Escritas

Lista de Poemas

Canção para Aplacar os Suicidas

Se queres o suicídio,
que te suicides.
Se achas que a vida
não vale a pena,
não a vivas.

A vida só deve ser vivida
com dignidade.
Se o mundo se te faz hostil,
não vivas nele.

Se não há mais espaço
algum no mundo
em que viveres, não vivas.

Mas, antes, bem te certifiques,
busques bem a certeza
de que não mais te reste
espaço algum no mundo.

Se não o há mais, se não
te ocorre mais um fio de esperança,
então já não há o que esperar:
que te suicides sem tardança!

Difícil é não veres um fio de esperança!

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Serena Noite

Noite, serena noite, eu volto ao teu
doce regaço como alguém que, ausente,
chorasse por teu seio e teu conforto
ou suplicasse por teus mornos braços.

Noite, serena noite, eu te amo como
se fosses minha mãe, ou meu refúgio
de todo o mal do mundo, ó noite cara
aos meus sentidos e aos meus passos ágeis.

Ó noite, tu me encobres, protetora,
contra todos os males, contra olhares,
que hostilizam, olhares que torturam

este pobre de mim ao dia exposto.
Noite, serena noite, eu volto ao teu
doce regaço com meus passos ágeis.

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Amarugens

Trazem as ondas amarugens fortes
Que banham o meu corpo já amargo;
Trazem as ondas amarugens tais
Que se unem mais às amarugens minhas.

Por certo, de ondas faz-se a vida toda
E de amarugens duplamente vindas
Da própria vida e das origens nossas...
Por certo, de ondas faz-se a vida e o tempo.

São ondas que se quebram, ondas fortes
Quem em sal se exaurem ou na branca escuma
Que o vento arrasta em sua boca enorme.

Trazem as ondas amarugens, só.
Por certo, de ondas faz-se a vida toda
— Ondas tão fortes mas que em sal se exaurem!

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Pagos da Infância

À Aprígio Rodrigues
Enquanto, sob o sol de primavera,
Nossos campos esplendem de verdura;
Enquanto nós olhamos com ternura
Os passarinhos a esvoaçar nas moitas,

O ar puro nosso sangue retempera
E faz nossas andanças mais afoitas
Pelos pagos da infância que perdemos.

Pagos que visitamos e revemos
Com saudade tamanha, desmedida
Que nos penetra fundo e dilacera.

Contingência fatal de nossa vida:
Perder o que era nosso e, após, rever
O que nunca pensamos de perder
Quando tudo era sonho e primavera!

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Primavera Interior

O tempo que aí vai não é o mesmo tempo
Que no fundo abissal desta minha alma mora.
Se outono e inverno passam, velhos, lá por fora,
Aqui dentro em minha alma habita a primavera.

Estou sempre a sorrir enquanto os outros choram
E estou sempre a chorar quando riem dos outros.
Assim, o tempo fora não é o mesmo tempo
Que no fundo abissal desta minha alma mora.

Mas quando é primavera lá fora, também
Se torna primavera cá dentro em minha alma,
Pois que dentro em minha alma a primavera habita,

Embora que nem sempre possa despontar
O seu perene verde, pois que os maus olhados
Queimariam vigores que me minha alma existem.

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