latindoamérica
cães vadios, perros locos
uivando para os neons
(suas luas esfiambradas)
latindoamérica atrás do trem
da história,
marcas de solas nos rabos
e de fraquezas no peito.
há lobos em peles de cordeiro
tosquiados
mal-amados e perdidos
torturados uns, outros ridículos
incinerados
vinte anos perdidos por
banguelas sorridentes
(este é um país que vai...)
Goulart Gomes, Salvador, BA
dia
encher d’água os pratos
e descobrir o óbulo
(há baratas!)
lavar a latrina e arrumar
almofadas no sofá
- costume dos antigos -
dor, rotina
videos, games
eletrônicos
barbitúricos coloridos
oligofônicos
tempos idos de filosofia
é noite é dia é noite
de manhã chovia
Goulart Gomes, Salvador, BA
calvário
manhãzinha cedo
o sol suspenso a baixo
homens num jogo-de-pedras
disputando o seu sudário
mastigados pelas folhas
e socados pelos pés;
arremedos de salário
diabolôs sem barbante
cedo ainda cedo ainda tarde
Goulart Gomes, Salvador, BA
algaravia
o que se sabe de mim
é que roubo palavras ao vento
roubo horas ao tempo
e imagens à película:
sou um ladrão de cutículas
redentor de movimentos
coleciono momentos
em pequeninas partículas;
assalto estórias perdidas
e o que não sei, invento —
quixote e moinhos de vento
habitam-me alternados
caminheiro de atalhos
ignoro as desditas
e é o que basta dizer:
que componho versos sem métrica
e desconheço estilos
falo do que não entendo
e calo o que não consinto
aborreço o meu dia
e alimento a gaveta
de papéis escrevinhados
de outra tanta algaravia
que nos despe de encantos
e reclama melodia
noutro tempo, outro canto
e outro tanto se cria
ao falar velhas palavras
tédio... é meio-dia
quando os ponteiros se encontram
e príncipes desencantam
de coaxos já cansados
por beijos de lindas donzelas
... mas isto é já outro caso
(também de amor, mas sonhado)
que não nos compete falar.
tédio... é meia-noite
e lobisomens se encantam
de uivos agoniados
por pragas e maldições;
e a lua vai se deitar
em leitos de outros ladrões
Goulart Gomes, Salvador, BA
blas fêmea
Há uma vastidão de desejos
entre os teus seios...
...que ira maior poderia haver
que o varrer dos meus dentes
no teu ventre?
E me deixar
sumir em teus abismos
Nem os braços abertos de um cristo
tanto fariam.
Iludiriam mesmo a alma
do mais crente dos homens
(não são para mim, demasiado humano)
mortal demais,
insano
indigno dos teus lençóis
Goulart Gomes, Salvador, BA
O Autor
João GOULART de Souza GOMES (01/05/65), nascido em Salvador, Bahia, é bacharel em Administração de Empresas, industriário, lida com comunicação empresarial. Presidente e fundador do Grupo Cultural Pórtico, tem promovido a publicação de inúmeros títulos de novos autores.
Como poeta, publicou os livros ANDA LUZ, TODO DESEJO, SOB A PELE e FRACTAIS, além de ter participado de dezenove antologias literárias, sendo quatro internacionais (EUA, Itália, Coréia do Sul e Espanha). Possui dezenove prêmios literários.
Lança, em março, A GREVE GERAL, peça teatral e MAIS FRACTAIS, hai-kais em diskete (Power Point). Os trabalhos apresentados abaixo fazem parte do seu novo livro de poesias CRIAÇÃO, ainda INÉDITO!
batalha final
se amanhã me condenarem à morte
ou se o halley beijar sofregamente a terra
quero ver por último o brilho dos teus olhos
quando a praia vier dar no meu quintal
e todo magma exsudar na minha sala
vou inalar profundamente os teus cabelos
quando toda lava do vesúvio e
todo suspiro dos vendavais
assomarem à minha rua
será no teu colo que estarei deitado
(des)esperando o último momento
ainda que todo o sal dos oceanos
e toda terra das montanhas
aterrissem no meu teto
só teus lábios soterrarão meu corpo
os tanques cinzas do tio sam estacionarão no abaeté
e ferirão o farol com seus punhais
mas eu estarei deitado
acima, abaixo, sob, sobre, ao lado
em você, de qualquer jeito
quando todos se forem, míssil indetonado
e quando os patriots e exocets desfizerem minhas nuvens
não haverá dia seguinte:
estarei no túmulo dos teus braços
explodindo em milhões de átomos, desintegrando:
o último soldado desconhecido...
Goulart Gomes, Salvador, BA
a insustentável leveza do amor
Que ninguém saiba:
falo dos teus olhos
Terras castanhas, precipício de almas;
Que ninguém veja:
falo do teu riso
Oceano de ritmos, vertigem e calma.
Que ninguém ouça:
falo da tua voz
Perdição de Ulisses em alto mar;
Que ninguém toque:
falo das tuas mãos
Recriar do mundo, elementar.
Que ninguém sinta:
falo da tua boca
Pura seda, roçar de borboletas;
Que ninguém aspire:
falo do teu cheiro
Inspiração eterna de poetas.
Que ninguém ouse:
falo do teu corpo
Porção visível do infinito;
Que ninguém duvide:
falo do que sinto
Amor assim não houve, mais bonito.
Que ninguém entenda:
o amor é um hiato
Entre o vivido e o sonhado;
Que ninguém tema:
o amor é imponderável
Fluido, muito além do leve ou do pesado.
Goulart Gomes, Salvador, BA
semi-ótica
esteiras de linho
tenho cruzado adagas
e cegado meus caminhos
o vento toca seu alaúde
estão trancados nossos sonhos
bem guardados no escuro
vermelhidão de mar
mortovivo, plasma de segredos
e os medos nossos
não sei bem se posso seguir
estes desígnios ou
minguar à fome
destes signos.
Goulart Gomes, Salvador, BA