Gabriel Archanjo de Mendonça

Gabriel Archanjo de Mendonça

Gabriel Archanjo de Mendonça foi um poeta e escritor cuja obra se insere no contexto literário do século XX em Portugal. A sua produção poética, embora por vezes menos divulgada em comparação com outros nomes da sua época, revela uma sensibilidade particular para a observação do quotidiano, a reflexão sobre a passagem do tempo e as complexidades das relações humanas. Com uma linguagem que oscila entre o lirismo e uma certa crueza observacional, Mendonça procurou capturar a essência da experiência humana, com as suas alegrias, angústias e interrogações. A sua obra, marcada por uma voz autoral genuína, convida à introspeção e a uma reavaliação da perceção sobre a vida e a sociedade.

n. , Salvador, Brasil · m. , París

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Rotineiro

Ter que mastigar
o segredo encardido
que o sagrado não comporta.

Ter que expor ao cosmo
a pele trabalhada
e acomodar
entre os ossos carcomidos
o abominável.

Ter que cumprir o perpendicular
na estrada sem meta
quando os joelhos suplicam
o macio da terra.

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Poemas

10

Rotineiro

Ter que mastigar
o segredo encardido
que o sagrado não comporta.

Ter que expor ao cosmo
a pele trabalhada
e acomodar
entre os ossos carcomidos
o abominável.

Ter que cumprir o perpendicular
na estrada sem meta
quando os joelhos suplicam
o macio da terra.

818

Relicário

A noite do meu relógio
me manda arquivar mais um dia.
Um dia banal
ruminado a contragosto.

Mas sei
que este mesmo dia
há de ter seu momento
de glória
ao diluir-se na lágrima certa
dos guardados do meu futuro.

894

Fiat

Vestir a pele inconsútil da cariátide
e vencer o inseto obscuro
na noite definitiva.

Sorver a verticalidade nua
e transpirar o sol da estátua antiga
que a virtude não concebe.

Retalhar-se em moléculas de gozo
e consumir-se na luz.

843

Auto-Suficiente

Sei do meu pouco
sei das limitações do meu domínio.
Sei do que é meu
e sei do que não é meu.
Que não me venham precisar a chave
do sucesso trabalhado
no empirismo da bigorna.

Nem me venham ofertar motivações
da paz que não é minha.
Seja a sombra do meu nada
o Cirineu amigo
que a cada impulso do meu sangue
responda aos meus porquês.

838

Virtuose

Na vastidão de bocas desdentadas
a pastoral tange o verniz das pedras
— mas onde o eco?
O cocho transborda teclas
e as falanges se incendeiam
na pira de sons vivaces.
Fundem-se os tons na digestão difícil.
O líquido se evapora
ao contato do solo impermeável.
Nervos cozidos fervilhando à pele
derretem-se em lavas
na pausa conclusiva.
Lábios carbonizados se contraem
cobrando a palma impossível.

805

Segredo

Eu quis depositar o meu segredo
nas tuas mãos de brasa
e desnudar minha alma ressequida
ante a crepitação de teus olhos.
Mas o vento
que me embalava o sonho
e que me trouxe a teus pés
soprou o sol
que forrava a tua imagem
e a noite se fez.
Que o vento
vomite as cinzas de meu sonho
por sobre a realidade
do meu leito.

892

Desencanto

O sonho realizado
acomodou-se preguiçosamente
na lua da rede
e foi cuidar
por tempo de sesta
na digestão burguesa.

Que o sonho futuro
por mais que sonhado
não passe de sonho.

843

Aclive

A montanha
é um convite obstinado
da consciência.
A antevisão da posse
compensa os sobressaltos
da escalada.
Oh, a vertigem do inusitado.
Os pés se ferem
na ferrugem de agulhas
regeladas.
Avalanchas de pranto
rolando estrepitosamente
entulham gargantas
escancaradas.

843

Sêmen

Não quero poluir
os lírios do campo
com minhas entranhas.
A concha encravada
no estrado dos mares
contenha as sombras estéreis
da minha matéria.

O fruto impossível
do amor impassível
aguarde por sempre
seu tempo de vida.

A inerte semente
que habita o meu sangue
desfaça-se em gotas
para acrescer o mistério
do abismo das águas.

930

Fastio

Mais noites hão de vir
que as que se foram?
Os braços rejeitados
aguardam
o desmoronamento protelado.

A angústia do nada
não logra vencer a ampulheta.
As portas não são ainda
o assomo do consumado.

821

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