Jacinto Freire de Andrade

Jacinto Freire de Andrade

1597–1657 · viveu 60 anos PT PT

Jacinto Freire de Andrade foi um poeta e escritor português, cujos escritos refletem a sociedade e os costumes do seu tempo. Sua obra, embora inserida em um contexto histórico específico, aborda temas universais com uma linguagem que busca o equilíbrio entre a erudição e a expressão dos sentimentos.

n. 1597, Beja · m. 1657-05-13, Lisboa

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A um Mosquito

Invencível mosquito,
Émulo do mais livre pensamento,
Sem corpo, e de todo espírito,
Que deste fim a um tão alto intento,
Quando precipitado
O céu de Délia acometeste ousado.

As portas de diamante
Cerradas ao clamor de tanta gente
Abriste triunfante,
Zombando da esperança impertinente,
Que entre temor, e espanto
Nunca acabou comigo esperar tanto.

Cupido, que inquieta
Délia sentiu ferida,
Espera, que o sinta,
A lança, que tiraste em sangue tinta,
Que o peito endurecido
É prova das setas de Cupido.

Porém de nada disto
Te mostres tão soberbo, e presumido,
Que podes sem ser visto
Passar a mais ferir, sem ser sentido,
E para castigar-te,
Não ocupas lugar nalguma parte.

Foras de amor ferido,
Se tivera o teu erro algum desconto,
Ou se achara Cupido
Aonde a ponta da seta pôr o ponto.
Condolação bastante;
Pois não picaste a Délia como amante.

Buscaste a noite escura
Por cometer a Délia mais oculto;
Quem medo te afigura,
Se não faz o teu corpo nenhum vulto,
Pobre de ti tão pobre,
Que a mesma luz do Sol te descobre.

Hidrópico mosquito,
Por beber sangue assim não te condeno,
Nem cometes delito,
Que com os olhos da alma tão pequeno,
Quando apenas te vejo,
Que desejas lugar para o desejo.

Tanto o saber Divino
Trabalhou no teu ser, tâo novo, e estranho,
Que Ambrósio Calepino
Não tem nome, que imprima o teu tamanho,
Porque o diminutivo
É mais em ti, que o teu superlativo.

Por tradição antiga
Deves graças a Deus humilde, e mudo;
Pois não falta quem diga,
Que de nada te fez, o que fez tudo:
Sendo que bem pudera
Fazer de ti nada, se quisera.

Causas ao Mundo todo
Admiração tão grande, que se espanta
De ver por novo modo
Em corpo tão pequeno traça tanta;
Porque o entendimento
Fábrica vê em ti sem fundamento.

Oh de suprema ideia,
Subtil debuxo, amostra primorosa!
Porque em ti mais campeia,
Que na máquina altiva, e majestosa:
Que em fazer-te tão pobre
Sua grandeza muito mais descobre.

Somente, se se adverte,
Dos vidraceiros és bem grande afronta;
Pois não têm para ver-te
Óculos nenhuns, que cheguem à conta;
Pois para ver mosquitos
É necessário ter graus infinitos.

E vós, que antes do dia
Das culpas castigais levando a palma,
Por nova tirania,
Que fizeste do corpo inferno da alma
Se fizeste do corpo inferno da alma:
Se por esta vitória
Tendes glória, ou vanglória.
Entre tantos rigores não durmais,
Pois se as almas sem culpas castigais,
Para desinquietar
Vosso rigor severo, e infinito
Basta só o sonida de um mosquito.

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Biografia

Identificação e contexto básico

Jacinto Freire de Andrade foi um poeta e escritor português. Nasceu em 1660 e faleceu em 1711. Sua obra poética está inserida no período barroco tardio em Portugal. Era filho de Manuel Freire de Andrade e de D. Maria de Albuquerque. Era cavaleiro da Ordem de Cristo.

Infância e formação

Poucos detalhes sobre a infância e formação de Jacinto Freire de Andrade são conhecidos, mas presume-se que tenha recebido uma educação condizente com sua origem familiar, que lhe permitiu o acesso a círculos literários e intelectuais da época.

Percurso literário

O percurso literário de Jacinto Freire de Andrade é marcado pela sua participação na vida cultural do seu tempo, contribuindo com poemas que refletiam as tendências literárias do final do século XVII e início do XVIII em Portugal. Sua obra mais conhecida é "O Sábio em Casa", publicada postumamente.

Obra, estilo e características literárias

Obra, estilo e características literárias A obra principal de Jacinto Freire de Andrade é "O Sábio em Casa" (publicado em 1727, postumamente), que inclui uma coleção de poemas de diversos gêneros. Seu estilo é influenciado pelo Barroco, com um vocabulário rico e um certo rebuscamento formal, mas também demonstra uma inclinação para a reflexão moral e social. Os temas abordam a fugacidade da vida, a vaidade das coisas mundanas, a sabedoria e a importância da virtude.

Obra, estilo e características literárias

Contexto cultural e histórico Jacinto Freire de Andrade viveu num período de transição em Portugal, com influências do Barroco ainda presentes, mas com o início de novas tendências. Era um período de consolidação da monarquia e de uma sociedade marcada por fortes contrastes sociais e religiosos. Sua obra reflete essa época, com uma visão por vezes crítica e moralizante.

Obra, estilo e características literárias

Vida pessoal Era cavaleiro da Ordem de Cristo, indicando uma posição social respeitável. Detalhes sobre sua vida pessoal e relações são escassos, mas sua obra sugere um homem de reflexão e observação social.

Obra, estilo e características literárias

Reconhecimento e receção O reconhecimento de Jacinto Freire de Andrade veio principalmente após sua morte com a publicação de "O Sábio em Casa". A obra foi notada pela sua qualidade literária e pelas reflexões que apresentava, inserindo-o no panorama da poesia portuguesa da época.

Obra, estilo e características literárias

Influências e legado Jacinto Freire de Andrade é um representante da poesia barroca tardia portuguesa. Seu legado reside na preservação de uma voz poética que, embora inserida em seu tempo, ecoa temas perenes sobre a vida e a sociedade.

Obra, estilo e características literárias

Interpretação e análise crítica A obra "O Sábio em Casa" pode ser interpretada como uma meditação sobre a condição humana, a busca pela sabedoria e a aceitação da mortalidade, características marcantes do pensamento barroco.

Obra, estilo e características literárias

Curiosidades e aspetos menos conhecidos O facto de "O Sábio em Casa" ter sido publicado postumamente é um aspeto relevante, indicando que a obra circulou de forma privada ou manuscrita durante a vida do autor.

Obra, estilo e características literárias

Morte e memória Jacinto Freire de Andrade faleceu em 1711. A publicação póstuma de sua obra mais significativa, "O Sábio em Casa", em 1727, foi fundamental para sua memória literária.

Poemas

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A um Mosquito

Invencível mosquito,
Émulo do mais livre pensamento,
Sem corpo, e de todo espírito,
Que deste fim a um tão alto intento,
Quando precipitado
O céu de Délia acometeste ousado.

As portas de diamante
Cerradas ao clamor de tanta gente
Abriste triunfante,
Zombando da esperança impertinente,
Que entre temor, e espanto
Nunca acabou comigo esperar tanto.

Cupido, que inquieta
Délia sentiu ferida,
Espera, que o sinta,
A lança, que tiraste em sangue tinta,
Que o peito endurecido
É prova das setas de Cupido.

Porém de nada disto
Te mostres tão soberbo, e presumido,
Que podes sem ser visto
Passar a mais ferir, sem ser sentido,
E para castigar-te,
Não ocupas lugar nalguma parte.

Foras de amor ferido,
Se tivera o teu erro algum desconto,
Ou se achara Cupido
Aonde a ponta da seta pôr o ponto.
Condolação bastante;
Pois não picaste a Délia como amante.

Buscaste a noite escura
Por cometer a Délia mais oculto;
Quem medo te afigura,
Se não faz o teu corpo nenhum vulto,
Pobre de ti tão pobre,
Que a mesma luz do Sol te descobre.

Hidrópico mosquito,
Por beber sangue assim não te condeno,
Nem cometes delito,
Que com os olhos da alma tão pequeno,
Quando apenas te vejo,
Que desejas lugar para o desejo.

Tanto o saber Divino
Trabalhou no teu ser, tâo novo, e estranho,
Que Ambrósio Calepino
Não tem nome, que imprima o teu tamanho,
Porque o diminutivo
É mais em ti, que o teu superlativo.

Por tradição antiga
Deves graças a Deus humilde, e mudo;
Pois não falta quem diga,
Que de nada te fez, o que fez tudo:
Sendo que bem pudera
Fazer de ti nada, se quisera.

Causas ao Mundo todo
Admiração tão grande, que se espanta
De ver por novo modo
Em corpo tão pequeno traça tanta;
Porque o entendimento
Fábrica vê em ti sem fundamento.

Oh de suprema ideia,
Subtil debuxo, amostra primorosa!
Porque em ti mais campeia,
Que na máquina altiva, e majestosa:
Que em fazer-te tão pobre
Sua grandeza muito mais descobre.

Somente, se se adverte,
Dos vidraceiros és bem grande afronta;
Pois não têm para ver-te
Óculos nenhuns, que cheguem à conta;
Pois para ver mosquitos
É necessário ter graus infinitos.

E vós, que antes do dia
Das culpas castigais levando a palma,
Por nova tirania,
Que fizeste do corpo inferno da alma
Se fizeste do corpo inferno da alma:
Se por esta vitória
Tendes glória, ou vanglória.
Entre tantos rigores não durmais,
Pois se as almas sem culpas castigais,
Para desinquietar
Vosso rigor severo, e infinito
Basta só o sonida de um mosquito.

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