Fernão Garcia Esgaravunha

Fernão Garcia Esgaravunha

1225–1280 · viveu 55 anos PT PT

Fernão Garcia Esgaravunha foi um poeta medieval português, contemporâneo de Gil Vicente e Sá de Miranda. A sua obra, embora menos extensa que a de outros autores da época, é significativa pela sua poesia de caráter satírico e moralizante. Escreveu em galego-português e é considerado um dos precursores da lírica mais engajada social e politicamente na literatura de língua portuguesa. As suas composições abordam frequentemente costumes da época, criticando a hipocrisia e os vícios da sociedade, com um tom por vezes mordaz, mas sempre com um olhar atento às dinâmicas humanas.

n. 1225, Reino de Portugal · m. 1280, Reino de Portugal

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A Melhor Dona Que Eu Nunca Vi

A melhor dona que eu nunca vi,
per bõa fé, nem que oí dizer,
e a que Deus fez melhor parecer,
mia senhor est, e senhor das que vi,
de mui bom preço e de mui bom sem,
per bõa fé, e de tod'outro bem
de quant'eu nunca doutra dona oí.

E bem creede, de pram, que é 'ssi,
e será já, enquant'ela viver,
e quen'a vir e a bem conhocer,
sei eu, de pram, que dirá que é 'ssi.
Ainda vos de seu bem mais direi:
é muit'amada, pero que nom sei
quen'a tam muito ame come mim.

E por tod'esto mal dia naci,
porque lhe sei tamanho bem querer,
como lh'eu quer'e vejo-me morrer,
e non'a vej', e mal dia naci!
Mais rog'a Deus, que lhe tanto bem fez,
que El me guise com'algũa vez
a veja ced', u m'eu dela parti,

com melhor coraçom escontra mim.
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Biografia

Identificação e contexto básico

**Nome completo:** Fernão Garcia Esgaravunha **Nacionalidade:** Português **Período:** Século XVI

Infância e formação

Pouco se sabe sobre a infância e formação de Fernão Garcia Esgaravunha. A sua educação, no entanto, permitiu-lhe dominar a língua galego-portuguesa e adquirir os conhecimentos necessários para a sua produção literária, que demonstra uma certa erudição e um olhar crítico sobre a sociedade.

Percurso literário

O percurso literário de Fernão Garcia Esgaravunha insere-se no período de transição entre a Idade Média e o Renascimento em Portugal. A sua obra é marcada por uma veia satírica e moralizante, contrastando com a poesia mais lírica e cortesã predominante. Escreveu em galego-português, a língua literária da época, e as suas composições circularam em cópias manuscritas. É frequentemente associado a um grupo de poetas que utilizaram a poesia como veículo para a crítica social.

Obra, estilo e características literárias

A obra de Fernão Garcia Esgaravunha é caracterizada por um tom satírico e crítico, abordando temas como os costumes sociais, a hipocrisia, a corrupção e os vícios da época. Utiliza a língua galego-portuguesa com mestria, empregando um vocabulário expressivo e, por vezes, rude, adequado à sua intenção de denúncia. A forma poética varia, mas a sua poesia partilha com a tradição das cantigas, embora com uma temática mais terrena e social. O seu estilo é direto e incisivo, visando provocar reflexão no leitor.

Contexto cultural e histórico

Fernão Garcia Esgaravunha viveu num período de importantes transformações em Portugal, no limiar do Renascimento. A sua poesia reflete uma sociedade em mudança, com tensões entre valores tradicionais e novas influências. O seu engajamento social e crítico coloca-o num contexto literário que, embora ainda ligado à tradição medieval, já prenuncia a emergência de uma literatura mais voltada para a realidade humana e social.

Vida pessoal

Informações sobre a vida pessoal de Fernão Garcia Esgaravunha são escassas. Não se sabe detalhes sobre a sua família, profissão ou convicções pessoais que possam ter influenciado diretamente a sua obra, para além da sua evidente capacidade de observação social.

Reconhecimento e receção

O reconhecimento de Fernão Garcia Esgaravunha foi limitado na sua época, e a sua obra circulou principalmente em meios restritos. Contudo, ao longo do tempo, a sua poesia tem sido valorizada pela sua originalidade temática e estilística, reconhecendo-se o seu papel como um dos primeiros poetas portugueses a abordar a sátira social de forma tão contundente.

Influências e legado

As influências em Fernão Garcia Esgaravunha podem ser encontradas na tradição das cantigas satíricas medievais. O seu legado reside na introdução de uma forte componente de crítica social na poesia em língua portuguesa, abrindo caminho para futuros poetas que utilizariam a arte como ferramenta de intervenção.

Interpretação e análise crítica

A obra de Fernão Garcia Esgaravunha é frequentemente interpretada como um retrato vívido da sociedade do seu tempo, marcada por uma perspicácia na deteção de falhas morais e sociais. A sua poesia oferece um contraponto interessante à produção lírica mais idealizada, revelando uma faceta mais crua e realista da existência humana.

Curiosidades e aspetos menos conhecidos

O nome "Esgaravunha" sugere um carácter talvez mais popular ou uma ligação a um ofício ou característica pessoal. No entanto, não há confirmação ou detalhe sobre o significado exato ou as circunstâncias que levaram à adoção deste apelido.

Morte e memória

Informações sobre a morte de Fernão Garcia Esgaravunha não estão disponíveis. A sua memória perdura através das suas composições poéticas, que continuam a ser estudadas e apreciadas pela sua relevância histórica e literária.

Poemas

20

A Que Vos Fui, Senhor, Dizer Por Mi

A que vos fui, senhor, dizer por mi
que vos queria mao preço dar,
do que eu quer'agora a Deus rogar,
ponh'eu dela e de mi outrossi:
       que El i leixe mao prez haver
       a quem mal preço vos quer apoer!

A que a gram torto me vosco miscrou
e que gram torto vos disse, senhor,
por en serei sempr'[a] Deus rogador,
de mim e dela, que m'esto buscou,
       que El i leixe mao prez haver
       a quem mal preço vos quer apoer!

Mais torne-se na verdade, por Deus,
(ca vos nom disse verdad', e[u] o sei!)
log'eu dela e de mim rogarei
a Deus, que vejam estes olhos meus,
       que El i leixe mao prez haver
       a quem mal preço vos quer apoer!
554

Tod'home Que Deus Faz Morar

Tod'home que Deus faz morar
u est a molher que gram bem
quer, bem sei eu ca nunca tem
gram coita no seu coraçom,
pero se a pode veer;
mais quem end'há lonj'a viver
aquesta coita nom há par!

Ca, pois u ela est' estar
pode, nom sabe nulha rem
de gram coita, ca, de pram, tem
assi eno seu coraçom:
qual bem lhi quer de lho dizer;
e nom pode gram coita haver
enquant'en'aquesto cuidar.

E quem bem quiser preguntar
por gram coita, mim pregunt'en,
ca eu a sei, vedes per quem:
per mim e per meu coraçom.
E mia senhor mi a faz saber
e o seu mui bom parecer
e Deus, que m'en fez alongar

por viver sempr'em gram pesar
de mim, e por perder o sem
com haver a viver sem quem
sei eu bem no meu coraçom.
Ca nunca já posso prazer,
u a nom vir, de rem prender.
Vedes que coita d'endurar!

E o que atal nom sofrer
non'o devedes a creer
de gram coita, se i falar!
682

Quand'eu Mia Senhor Conhoci

Quand'eu mia senhor conhoci
e vi o seu bom parecer
e o gram bem que lhi Deus dar
quis, por meu mal, log'entendi
que por ela ensandecer
me veeriam e levar
grandes coitas e padecer.

Pero que eu soub'entender,
quando os seus olhos catei,
que por ela, e nom por al,
me veeriam morte prender,
por que me log'i nom quitei
d'u a nom visse? É que o mal,
que hoj'eu sofro, receei

muit'e temi; mais eu cuidei,
com mui mal sem que houv'entom,
que podess'eu sofrer mui bem
as grandes coitas que levei
por ela eno coraçom;
e provei-o, e pois, quand'en
me quis partir, nom foi sazom

de m'en partir; ca em outra rem
nom pud'eu cuidar des entom!
507

Que Grave Cousa, Senhor, D'endurar

Que grave cousa, senhor, d'endurar
pera quem há sabor de vos veer:
per nulha rem de nom haver poder,
senom mui pouco, de vosco morar!
E esso pouco que vosc'estever,
entender bem, senhor, se vos disser
algũa rem, ca vos dirá pesar.

A mim avém a que quis Deus guisar
d'haver gram coita já mentr'eu viver,
pois a vós pesa de vos eu dizer
qual bem vos quero; mais a Deus rogar
quer'eu assi, ca assi m'é mester:
que El me dê mia mort', e se nom der,
tal coraçom a vós d'en nom pesar.

E mia senhor, por Deus que vos falar
fez mui melhor e melhor parecer
de quantas outras donas quis fazer,
por tod'aqueste bem que vos foi dar,
vos rog'hoj'eu por El que, pois El quer
que vos eu ame mais doutra molher,
que vos nom caia, senhor, em pesar!
656

A Melhor Dona Que Eu Nunca Vi

A melhor dona que eu nunca vi,
per bõa fé, nem que oí dizer,
e a que Deus fez melhor parecer,
mia senhor est, e senhor das que vi,
de mui bom preço e de mui bom sem,
per bõa fé, e de tod'outro bem
de quant'eu nunca doutra dona oí.

E bem creede, de pram, que é 'ssi,
e será já, enquant'ela viver,
e quen'a vir e a bem conhocer,
sei eu, de pram, que dirá que é 'ssi.
Ainda vos de seu bem mais direi:
é muit'amada, pero que nom sei
quen'a tam muito ame come mim.

E por tod'esto mal dia naci,
porque lhe sei tamanho bem querer,
como lh'eu quer'e vejo-me morrer,
e non'a vej', e mal dia naci!
Mais rog'a Deus, que lhe tanto bem fez,
que El me guise com'algũa vez
a veja ced', u m'eu dela parti,

com melhor coraçom escontra mim.
745

Senhor Fremosa, Quant'eu Cofondi

Senhor fremosa, quant'eu cofondi
o vosso sem e vós e voss'amor,
com sanha foi que houve, mia senhor,
e com gram coita, que me faz assi,
senhor, perder de tal guisa meu sem
que cofondi vós – em que tanto bem
há quanto nunca doutra don'oí.

Mais valha-me contra vós, por Deus, i
vossa mesura e quam gram pavor
eu hei de vós, que sode'la melhor
dona de quantas eno mundo vi;
e se mi aquesto contra vós nom val,
senhor fremosa, nom sei hoj'eu al
com que vos eu ouse rogar por mi.

Maila mesura que tanto valer,
senhor, sol sempr'a quen'a Deus quer dar,
me valha contra vós, e o pesar
que hei, senhor, de quanto fui dizer;
ca, mia senhor, quem mui gram coita tem
no coraçom faz-lhe dizer tal rem
a que nom sabe pois conselh'haver.

Com'hoj'eu faço e muit'estou mal,
ca, se mi assi vossa mesura fal,
nom há i al, senhor, senom morrer!
611

Senhor Fremosa, Convém-Mi a Rogar

Senhor fremosa, convém-mi a rogar
por vosso mal, enquant'eu vivo for,
a Deus, ca faz-me tanto mal Amor,
que eu já sempr'assi lh'hei de rogar:
que El cofonda vós e vosso sem
e mim, senhor, porque vos quero bem,
e o Amor, que me vos faz amar.

E [por] vosso sem, que em mi errar
vos faz tam muito, serei rogador
a Deus assi: que confonda, senhor,
el muit'e vós e mim, em que errar
vos el faz tanto. E al mi ar convém
de lhe rogar: que ar cofonda quem
me nom leixa convosco mais morar.

E os meus olhos, a que vos mostrar
fui eu, por que viv'hoje na maior
coita do mundo, ca nom hei sabor
de nulha rem, u vo-lhes eu mostrar
nom poss'; e Deus cofonda mi por en,
e vós, senhor, e eles e quem tem
em coraçom de me vosco mezcrar.
464

Quem Vos Foi Dizer, Mia Senhor

Quem vos foi dizer, mia senhor,
que eu desejava mais al
ca vós, mentiu-[vos]. Se nom, mal
me venha de vós e de Deus!
E se nom, nunca estes meus
olhos vejam nẽum prazer
de quant'al desejam veer!

E veja eu de vós, senhor,
e de quant'al amo, pesar,
se nunca no vosso logar
tive rem no meu coraçom;
atanto Deus nom me perdom
nem me dê nunca de vós bem,
que desej'eu mais doutra rem!

E per bõa fé, mia senhor,
amei-vos muito mais ca mi,
e se o nom fezesse assi,
de dur verri'aqui mentir
a vós, nem m'iria partir
d'u eu amasse outra molher
mais ca vós; mais pois que Deus quer

que eu a vós queira melhor,
valha m'El contra vós, senhor,
ca muito me per é mester!
669

Hom'a Que Deus Bem Quer Fazer

Hom'a que Deus bem quer fazer,
nom lhe faz tal senhor amar
a que nom ouse rem dizer,
com gram pavor de lhe pesar;
nen'o ar faz longe morar
d'u ela é, sem seu prazer;

com'agora mim faz viver,
que me nom sei conselh'achar,
com tam gram coita de sofrer,
em qual m'eu ora vej'andar,
com'haver sempr'a desejar
mais doutra rem de a veer.

Mais nom pod'aquesto saber
senom a quem Deus quiser dar
a coita que El fez haver
a mim, des que me foi mostrar
a que El fez melhor falar
do mund'e melhor parecer.
629

Quam Muit'eu Am'ua Molher

Quam muit'eu am'ũa molher
non'o sabe Nostro Senhor,
nem ar sabe quam gram pavor
hei hoj'eu dela, cuido-m'eu;
ca, se o soubesse, sei eu
ca se doeria de mi
e nom me faria assi
querer bem a quem me mal quer.

Pero que dizem que negar
nom xe Lhe pode nulha rem
que El nom sábia, sei eu bem
que aind'El nom sabe qual
bem lh'eu quero, nem sab'o mal
que m'ela por si faz haver;
ca, se o soubesse, doer-
s'-ia de mi, a meu cuidar.

Ca Deus de tal coraçom é
que, tanto que sabe que tem
eno seu mui gram coit'alguém,
logo lhi conselho pom;
e por esto sei eu que nom
sab'El a coita que eu hei,
nem eu nunca o creerei
por aquesto, per bõa fé.
458

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