso Bem Haver

Amigos, eu nom posso bem haver,
nem mal, se mi nom vem de mia senhor;
e pois m'ela faz mal e desamor,
bem vos posso com verdade dizer:
       que a mim aveo em guisa tal
       que vi todo meu bem por gram meu mal.

Ca vi ela, de que m'assi avém,
que já nom posso, assi Deus mi perdom!,
d'al haver bem, nem mal, se dela nom;
e pois end'hei mal, posso dizer bem
       que a mim aveo em guisa tal
       que vi todo meu bem por gram meu mal.

Pois bem nem mal nom m'é senom o seu,
e que mi o bem falec'e o mal hei,
e pois meu tempo tod'assi passei,
com gram verdade posso dizer eu
       que a mim aveo em guisa tal
       que vi todo meu bem por gram meu mal.
642

Muitos Que Mi Oem Loar Mia Senhor

Muitos que mi oem loar mia senhor
e falar no seu bem e no seu prez
dizem eles que algum bem me fez;
e dig'eu: o bem do mundo melhor
       me fez e faz, assi Deus me perdom,
       desejar, mais em outra guisa nom.

Fal'eu da sa bondad'e do seu sem,
e dizem-m'eles, quand'esto dig'eu,
que bem mi fez, porque sõo tam seu;
e dig'eu: o bem sobre todo bem
       me fez e faz, assi Deus me perdom,
        desejar, mais em outra guisa nom.
587

Senhor Genta

Senhor genta,
mi tormenta
voss'amor em guisa tal,
que tormenta
que eu senta
outra nom m'é bem nem mal
- mais la vossa m'é mortal!
       Leonoreta,
       fin roseta,
       bela sobre toda fror,
       fin roseta,
       nom me meta
       em tal coi[ta] voss'amor!

Das que vejo
nom desejo
outra senhor se vós nom,
e desejo
tam sobejo
mataria um leom
- senhor do meu coraçom!
       Leonoreta,
       fin roseta,
       bela sobre toda fror,
       fin roseta,
       nom me meta
       em tal coi[ta] voss'amor!

Mia ventura
em loucura
me meteu de vos amar:
é loucura
que me dura,
que me nom posso en quitar
- ai fremosura sem par!
       Leonoreta,
       fin roseta,
       bela sobre toda fror,
       fin roseta,
       nom me meta
       em tal coi[ta] voss'amor!
592

Nom Pode Deus, Pero Pod'em Poder

Nom pode Deus, pero pod'em poder,
poder El tanto, pero poder há:
já [d']ũa dona nom me tolherá
bem, pero pode quanto quer poder;
[e] sei eu d'El ũa rem, a la fé:
que, pero El pod’, enquanto Deus é,
seu bem que perça nom pod'El poder.

E pero é sobre todos maior
senhor em poder de quantos eu sei,
nom pod'El poder, segund'apres'hei,
pero é Deus sobre todos maior,
que me faça perder prol nem gram bem
daquesta dona, que m'em poder tem,
pero pod'El em poder mui maior.

E pero Deus é o que pod'e val,
e pode sempre nas cousa[s] que som,
e pode poder em tod'a sazom,
nom pod'El tanto, pero pod'e val,
que me faça perder, esto sei eu,
da mia senhor bem, pois me nunca deu
poder em tanto, pero tanto val.
656

Se Soubess'ora Mia Senhor

Se soubess'ora mia senhor
que muit'a mi praz d'eu morrer
ante ca sa ira temer,
(que houv' e que sempre temi
mais ca morte, des que a vi)
pesar-lh'-ia mais doutra rem
d'eu morrer, pois a mi praz en.

Esto entend'eu do seu amor,
ca, des que a vi, vi-lh'haver
sempre pesar do meu prazer
e sempre sanha contra mi;
e por esto entend'eu assi:
que da morte, que m'ora vem,
pesar-lh'-á, porque é meu bem.

Desto sõo já sabedor;
e ar prazer-mi-á de saber:
des que eu mort'[assi] prender,
que[m] lhi sofrerá des ali
tantas coitas com'eu sofri?
Eu creo que lhi falrá quem,
pero m'ela tev'em desdém,

des que a vi; e se pavor
eu nom houvesse de viver
(o que Deus nom leixe seer),
diria quanto mal prendi
dela, por bem que a servi,
e de como errou o sem
contra mi; mais nom mi convém.
521

- Venh'eu a Vós, Mia Senhor, Por Saber

- Venh'eu a vós, mia senhor, por saber
do que bem serve e nom falec'em rem
a sa senhor e lh'a senhor faz bem,
qual deles deve mais [a] gradecer.
- Amigo, mais dev'o bem a valer;
       ca, se o bem dad'é por o servir,
       o servidor deve mais a gracir.

- Quem bem serve, senhor, sofre gram mal
e grande afã e mil coitas sem par,
onde devia bom grado a levar,
se mesura da sa senhor nom fal.
- Amigo, mais é o bem e mais val;
       ca, se o bem dad'é por o servir,
       o servidor deve mais a gracir.
492

Um Cavaleiro Há 'Qui Tal Entendença

Um cavaleiro há 'qui tal entendença
qual vos eu agora quero contar:
faz, u dev'a fazer prazer, pesar,
e sa mesura toda é entença;
e o que lhi preguntam, respond'al;
e o seu bem fazer é fazer mal,
e todo seu saber é sem sabença.

E nom depart'em rem, de que se vença,
pero lh'outro [a]guisado falar;
e verveja, u se dev'a calar,
e nunca diz verdad', u mais nom mença;
e, u lhi pedem cousimento, fal;
pero é mans', u dev'a fazer al
e, u deve sofrer, é sem sofrença.

Des i er fala sempr'em conhocença
que sabe bem sem-conhocer mostrar;
e dorme, quando se dev'espertar,
e meos sab', u mete mais femença;
e, se com guisa diz, logo s'en sal;
e, u lh'avém algũa cousa tal
que lh'é mester cienç', é sem ciença.

E nom lhi fazem mal, de que se sença,
ante leix'assi o preito passar,
e os que lhi deviam a peitar,
peita-lhis el, por fazer aveença,
e diz que nẽum prez nada nom val;
mais Deus, que o fez tam descomunal,
lhi queira dar, por saúde, doença.
591

Senhor gentil

Senhor gentil,
mi tormenta
voss'amor em maneira tal,
que tormenta
que eu senta
outra nom m'é bem nem mal
- mais la vossa m'é mortal!
       Leonoreta,
       fin roseta,
       bela sobre toda fror,
       fin roseta,
       nom me meta
       em tal mágoa voss'amor!
Das que vejo
nom desejo
outra senhor se vós nom,
e desejo
tam sobejo
mataria um leom
- senhor do meu coraçom!
       Leonoreta,
       fin roseta,
       bela sobre toda fror,
       fin roseta,
       nom me meta
       em tal coi[ta] voss'amor!
Mia ventura
em loucura
me meteu de vos amar:
é loucura
que me dura,
que me nom posso en quitar
- ai fremosura sem par!
       Leonoreta,
        fin roseta,
       bela sobre toda fror,
       fin roseta,
        nom me meta
        em tal coi[ta] voss'amor!
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