Hernâni Cidade

Hernâni Cidade

1887–1975 · viveu 87 anos PT PT

Hernâni Cidade foi um notável poeta, crítico literário, ensaísta e professor universitário português. Sua poesia, frequentemente associada ao neo-realismo e ao surrealismo, explora temas como a condição humana, a terra, a identidade nacional e a luta social, com uma linguagem forte e imagética. Como crítico e ensaísta, destacou-se pela profundidade das suas análises sobre a literatura portuguesa, em particular sobre a poesia do século XX. Sua obra contribuiu significativamente para a compreensão e valorização de autores e movimentos literários, deixando um legado importante nos estudos literários em Portugal.

n. 1887-02-07, Redondo · m. 1975-01-02, Évora

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À Pertubadora

Olho-te muita vez tão fixamente,
com tal desejo a crepitar no olhar,
que ficas a pensar, vaidosa e crente:
— Mais duas lâmpadas no meu altar…

Vê lá, porém, não te envaideça a ideia
que nestes olhos — lâmpadas votivas —
arda o álcool subtil que em nós ateia
paixões candentes como chamas vivas…

Eu sou romeiro de mais duma santa
e a todos presto um culto assim — banal.
Se não encontro — a ventura é tanta! —
mais que fragmentos do meu santo Graal!…

De alguém eu amo a santidade calma
e os gestos brandos e pacificantes…
E, envolta em seu olhar, minha alma
veste alma túnica em rituais distantes…

Há outra — inacessível Peregrina! —
em que adoro a perfeição sonhada,
fê-la o Senhor numa hora sossegada,
sem descuido ou tremor na mão divina…

Mas em ti amo a graça acidulada
por uma gota de cinismo ingénuo;
muito mais perturbante e desejada
que o vinho mais alcoólico do Reno!

E amo-te a boca… Irregular gomil.
Quando abre em riso, sente-se evolar
não sei que odor de sensação subtil…
(Fermenta nela os beijos que hás-de dar?…)

E a graça dos teus olhos oequeninos!
São duas frestas dum "hyaly" do Oriente,
onde a tua alma — uma sultana ardente —
às vezes surge, a fulminar destinos!

Mas o que mais me turba é o mistério
da tua carne em febre de desejo,
e, assim, a arder, radiando em halo etéreo,
como se a Virgem lhe aflorasse um beijo…

Eis quanto eu amo em ti. É muito?… É pouco?…
Paixão… não creio. Isto é — bem podes ver,
de menos, p’ra seguir-te como louco,
mas demais p’ra te olhar sem estremecer!

(in Antologia de poetas Alentejanos)

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Biografia

Identificação e contexto básico

Hernâni Cidade foi um poeta, crítico literário, ensaísta e professor universitário português. Notabilizou-se pela sua obra poética e pela sua vasta produção crítica sobre literatura portuguesa.

Infância e formação

Informações detalhadas sobre sua infância não são amplamente divulgadas, mas sua trajetória acadêmica e literária indica uma sólida formação, culminando em uma carreira universitária dedicada ao estudo e à divulgação da literatura.

Percurso literário

O percurso literário de Hernâni Cidade é marcado por uma atuação multifacetada. Como poeta, desenvolveu uma obra que dialogou com as correntes literárias de seu tempo, explorando temas sociais e existenciais. Paralelamente, estabeleceu-se como um dos mais importantes críticos e ensaístas da literatura portuguesa, dedicando-se à análise aprofundada de autores e movimentos, com ênfase na poesia.

Obra, estilo e características literárias

Obra, estilo e características literárias A poesia de Hernâni Cidade é frequentemente marcada por uma forte ligação com a terra, a identidade portuguesa e as questões sociais. Sua linguagem é rica, imagética e, por vezes, densa, refletindo influências do neo-realismo e do surrealismo. Aborda temas como a condição humana, a passagem do tempo, a memória e a busca por um sentido para a existência. Como crítico e ensaísta, Cidade demonstrou um profundo conhecimento da literatura portuguesa, com estudos relevantes sobre Camões, Fernando Pessoa e outros vultos da literatura nacional. Sua abordagem crítica caracteriza-se pela rigorosidade, pela capacidade de contextualização histórica e pela sensibilidade interpretativa, contribuindo para a releitura e a compreensão de obras e autores.

Obra, estilo e características literárias

Contexto cultural e histórico Hernâni Cidade atuou em um período significativo da história cultural portuguesa, marcado por transformações políticas e sociais. Sua obra e sua crítica refletem e dialogam com esses contextos, abordando temas que ressoam com a realidade do país e da experiência humana em geral.

Obra, estilo e características literárias

Vida pessoal Detalhes específicos sobre a vida pessoal de Hernâni Cidade, como relações familiares e experiências íntimas, não são amplamente divulgados em fontes públicas, mas sua dedicação à academia e à literatura sugere uma vida intelectualmente intensa.

Obra, estilo e características literárias

Reconhecimento e receção O reconhecimento de Hernâni Cidade como poeta e, especialmente, como crítico literário foi significativo. Sua obra crítica é considerada fundamental para os estudos literários em Portugal, e sua poesia é valorizada pela sua profundidade e originalidade.

Obra, estilo e características literárias

Influências e legado Sua obra poética dialoga com as principais correntes literárias do século XX, enquanto sua crítica literária estabeleceu pontes entre diferentes gerações e movimentos. O legado de Hernâni Cidade reside na sua contribuição para a consolidação dos estudos literários em Portugal e na sua poesia, que continua a ser apreciada pela sua força expressiva e temática.

Obra, estilo e características literárias

Interpretação e análise crítica A crítica sobre a obra de Cidade destaca a complexidade de sua poesia e a relevância de seus ensaios para a compreensão da literatura portuguesa. Suas análises são frequentemente revisitadas por sua profundidade e pela capacidade de iluminar aspectos centrais da produção literária.

Obra, estilo e características literárias

Curiosidades e aspetos menos conhecidos Informações sobre curiosidades ou aspetos menos conhecidos da vida de Hernâni Cidade não são facilmente encontradas em fontes públicas, indicando um perfil mais voltado para a esfera intelectual e acadêmica.

Obra, estilo e características literárias

Morte e memória Informações sobre as circunstâncias de sua morte e possíveis publicações póstumas não estão detalhadas em fontes públicas.

Poemas

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À Pertubadora

Olho-te muita vez tão fixamente,
com tal desejo a crepitar no olhar,
que ficas a pensar, vaidosa e crente:
— Mais duas lâmpadas no meu altar…

Vê lá, porém, não te envaideça a ideia
que nestes olhos — lâmpadas votivas —
arda o álcool subtil que em nós ateia
paixões candentes como chamas vivas…

Eu sou romeiro de mais duma santa
e a todos presto um culto assim — banal.
Se não encontro — a ventura é tanta! —
mais que fragmentos do meu santo Graal!…

De alguém eu amo a santidade calma
e os gestos brandos e pacificantes…
E, envolta em seu olhar, minha alma
veste alma túnica em rituais distantes…

Há outra — inacessível Peregrina! —
em que adoro a perfeição sonhada,
fê-la o Senhor numa hora sossegada,
sem descuido ou tremor na mão divina…

Mas em ti amo a graça acidulada
por uma gota de cinismo ingénuo;
muito mais perturbante e desejada
que o vinho mais alcoólico do Reno!

E amo-te a boca… Irregular gomil.
Quando abre em riso, sente-se evolar
não sei que odor de sensação subtil…
(Fermenta nela os beijos que hás-de dar?…)

E a graça dos teus olhos oequeninos!
São duas frestas dum "hyaly" do Oriente,
onde a tua alma — uma sultana ardente —
às vezes surge, a fulminar destinos!

Mas o que mais me turba é o mistério
da tua carne em febre de desejo,
e, assim, a arder, radiando em halo etéreo,
como se a Virgem lhe aflorasse um beijo…

Eis quanto eu amo em ti. É muito?… É pouco?…
Paixão… não creio. Isto é — bem podes ver,
de menos, p’ra seguir-te como louco,
mas demais p’ra te olhar sem estremecer!

(in Antologia de poetas Alentejanos)

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