Irene Lisboa

Irene Lisboa

1892–1958 · viveu 65 anos PT PT

Irene Lisboa foi uma escritora, pedagoga e tradutora portuguesa, notável pela sua obra que se distingue pela sua modernidade, pela exploração da linguagem e pela abordagem de temas existenciais e sociais. A sua escrita, muitas vezes marcada por uma prosa densa e poética, reflete uma profunda sensibilidade e um olhar crítico sobre a sociedade e a condição humana. Como pedagoga, dedicou-se à educação, deixando um legado importante na área da didática e da formação de professores.

n. 1892-12-25, Arruda dos Vinhos · m. 1958-11-25, Lisboa

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Afrodite

Formosa.
Esses peitos pequenos, cheios.
Esse ventre, o seu redondo espraiado!
O vinco da cinta, o gracioso umbigo, o escorrido
das ancas, o púbis discreto ligeiramente alteado,
as coxas esbeltas, um joelho único suave e agudo,
o coto de um braço, o tronco robusto, a linha
cariciosa do ombro...
Afrodite, não chorei quando te descobri?
Aquele museu plácido, tantas memórias da Grécia
e de Roma!
Tantas figuras graves, de gestos nobres e de
frontes tranquilas, abstractas...
Mas aquela sala vasta, cheia, não era uma necró-
pole.
Era uma assembleia de amáveis espíritos, divaga-
dores, ente si trocando serenas, eternas e nunca
desprezadas razões formais.

Afrodite, Afrodite, tão humana e sem tempo...
O descanso desse teu gesto!
A perna que encobre a outra, que aperta o corpo.
A doce oferta desse pomo tentador: peito e ventre.
E um fumo, uma impressão tão subtil e tão pro-
vocante de pudor, de volúpia, de reserva, de
abandono...
Já passaram sobre ti dois mil anos?

Estranha obra de um homem!
Que doçura espalhas e que grandeza...
És o equilíbrio e a harmonia e não és senão corpo.
Não és mística, não exacerbas, não angústias.
Geras o sonho do amor.

Praxíteles.
Como pudeste criar Afrodite?
E não a macerar, delapidar, arruinar, na ânsia de
a vencer, gozar!
Tinha de assim ser.
Eternizaste-a!
A beleza, o desejo, a promessa, a doce carne...

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Biografia

Identificação e contexto básico

Irene do Céu Vieira Marques Lisboa foi uma escritora, poeta, pedagoga e tradutora portuguesa. Nasceu no dia 22 de novembro de 1892, em Tôr, Loulé, e faleceu no dia 25 de abril de 1958, em Lisboa. Foi filha de um médico, o que lhe proporcionou um ambiente familiar intelectualizado. Falava e escrevia em português, tendo sido uma figura proeminente na literatura e na educação portuguesa do século XX. O contexto histórico em que viveu abrangeu um período de grandes transformações em Portugal, incluindo a I República e o Estado Novo.

Infância e formação

Irene Lisboa teve uma infância marcada por uma saúde frágil, que a levou a viver com a avó em Loulé durante alguns anos. A sua formação intelectual foi privilegiada, beneficiando de um ambiente familiar que valorizava a cultura e a educação. Frequentou a Escola Normal Superior, onde se formou em Filologia Germânica, demonstrando desde cedo o seu interesse pelas línguas e literaturas. As suas leituras e o contacto com o meio intelectual parisiense, onde viveu durante um período, foram fundamentais para a sua formação.

Percurso literário

O percurso literário de Irene Lisboa começou cedo, com a publicação dos seus primeiros poemas em revistas literárias. A sua obra desenvolveu-se em fases distintas, explorando a poesia, a prosa e o ensaio. A sua escrita é caracterizada pela experimentação linguística e pela profundidade temática. Colaborou em diversas publicações importantes da época, como a "A Sentinela" e "Presença", e dedicou-se também à tradução, enriquecendo o panorama literário português com a transposição de obras estrangeiras para a língua portuguesa.

Obra, estilo e características literárias

Obra, estilo e características literárias As obras principais de Irene Lisboa incluem "Folhas de Poesia" (1923), "Universo" (1929), "A Morte Alegre" (1934) e "Teia" (1949). Os temas dominantes na sua obra são a vida, a morte, o tempo, a solidão, a identidade, a espiritualidade e as relações humanas. O seu estilo é marcado por uma prosa poética densa, com uma linguagem inovadora e uma sintaxe por vezes complexa, que convida à reflexão. Utiliza metáforas e imagens ricas, criando um universo singular e profundamente pessoal. A sua voz poética é introspectiva, confessional e, simultaneamente, universal. Introduziu inovações formais e temáticas na literatura portuguesa, aproximando-se de correntes modernistas e existencialistas. A sua relação com a tradição é de diálogo crítico, buscando novas formas de expressão para os temas intemporais.

Obra, estilo e características literárias

Contexto cultural e histórico Irene Lisboa viveu e produziu obra num período de grande efervescência cultural em Portugal, marcado pelo Modernismo e pelas transformações sociais e políticas. A sua obra dialoga com outros escritores da sua geração, como Adolfo Casais Monteiro e a geração da "Presença", embora mantenha uma individualidade estética muito própria. A sua posição, por vezes crítica em relação ao regime do Estado Novo, refletiu-se na sua obra e na sua atividade pedagógica. A sociedade e a cultura da época influenciaram a sua escrita, que aborda as complexidades do ser humano no seu tempo.

Obra, estilo e características literárias

Vida pessoal A vida pessoal de Irene Lisboa foi marcada pela sua dedicação à educação e à escrita. Teve relações significativas com outros intelectuais da época, nomeadamente Adolfo Casais Monteiro. A sua saúde frágil e as crises existenciais que atravessou contribuíram para a profundidade e a introspeção da sua obra. Paralelamente à sua atividade literária, dedicou-se intensamente à pedagogia, contribuindo para a modernização do ensino em Portugal.

Obra, estilo e características literárias

Reconhecimento e receção O reconhecimento de Irene Lisboa como escritora e pedagoga cresceu ao longo do tempo. Embora em vida tenha tido uma receção crítica dividida, com alguns a valorizarem a sua originalidade e outros a estranharem a sua linguagem, a sua obra tem vindo a ser cada vez mais estudada e valorizada. O seu papel na educação portuguesa é amplamente reconhecido. A sua entrada no cânone literário é progressiva, com um crescente interesse académico pela sua obra singular e inovadora.

Obra, estilo e características literárias

Influências e legado Irene Lisboa foi influenciada por autores como Fernando Pessoa e pela literatura francesa, nomeadamente por autores existencialistas e surrealistas. O seu legado reside na sua prosa inovadora, na sua abordagem profunda da condição humana e no seu contributo para a pedagogia portuguesa. Influenciou gerações de escritores e educadores pela sua originalidade, pela sua rigorosa reflexão sobre a linguagem e pela sua busca incessante de significado.

Obra, estilo e características literárias

Interpretação e análise crítica A obra de Irene Lisboa tem sido objeto de diversas interpretações, focando-se na sua dimensão existencial, na sua experimentação linguística e na sua crítica social implícita. Os temas filosóficos e existenciais, como a efemeridade do tempo, a solidão e a busca por um sentido, são centrais nas análises críticas. As suas obras são vistas como reflexos da complexidade da alma humana e da dificuldade de comunicação.

Obra, estilo e características literárias

Curiosidades e aspetos menos conhecidos Uma curiosidade sobre Irene Lisboa é a sua paixão pelo teatro, que influenciou a sua escrita. A sua correspondência revela um lado mais íntimo e reflexivo da sua personalidade. Os seus hábitos de escrita eram rigorosos, dedicando tempo à reflexão e à elaboração cuidadosa de cada texto. A sua forte ligação a Paris e à cultura francesa marcou profundamente a sua visão do mundo e a sua criação literária.

Obra, estilo e características literárias

Morte e memória Irene Lisboa faleceu em Lisboa, vítima de doença. A sua morte precoce deixou um vazio na literatura e na educação portuguesa. Publicações póstumas, como a recolha da sua obra completa e estudos sobre a sua vida e obra, têm contribuído para a preservação da sua memória e para a divulgação do seu legado literário e pedagógico.

Poemas

6

Afrodite

Formosa.
Esses peitos pequenos, cheios.
Esse ventre, o seu redondo espraiado!
O vinco da cinta, o gracioso umbigo, o escorrido
das ancas, o púbis discreto ligeiramente alteado,
as coxas esbeltas, um joelho único suave e agudo,
o coto de um braço, o tronco robusto, a linha
cariciosa do ombro...
Afrodite, não chorei quando te descobri?
Aquele museu plácido, tantas memórias da Grécia
e de Roma!
Tantas figuras graves, de gestos nobres e de
frontes tranquilas, abstractas...
Mas aquela sala vasta, cheia, não era uma necró-
pole.
Era uma assembleia de amáveis espíritos, divaga-
dores, ente si trocando serenas, eternas e nunca
desprezadas razões formais.

Afrodite, Afrodite, tão humana e sem tempo...
O descanso desse teu gesto!
A perna que encobre a outra, que aperta o corpo.
A doce oferta desse pomo tentador: peito e ventre.
E um fumo, uma impressão tão subtil e tão pro-
vocante de pudor, de volúpia, de reserva, de
abandono...
Já passaram sobre ti dois mil anos?

Estranha obra de um homem!
Que doçura espalhas e que grandeza...
És o equilíbrio e a harmonia e não és senão corpo.
Não és mística, não exacerbas, não angústias.
Geras o sonho do amor.

Praxíteles.
Como pudeste criar Afrodite?
E não a macerar, delapidar, arruinar, na ânsia de
a vencer, gozar!
Tinha de assim ser.
Eternizaste-a!
A beleza, o desejo, a promessa, a doce carne...

2 147

Jeito de Escrever

Não sei que diga.
E a quem o dizer?
Não sei que pense.
Nada jamais soube.

Nem de mim, nem dos outros.
Nem do tempo, do céu e da terra, das coisas...
Seja do que for ou do que fosse.
Não sei que diga, não sei que pense.

Oiço os ralos queixosos, arrastados.
Ralos serão?
Horas da noite.
Noite começada ou adiantada, noite.
Como é bonito escrever!

Com este longo aparo, bonitas as letras e o gesto - o jeito.
Ao acaso, sem âncora, vago no tempo.
No tempo vago...
Ele vago e eu sem amparo.
Piam pássaros, trespassam o luto do espaço, este sereno luto das horas.
Mortas!

E por mais não ter que relatar me cerro.
Expressão antiga, epistolar: me cerro.
Tão grato é o velho, inopinado e novo.
Me cerro!

Assim: uma das mãos no papel, dedos fincados,
solta a outra, de pena expectante.
Uma que agarra, a outra que espera...
Ó ilusão!
E tudo acabou, acaba.
Para quê a busca das coisas novas, à toa e à roda?

Silêncio.

Nem pássaros já, noite morta.
Me cerro.
Ó minha derradeira composição! Do não, do
nem, do nada, da ausência e solidão.

Da indiferença.
Quero eu que o seja! da indiferença ilimitada.
Noite vasta e contínua, caminha, caminha.
Alonga-te.
A ribeira acordou.
1 890

Meados de maio

Chuvoso maio!

Deste lado oiço gotejar
sobre as pedras.
Som da cidade ...
Do outro via a chuva no ar.
Perpendicular, fina,
Tomava cor,
distinguia-se
contra o fundo das trepadeiras
do jardim.
No chão, quando caía,
abria círculos
nas pocinhas brilhantes,
já formadas?
Há lá coisa mais linda

que este bater de água
na outra água?
Um pingo cai
E forma uma rosa...
um movimento circular,
que se espraia.
Vem outro pingo
E nasce outra rosa...
e sempre assim!

Os nossos olhos desconsolados,
sem alegria nem tristeza,
tranquilamente
vão vendo formar-se as rosas,
brilhar
e mover-se a água.

.
.
.
1 494

Jeito de escrever

Não sei que diga.
E a quem o dizer?
Não sei que pense.
Nada jamais soube.
Nem de mim, nem dos outros.
Nem do tempo, do céu e da terra, das coisas...
Seja do que for ou do que fosse.
Não sei que diga, não sei que pense.
Oiço os ralos queixosos, arrastados.
Ralos serão?
Horas da noite.
Noite começada ou adiantada, noite.
Como é bonito escrever!
Com este longo aparo, bonitas as letras e o gesto - o jeito.
Ao acaso, sem âncora, vago no tempo.
No tempo vago...
Ele vago e eu sem amparo.
Piam pássaros, trespassam o luto do espaço, este sereno
[ luto das horas.
Mortas!
E por mais não ter que relatar me cerro.
Expressão antiga, epistolar: me cerro.
Tão grato é o velho, inopinado e novo.
Me cerro!
Assim: uma das mãos no papel, dedos fincados,
solta a outra, de pena expectante.
Uma que agarra, a outra que espera...
Ó ilusão!
E tudo acabou, acaba.
Para quê a busca das coisas novas, à toa e à roda?
Silêncio.
Nem pássaros já, noite morta.
Me cerro.
Ó minha derradeira composição! Do não, do nem, do nada,
[ da ausência e solidão.
Da indiferença.
Quero eu que o seja! da indiferença ilimitada.
Noite vasta e contínua, caminha, caminha.
Alonga-te.
A ribeira acordou.
981

Pequenos poemas mentais

Mental: nada, ou quase nada sentimental.

I

Quem não sai de sua casa,
não atravessa montes nem vales,
não vê eiras
nem mulheres de infusa,
nem homens de mangual em riste, suados,
quem vive como a aranha no seu redondel
cria mil olhos para nada.
Mil olhos!
Implacáveis.
E hoje diz: odeio.
Ontem diria: amo.
Mas odeia, odeia com indômitos ódios.
E se se aplaca, como acha o tempo pobre!
E a liberdade inútil,
inútil e vã,
riqueza de miseráveis.

II

Como sempre, há-de-chegar, desde os tempos!
Vozes, cumprimentos, ofegantes entradas.
Mas que vos reunirá, pensamentos?
Chegais a existir, pensamentos?
É provável, mas desconfiados e inválidos,
Rosnando estúpidos, com cães.

Ó inúteis, aquietai-vos!
Voltai como os cães das quintas
ao ponto da partida, decepcionados.
E enrolai-vos tristonhos, rabugentos, desinteressados.

III

Esse gesto...
Esse desânimo e essa vaidade...
A vaidade ferida comove-me,
comove-me o ser ferido!

A vaidade não é generosa, é egoísta,
Mas chega a ser bela, e curiosa!
E então assim acabrunhada...
Com franqueza, enternece-me.

Subtil
A minha mão que, julgo, ridicularizas,
de que desconheces a suavidade,
cerra-te pacificamente os olhos
e aquieta benignamente o ar.
Paira sobre a tua cabeça, móbil, branda,
na prática de um velho rito,
feminil, piedoso, desconhecido e inconfesso.

IV

Ó luxúria brutal, perversa e felina,
dos outros, alheia,
sem pensamentos nem repouso!
retira-me da frente o venenoso cálice,
a tua peçonha adocicada.
Que a morte, o nirvana, a indiferença
dos longuíssimos anos sem sobressaltos, me retome.

Abro os braços e meço: cá, lá... cá, lá...
solidão, infinita solidão!
E neste movimento, neste balouço, adormeço,
Cá, lá... morte, vida... morte, vida...
Todas as ausências, todas as negações.

V

Os poetas cumprimentam-se, delicados.
Cada um como seu metro, o seu espírito, a sua forma;
as suas credenciais...
Mas são simpáticos os poetas!
Sensíveis, femininos, curiosos.
Envolve-os um mistério.
Não! Esta é a linguagem de toda gente: o mistério...
Que mistério?
Os poetas são apenas reservados, são apenas...
perturbados e capciosos.

VI

Cai um pássaro do ar, devagar, muito devagar.
E as árvores soturnas não se mexem.
Estio!
Não se vêem bulir as árvores, em bloco, ou aos arcos,, estampadas...
Elegante Lapa! Sol fosco, paisagem de manhã.
A gente do sítio, pobreza e riqueza, ainda recolhida.
Aqui, uma janela discreta que se abre, preta, cega.
Ali outra fechada.
E esta alternância, bastante irregular, vai-se repetindo, repete-se...

E eu, ai eu! Prisioneira, sempre prisioneira; tão enfadada!

1 716

Jeito de escrever

Não sei que diga.
E a quem o dizer?
Não sei que pense.
Nada jamais soube.

Nem de mim, nem dos outros.
Nem do tempo, do céu e da terra, das coisas...
Seja do que for ou do que fosse.
Não sei que diga, não sei que pense.

Oiço os ralos queixosos, arrastados.
Ralos serão?
Horas da noite.
Noite começada ou adiantada, noite.
Como é bonito escrever!

Com este longo aparo, bonitas as letras e o gesto - o jeito.
Ao acaso, sem âncora, vago no tempo.
No tempo vago...
Ele vago e eu sem amparo.
Piam pássaros, trespassam o luto do espaço, este sereno luto das horas.
Mortas!

E por mais não ter que relatar me cerro.
Expressão antiga, epistolar: me cerro.
Tão grato é o velho, inopinado e novo.
Me cerro!

Assim: uma das mãos no papel, dedos fincados,
solta a outra, de pena expectante.
Uma que agarra, a outra que espera...
Ó ilusão!
E tudo acabou, acaba.
Para quê a busca das coisas novas, à toa e à roda?

Silêncio.
Nem pássaros já, noite morta.
Me cerro.
Ó minha derradeira composição! Do não, do nem, do nada, da ausência e
solidão.

Da indiferença.
Quero eu que o seja! da indiferença ilimitada.
Noite vasta e contínua, caminha, caminha.
Alonga-te.
A ribeira acordou.



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