Escritas

Lista de Poemas

Amor Caipirano

Vaga viola, viola cigana a clarear...
Morrer de amor é loucura.
Beira de rio, sol de meio-dia;
Porta aberta a reparar:
As embarcações vão subindo o rio,
Assim como os bichos a desninhar
Na variação das estações,
Vai-se madurando amor à roça...
Tenho pensado com o coração
Na sua vota repentina;
Sua chegada sempre faz estourar as maritacas nos quintais.

Vaga presença, chiar intenso...
Cigarras nas árvores desfolhadas
E nós atracados corpo a corpo,
Feito bichos no cio,
Estalando nas folhas secas...
Amor imenso fazia alastrar queimadas
Por entre jaraguás secos,
Peito ardendo em labaredas...
Morrer assim!!!
Beira de estrada poeirenta
Rostos pálidos na estiagem.
Se acabar assim!!!
Ipês roxeando, amarelando...
Morrer de amor é loucura.

Vaga viola, viola cigana a clarear...
A espera de uma vida toda
Percorrida pelas estiagens e lagoas prateadas,
Na derrubada dos ranchos e matas,
O taquaral era só ventania
E a ventania era só varal
Era uma hora medonha:
Preso ao seu visgo, resistia...
Tudo se recomeçava novamente
E as coisas se punham no lugar.
Amar demais sempre trouxe fortes momentos,
Mas em nenhum instante sequer se desfez a espera;
Sua chegada é marcada
Pelo estouro das maritacas em meu peito.
Alegria de minha vida clareia...
Viola cigana, viola doida varrida...
Amor caipirano.
Bahia / 1982

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Rio bagagem

Agreste, agreste canção
Que fala dos moleques
No rio tomando banho,
Caçando passarinho
Pelas estradas;
O rio era um quintal
Moleques banhando.

Canção da terra;
Dois corações
Podem ser felizes.
Tinha um negrinho, tiziu,
Sua risada espantava a passarada;
No seu coração, guardava um segredo:
Moça dos seus olhos
Tinha cabelos como espiga de milho;
Um sonho tão forte na noite
Onde a lua clareia
E reflete no Bagagem
A sua mocidade...
Um amor tão impossível
Não tem cura;
Duas raças tão puras
Não se podem misturar.

Nos dias que vadiava pela cidade,
Aspirava fundo o cheiro,
Alegria súbita de ver
Seus olhos claros;
Ao seu encontro a terra estremecia,
Sua risada espantava a passarada,
Um veneno exalava dos olhos nas janelas;
A cidade não consente um amor como este.

Banhos de rio, agreste canção;
Velhos amigos, velhos corações
Fez desse amor
A tristeza mais profunda.
E na noite em que os cães latem,
E silenciam instantaneamente...
A cidade prepara sua tocaia,
Seu bote escorraçador;
Ataca e bane velozmente
E, no clarear do dia,
O resto da violência
Se acabou a risada,
Tomou conta a passarada.

Nas noites de estrelas,
Pelo vale nas estradas,
Vem tanger os guaribas;
A terra estremece
Com a sua presença,
Os amigos o abraçam
E relembra a cor dos cabelos
De sua amada, banhos de rio...
Assim quando sopra o vento o milharal
Agreste, agreste canção.
Bahia / 1982

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Introdução

Éramos meninos ainda,
quando minha mãe contava. Ao redor,
das madrugadas de negrumes,
das pesadas chuvas,
dos riachos e rios fazendo
transbordar Itajá.
Naquelas noites as mulheres pariam filhos,
gatos nasciam nas bananeiras,
cobras entravam
pelas casas e ranchos.
Os homens gemiam de febre,
a febre gelada da solidão.
Falava também das cidades,
de uma fulana Goianésia,
outra chamada Anápolis,
aldeia Brasília,
povoado Monte Carmelo.
De um país chamado Gerais, Minas, Goiás.
Éramos meninos vindo de um estreito,
escutando assustados
O apito do trem de ferro.
( Era um trem fantasma
passando sinistramente na noite).
Caçando frutas e codornas.
Arados, matas, bicas, corgos,
mergulho fundo,
acampamentos de madeiras.
Assim meninos ainda, aprendemos a sonhar,
sonho de olhos abertos.
Amor caipirano faz parte deste
sonho.
Bahia / 1982

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