Escritas

Lista de Poemas

Não Voltarei a Ser Jovem

Que é certo a vida passa
só se começa a compreender mais tarde
— como todos os jovens, decidi
levar a minha vida por diante.
Deixar marca eu queria
e partir entre aplausos
— envelhecer, morrer, eram somente
as dimensões do teatro.
Porém, passou o tempo
e a verdade mais amarga assoma:
envelhecer, morrer,
é o argumento único da obra.
(dePoemas Póstumos)
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Valsa do Aniversário

Não há nada tão doce como um quarto
para dois, quando já não nos queremos demasiado,
nos arredores da cidade, num hotel calmo,
e casais duvidosos e uma criança com gânglios,
se não é esta leve sensação
de irrealidade. Algo como o estio
em casa de meus pais, há algum tempo,
como viagens nocturnas de comboio. Chamo-te
para dizer que não te digo nada
que já não saibas, ou talvez
para beijar-te vagamente
mesmo nos lábios.
Saíste da varanda.
O quarto escureceu
enquanto nos olhamos, contrafeitos
por não sentirmos o peso de três anos.
Tudo é igual, parece
que não foi ontem. E este sabor nostálgico,
que os silêncios nos põem na boca,
possivelmente leva-nos ao equívoco
de nossos sentimentos. Mas não
sem alguma reserva, pois sob isto
algo mais forte vence e é (para dizê-lo
talvez de um modo menos impreciso)
difícil recordar que nos queremos,
se não for com certa imprecisão, e o sábado,
que é hoje, fica tão próximo
de ontem ao fim do dia e de depois
de amanhã
pela manhã...
(de Companheiros de Viagem)
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Contra Jaime Gil de Biedma

Que adianta, gostaria de saber, mudar de casa,
deixar para trás uma cave mais negra
que a minha fama – e já é dizer muito –,
por cortinas brancas
e arranjar criada,
renunciar à vida de boémio,
se vens tu depois, calaceiro,
embaraçoso hóspede, pateta vestido com meus fatos,
zangão de colmeia, inútil, néscio,
com tuas mãos lavadas,
sujar-me a casa e comer no meu prato?

Acompanham-te os balcões dos bares
derradeiros da noite, os chulos, as floristas,
as ruas mortas da alvorada
e os ascensores de luz amarelenta
quando, bêbado, chegas
e páras a olhar no espelho
a cara destruída,
com olhos ainda violentos
que não queres fechar. E se te increpo,
ris-te, recordas-me o passado
e dizes que envelheço.

Poderia lembrar-te que já não tens graça.
Que teu estilo casual, teu desenfado
chegam a ser truculentos
quando se tem mais de trinta anos,
e o teu encantador
sorriso de jovem sonolento
– certo de agradar – é um resto pungente,
um propósito patético.
Enquanto me fitas com teus olhos
de verdadeiro órfão, e choras
e me prometes que não o fazes mais.

Se não fosses tão puta!
E se eu não soubesse, há algum tempo,
que és forte quando sou débil
e que és débil quando me enfureço...
De teus regressos guardo uma impressão confusa
de pânico, pena e descontentamento,
e o desespero
e a impaciência e o ressentimento
de voltar a sofrer, outra vez mais,
a humilhação imperdoável
da excessiva intimidade.

Com muito custo, levar-te-ei pra cama,
como quem vai ao inferno
para dormir contigo.
Morrendo a cada passo de impotência,
tropeçando nos móveis,
às cegas, atravessamos o andar
torpemente abraçados, vacilando
de álcool e soluços reprimidos.
Oh ignóbil servidão de amar seres humanos,
e a mais ignóbil
que é amar-se a si próprio!

(de Poemas Póstumos)

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Voltar

Minha lembrança eram imagens,
no instante, de ti:
essa expressão e um matiz
dos olhos, um pouco suave

na inflexão de tua voz,
e teus bocejos furtivos
de lebréu que dormiu mal
toda a noite em meu quarto.

Voltar, passados os anos,
rumo à felicidade
— para ver-se e recordar
que estou também mudado.

(de Moralidades)

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Peeping Tom

Olhos de solitário, rapazinho atônito
que surpreendi a olhar-nos
naquele pinhalzinho, junto à Faculdade de Letras,
há mais de onze anos,

quando ia a separar-me,
ainda aturdido de saliva e areia,
depois de nos rebolarmos os dois meio vestidos,
felizes como bichos.

Tua lembrança, é curioso
com que dissimulada intensidade de símbolo,
está unida àquela história,
minha primeira experiência de amor correspondido.

Pergunto-me por vezes que é feito de ti.
E se agora em tuas noites junto a um corpo
regressa a velha cena
e ainda espreitas nossos beijos.

Assim do passado volta a mim,
como um grito desconexo,
a imagem de teus olhos. Expressão
do meu próprio desejo.

(de Moralidades)

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Pelo Visto

Pelo visto é possível manifestar-se homem.
Pelo visto é possível dizer não.
De uma vez e na rua, de uma vez, por todos
e por todas as vezes em que não podemos.

Importa pelo visto o facto de estar vivo.
Importa pelo visto que até a injusta força
precise, admita nossas vidas, esses mínimos actos
cada dia na rua realizados por todos.

E será preciso não esquecer a lição:
saber, a cada instante, que no gesto que fazemos
há uma arma escondida, saber que estamos vivos
ainda. E que a vida
é possível ainda, pelo visto.

(de Companheiros de Viagem)

*

Pandémica e Celeste

quam magnus numerus Libyssae harenae
aut quam sidera multa, cum tacet nox,
furtivos hominum vident amores
Catulo, VII

Imagina agora que tu e eu
muito tarde na noite
vamos falar de homem para homem, finalmente.
Imagina-o,
numa dessas noites memoráveis
de rara comunhão, com a garrafa
meio vazia, os cinzeiros sujos,
e depois de esgotado o tema da vida.
Que te vou mostrar um coração,
um coração infiel,
nu da cintura para baixo,
leitor hipócrita – mon semblable, – mon frère!

Porque não é a impaciência do buscador de orgasmos
que me atira do corpo para outros corpos
jovens, se for possível:
procuro também o doce amor,
o terno amor que adormeça a meu lado
e alegre a minha cama ao acordar,
próximo como um pássaro.
Se jamais posso despir-me,
se nunca pude penetrar nuns braços
sem sentir – ainda que só por um momento –
igual deslumbramento que aos vinte anos!

Para saber de amor, para aprendê-lo,
ter estado sozinho é necessário.
E é necessário em quatrocentas noites
– com quatrocentos corpos diferentes –
ter feito amor. Que seus mistérios,
como disse o poeta, são da alma,
mas um corpo é o livro onde se lêem.

E por isso me alegro de me ter rebolado
sobre a areia espessa, os dois meio vestidos,
enquanto buscava esse tendão do ombro.
Comove-me a lembrança de tantas ocasiões...
Aquela estrada de montanha
e os bem empregados abraços furtivos
e o instante indefeso, de pé, após a travagem,
colados contra o muro, ofuscados pelas luzes.
Ou aquele entardecer perto do rio,
nus e a rir-nos, coroados de hera.
Ou aquele portal em Roma – em via del Babuino.
E lembranças de caras e cidades
quase desconhecidas, de corpos entrevistos,
de escadas sem luz, de camarotes,
de bares, de passagens desertas, de prostíbulos,
e de infinitas barracas de praia,
de fossos de um castelo.
Lembranças vossas, sobretudo,
oh noites em hotéis de uma só noite,
definitivas noites em sórdidas pensões,
em quartos recém-frios,
noites que devolveis a vossos hóspedes
um esquecido sabor a si próprios!
A história em corpo e alma, como uma imagem destruída,
de la langueur goutée à ce mal d’être deux.
Sem desprezar
– alegres como um feriado a meio da semana –
as experiências da promiscuidade.

Embora saiba que nada me valeriam
trabalhos de amor disperso
se não houvesse o verdadeiro amor.
Meu amor,
imagem total da minha vida,
sol das próprias noites que lhe roubo.

Sua juventude, a minha,
– música de meu fundo –
sorri ainda na imprecisa graça
de cada corpo jovem,
em cada encontro anônimo,
iluminando-o. Dando-lhe uma alma.
E não há coxas formosas
que não me façam pensar em suas formosas coxas
quando nos conhecemos, antes de irmos para a cama.

Nem paixão de uma noite de dormida
que possa comparar-se
com a paixão que dá o conhecimento,
os anos de experiência
do nosso amor.
Porque em amor também
é importante o tempo,
e doce, de algum modo,
verificar com mão melancólica
sua perceptível passagem por um corpo
– enquanto basta uma expressão familiar
nos lábios,
ou a ligeira palpitação de um membro,
para me fazer sentir a maravilha
daquela graça antiga,
fugaz como um reflexo.

Sobre sua pele esvaída,
quando passem mais anos e estejamos no fim,
quero esmagar os lábios invocando
a imagem do seu corpo
e de todos os corpos que alguma vez amei
ainda que um só instante, desfeitos pelo tempo.
Para pedir a força de poder viver
sem beleza, sem força e sem desejo,
enquanto continuamos juntos
até morrer em paz, os dois,
como dizem que morrem os que amaram muito.

(de Moralidades)

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