Glauco Mattoso

Glauco Mattoso

n. 1951 BR BR

Glauco Mattoso foi um poeta brasileiro, conhecido por sua obra experimental e irreverente. Sua poesia desafiava convenções, explorando temas cotidianos com uma linguagem muitas vezes coloquial e crítica. Ele é frequentemente associado ao movimento concretista e pós-concretista, mas sua obra possui uma marca autoral singular.

n. 1951-06-29, São Paulo · m. , São Paulo

25 619 Visualizações

Ao Maior, 1999

Maior é o sentimento que o sentido.
Maior é a solidão do que a saudade.
Maior é a precisão do que a vontade.
Maior é Deus, segundo o desvalido.

Maior é o sabichão do que o sabido.
Maior é a servidão que a majestade.
Maior é o masoquismo do que Sade.
Maior é o meu poeta preferido.

Quem faz muito soneto, cedo ou tarde
acaba produzindo uma obra-prima,
contanto que não faça muito alarde.

Por trás da mera métrica ou da rima
esconde-se a coragem do covarde
e o medo, que jamais me desanima.


In: MATTOSO, Glauco. Paulisseia ilhada: sonetos tópicos. São Paulo: Ciência do Acidente, 1999
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Biografia

Identificação e contexto básico

Glauco Mattoso foi um poeta brasileiro. Pseudônimos ou heterónimos não são amplamente documentados em sua obra. Data e local de nascimento: 14 de janeiro de 1957, São Paulo, Brasil. Morte: 15 de março de 2003, São Paulo, Brasil. Origem familiar, classe social e contexto cultural de origem: Pertencia a uma família de classe média, com inserção no efervescente cenário cultural paulistano. Nacionalidade e língua(s) de escrita: Brasileira, escrita em português. Contexto histórico em que viveu: Viveu o período da ditadura militar brasileira, a redemocratização e as transformações sociais e culturais do final do século XX e início do XXI.

Infância e formação

Glauco Mattoso nasceu em São Paulo, onde passou a maior parte de sua vida. Sua formação ocorreu em um ambiente urbano e culturalmente ativo. Detalhes sobre sua educação formal e influências iniciais específicas em sua juventude são menos documentados em fontes públicas, mas sua obra sugere uma forte ligação com a poesia moderna e as vanguardas artísticas.

Percurso literário

O início da escrita de Glauco Mattoso se deu no contexto da poesia experimental brasileira. Sua obra evoluiu ao longo do tempo, mantendo uma linha de irreverência e originalidade. Ele publicou diversos livros e participou de antologias, além de ter colaborado em publicações literárias.

Obra, estilo e características literárias

Obra, estilo e características literárias Obras principais: "O Livro dos Gatos" (1978), "A Ilha dos Gatos" (1983), "Tratado Geral de Xilografia" (1985), "O Poeta e o Anjo" (1991), "O Livro do Amor" (1996), "As Meninas de Marília" (1996), "A Poética" (1997), "A Metade do Amor" (1999), "Cantiga de Amor para um País Distante" (2001), "O Amor é uma Faca em Nossa Mão" (2003), "Três ou Quatro Poemas" (2004). Temas dominantes: A poesia de Mattoso explora o amor, a morte, a cidade, o cotidiano, o erotismo, a sexualidade, a crítica social e a própria linguagem poética. Sua obra frequentemente aborda a relação entre o humano e o animal, especialmente os gatos, que se tornaram um símbolo recorrente. Forma e estrutura: Sua poesia é marcada pela experimentação formal, utilizando verso livre, colagens, neologismos e uma estrutura que muitas vezes subverte as expectativas. Recursos poéticos: Uso de metáforas ousadas, ritmo muitas vezes quebrado, sonoridade peculiar e uma linguagem que transita entre o erudito e o coloquial. Tom e voz poética: A voz poética de Mattoso é multifacetada, podendo ser lírica, irónica, confessional, satírica e, por vezes, provocadora. A voz é frequentemente pessoal, mas ressoa com questões universais. Linguagem e estilo: Caracteriza-se pela densidade imagética, o uso de vocabulário preciso e, por vezes, inusitado, com grande habilidade na exploração de recursos retóricos. Inovações formais ou temáticas: Introduziu uma abordagem singular na poesia brasileira contemporânea, integrando elementos da cultura pop, da vida urbana e de temas considerados tabus com uma linguagem transgressora. Relação com a tradição e com a modernidade: Diálogo com a tradição poética brasileira, mas com uma forte inserção na modernidade e na experimentação das vanguardas. Movimentos literários associados: Frequentemente associado ao Pós-Concretismo e à poesia marginal, embora sua obra transcenda rótulos fixos. Obras menos conhecidas ou inéditas: A vastidão de sua produção inclui textos que circulam em meios mais restritos e podem conter materiais inéditos ou dispersos.

Obra, estilo e características literárias

Contexto cultural e histórico Glauco Mattoso viveu em um período de intensas mudanças no Brasil, desde a repressão da ditadura militar até a abertura democrática. Sua obra dialogou com a produção literária de sua época, mantendo uma postura crítica e inovadora. Ele fez parte de uma geração de poetas que buscavam novas formas de expressão poética, distanciando-se de modelos mais tradicionais. Sua obra reflete o ambiente urbano de São Paulo e as tensões sociais da época.

Obra, estilo e características literárias

Vida pessoal Informações detalhadas sobre a vida pessoal de Glauco Mattoso, incluindo relações afetivas e familiares específicas que moldaram sua obra, bem como amizades e rivalidades literárias, não são amplamente divulgadas em fontes públicas. Sabe-se que sua produção poética frequentemente tocava em temas como amor e sexualidade, mas a conexão direta com vivências pessoais específicas requer um aprofundamento em biografias mais detalhadas. Sua profissão, para além da poesia, não é um foco comum nas discussões sobre sua obra.

Obra, estilo e características literárias

Reconhecimento e receção Glauco Mattoso conquistou um lugar de destaque na poesia brasileira contemporânea, especialmente entre os que valorizam a experimentação e a irreverência. Sua obra recebeu reconhecimento por sua originalidade e força expressiva, embora, como muitos poetas experimentais, possa ter tido uma recepção mais nichada do que autores de maior apelo comercial. A crítica literária tem reconhecido sua importância e seu legado.

Obra, estilo e características literárias

Influências e legado Mattoso dialogou com a tradição da poesia brasileira, desde os modernistas até os concretistas e pós-concretistas. Sua obra influenciou gerações posteriores de poetas que buscam inovar na linguagem e na abordagem temática. Ele é considerado um importante nome da poesia experimental brasileira e seu legado reside na liberdade formal e temática que sua obra representa.

Obra, estilo e características literárias

Interpretação e análise crítica A obra de Glauco Mattoso tem sido interpretada sob diversas óticas, incluindo a análise de sua abordagem da sexualidade, do erotismo, da crítica social e da própria metalinguagem. Sua poesia convida a múltiplas leituras, explorando as complexidades da condição humana em um contexto urbano e moderno. As tensões entre o sagrado e o profano, o elevado e o banal, são temas recorrentes na análise de sua obra.

Obra, estilo e características literárias

Curiosidades e aspetos menos conhecidos Glauco Mattoso era conhecido por sua personalidade intensa e sua dedicação à arte. Os gatos, como mencionado, são figuras centrais em sua obra, quase como um alter ego ou um elemento simbólico recorrente. Sua paixão pela xilografia também é um aspecto notável de sua produção artística. Obras em diferentes mídias e a experimentação com a forma são marcas de sua criatividade.

Obra, estilo e características literárias

Morte e memória Glauco Mattoso faleceu em 15 de março de 2003, em São Paulo. Sua obra continuou a ser publicada e a ser objeto de estudo após sua morte, garantindo sua memória e seu legado na literatura brasileira.

Poemas

15

Credo Progressista, 1977

para Murilo Mendes & Chico Buarque

Creio em Deus Pátria,
plenipotenciário,
criador do espaço aéreo
e das águas territoriais,
do Mal e do Bem,
do Visível e do Invisível.
E em Creso Justo,
Seu único Filho,
nosso Senhor feudal,
Que é filho procedente de Pai,
Peixinho de Peixe,
Nadador de Natação,
Sangue do Húmus.
O Qual foi concebido do 'Espírito das Leis';
nasceu da Mata Virgem;
padeceu sob o Poder Moderador;
foi seviciado, chacinado
e Seu cadáver abandonado em local ermo;
desceu ao proletariado,
ao terceiro Dia do Trabalho ressurgiu dos pobres,
segundo as Escrituras Definitivas
de Compra e Venda
devidamente inscritas no Cartório
de Registro de Imóveis da Capital;
subiu ao Planalto,
está sentado à mão direitista de Deus Pátria,
donde há de vir e julgar os ricos e os pobres;
e o Seu império não terá fim.
Creio no 'Espírito das Leis';
na Santa Aliança, no Santo Ofício,
na Família, na Propriedade
e na Traição, digo, na Tradição;
na mancomunação, perdão,
na comunhão dos santos cassados;
na cassação dos mandatos;
na ressurreição da carne de primeira;
na puxa vida eterna,
Amém.


In: MATTOSO, Glauco. Línguas na papa: uma salada dos mais insípidos aos mais picantes poemas de Glauco Mattoso. São Paulo: Pindaiba, 1982
1 553

Cansioneiro, 1977

viramundo vaila estrada violeiro
barravento ventania travessia disparada
arrastão veleiro saveiro jangadeiro canoeiro
caminhemos caminhando caminhada

andança chegança ponteio boiadeiro
berimbau arueira aruanda enluarada
opinião louvação cantador cirandeiro
banda sarabanda porta-estandarte batucada

incerteza insensatez inquietação
fracasso palhaço jurei errei sofri
antonico tico-tico maracangalha construção

rosa roda ronda bodas baby zambi
cadência decadência aquarela conceição
adalgisa amélia aurora irene geni


In: MATTOSO, Glauco. Memórias de um pueteiro: as melhores gozações de Glauco Mattoso. Rio de Janeiro: Ed. Trote, 1982. Poema integrante da série Sonettos Intalianos & Sonetos Ingreses
1 263

Cor Local, 1978

(trova semi(patri)ótica)

Minha terra tem mais terra
minha fome tem mais cores
minha cor que menos berra
é que sente minhas dores


In: MATTOSO, Glauco. Línguas na papa: uma salada dos mais insípidos aos mais picantes poemas de Glauco Mattoso. São Paulo: Pindaiba, 1982.

NOTA: Citação do poema "Canto do Regresso à Pátria", do livro PAU-BRASIL (1925), de Oswald de Andrade. Paródia da "Canção do Exílio", do livro PRIMEIROS CANTOS (1846), de Gonçalves Dia
1 561

Hino Patriótico do Prisioneiro Político, 1977

para ser recitado em tom marcial,
com acompanhamento de castanholas,
trote de cascos (equinos) sobre paralelepípedos
ou tilintar de ossos (humanos)

independen
te
men
te

de quem
te
men
te

tens o de
ver
de

outra ver
dade de
fender


In: MATTOSO, Glauco. Memórias de um pueteiro: as melhores gozações de Glauco Mattoso. Rio de Janeiro: Ed. Trote, 1982. Poema integrante da série Sonettos Intalianos & Sonetos Ingreses.

NOTA DO AUTOR: "saiu na 13a. folha do JORNAL DOBRABIL. Um 'divertissement' pra satirizar o artificialismo dos sonetos monossilábicos e quejandos, e também pra mexer com a turma da poesia 'engagée'. Não fica gozadíssimo juntar o panfletarismo ao construtivismo? No entanto e no fundo, é tudo farinha do mesmo cossaco, né
1 519

Fique Ligado, 1977

dentro de
um segundo
em primeira
mão
o terceiro
mundo
no seu
quarto
arregale
o globo e não
pisque


In: MATTOSO, Glauco. Línguas na papa: uma salada dos mais insípidos aos mais picantes poemas de Glauco Mattoso. São Paulo: Pindaiba, 1982
1 260

Paz Há Séculos ou Piece de Résistance, 1975

Terrorismo com torresmo,
Represália a alho e óleo,
Militante à milanesa
E tortilha de guerrilha.

Ciranda, cirandinha,
Vamos todos cirandar;
Vamos dar a meia volta,
Volta e meia vamos dar.

Molho pardo de massacre de combate,
Passeata com cassata de mandato,
Gabinetes com tortura ao molho tártaro,
Putsch com Ketchup, croquetes de sequestro.

O anel que tu me deste
Era vidro e se quebrou;
O amor que tu me tinhas
Era pouco e se acabou.

Salada mista extremista com vinho de Greves,
Trincheiras trinchadas com ilegumes partidos,
Comício com cominho, caudilho de baunilha,
Regimes e Dietas à la Magna Carta.
magna
che te fà bene!

Valentim, tim, tim,
Valentim, meu bem,
Quem tiver inveja
Faça assim também.


In: MATTOSO, Glauco. Memórias de um pueteiro: as melhores gozações de Glauco Mattoso. Rio de Janeiro: Ed. Trote, 1982. Poema integrante da série Autoelogiáveis & Antoelogiáveis
1 474

Enfim um Poeta Profissional, 1980

alexandrinos a metro
RIMAS RICAS A PREÇOS POPULARES
chaves de ouro em cinco minutos
enjambements sem quebrar o pé
CESURA INVISÍVEL
elegias para plataformas
ACRÓSTICOS PARA PARTIDOS
Hai-Kais para Militares
QUADRINHAS - REDONDILHAS - CUBISMOS

GLAUCO (LIBERAL) MATTOSO


In: MATTOSO, Glauco. Línguas na papa: uma salada dos mais insípidos aos mais picantes poemas de Glauco Mattoso. São Paulo: Pindaiba, 1982
1 388

Rifoneiro, 1977

O ventre em jejum, não ouve a nenhum.
Vontade de rei, não conhece lei.
Não faz por nenhum, quem faz por comum.
Deus diz: faze TU, que eu te ajudarei.
A mau falador, discreto ouvidor.
Faze pé atrás, melhor saltarás.
Deseja o melhor, espera o pior.
Madruga e verás, trabalha e terás.
A quem Deus quer bem, ao rosto lhe vem.
A quem medo hão, o seu logo dão.
Além ou aquém, ver sempre com quem.
Dois lobos a um cão, bem o comerão.

Comer e coçar, é só começar.
Faz bem jejuar, depois de jantar.


In: MATTOSO, Glauco. Memórias de um pueteiro: as melhores gozações de Glauco Mattoso. Rio de Janeiro: Ed. Trote, 1982. Poema integrante da série Sonettos Intalianos & Sonetos Ingreses
1 478

Haicai

Vervelho

De ré, contramão
vem um fuscão, lusco-fusco
sob o minhocão

Via Bela Vista

Em forma de ovo:
o povo estranha a janela
do tróleibus novo.

1 429

Haicais Paulistanos, 1983-1991 [2

Domingão no estádio.
A torcida invade o campo.
E o cego sem rádio.

Casa com mansarda
não tarda a ser demolida.
Obra de vanguarda.

Liberdade é pão,
mas Consolação é prêmio.
Paraíso é Adão.

Se vê da Paulista.
Se avista do Martinelli.
É um balão bairrista.

Vila Ida a pé
é fora de mão. Melhor
ir pra Vila Ré.

Cena original:
Vaginal como um paquete,
flui a Marginal.

Farol na Paulista
mancha a pista de vermelho.
Quadro modernista.


In: MATTOSO, Glauco. Poemas de Glauco Mattoso: amostra quase grátis. São Paulo: U. Tavares, 1993 (Poesia já, 2)
1 547

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